segunda-feira, 19 de maio de 2008

Rememorando... 2005 - Na unicamp...

I. MetaReciclagem e apropriação
(Dalton) A gente sentia um problema muito sério que era quando as pessoas chegavam e falavam assim: nós vamos construir um projeto de inclusão digital, ou vamos construir um laboratório de informática, vamos dar cursos, abrir um telecentro, dar acesso à informação. Mas e a apropriação tecnológica? Como é que eu me aproprio dessas ferramentas? Ou melhor, estou me apropriando dessas ferramentas ou simplesmente ampliando o mercado de acesso à mídia de massa?
Aí num dado momento chegamos na idéia de trabalhar com a apropriação de tecnologia dentro das máquinas: como se apropriar do hardware. Por que não abrir o hardware, por que não reinventar esse hardware, porque não adaptar, reinterpretar esse hardware?
II. Contexto da apropriação
(Dalton) Quando você começa a perceber a questão da apropriação tecnológica como sendo um elemento que pode derivar para um projeto ou uma circunstância de construção cultural que leve a essa integração econômica, financeira, e que isso pode levar para a sustentabilidade, você também começa a pensar em como construir políticas públicas, em como construir pesquisa e desenvolvimento, em cima dessa idéia de apropriação tecnológica. Então você passa a sair de um modelo onde as pessoas que pesquisam e desenvolvem a tecnologia fazem parte do time de desenvolvimento do fabricante, para reintegrar esse produto e essa tecnologia numa nova escala. A gente começou a perceber que esse processo também derivava de necessidade dos usuários daquela tecnologia de extrapolarem seus limites e muitas vezes essas necessidades também tinham um cunho econômico, no sentido de que em uma série de circunstâncias sociais e culturais não havia a condição de financiar determinadas idéias e projetos.
III. A prática da apropriação na MetaReciclagem
Por exemplo, se a gente vai montar o que hoje pode ser conhecido como um telecentro, a primeira coisa que vamos fazer é descontruir a tecnologia, é desmontar essas máquinas, perceber que dentro delas há uma série de tecnologias embarcadas que a gente dá o macro-nome de computador, mas isso é apenas um conceito. e que essas tecnologias embarcadas podem ser desconstruídas isoladamente.
IV. Apropriação em sentido mais amplo
Quer dizer, quando eu sento para usar meu laptop, para ver o meu computador, será que a construção espacial do local aonde estou pensando para a prática da minha construção de conhecimento através da tecnologia é um espaço do qual efetivamente eu estou me apropriando? Então levar esse conceito da apropriação um pouco mais a fundo, um pouco além dentro de nossas práticas. Porque senão a gente senta naquelas baias de computador que parecem cochos, a gente não vê as pessoas estão ao lado, manda emails uns para outros, constrói todo um processo colaborativo que se dá no espaço online, e a gente não consegue se olhar um nos olhos do outro, que estamos sentados um do lado do outro.
V. Apropriação no cotidiano
Então faz parte do nosso processo radicalizar a nossa prática em termos reflexivos de como estamos nos apropriando da tecnologia, senão caímos na situação de usar o debian e o firefox na nossa máquina mas quando aparece um bug a gente dá cancel por que dá trabalho reportar o bug no bugzilla, porque dá trabalho entrar na comunidade e mostrar o ponto falho daquela tecnologia que estamos usando. Pensar isso sobre a nossa prática. qual é a nossa prática de apropriação tecnológica? Efetiva, no dia a dia, no uso do hardware do software, e da colaboração em rede, e como podemos transferir isso no campo teórico para construir essa ligação entre as pessoas e entre esses atores.
VI. Apropriação metafórica
(Orlando Lopes) você falou em outros níveis de reapropriação. Vocês estão pensando a partir de uma base, a base do Hacker, o primeiro momento, o primeiro experimento que vocês estão fazendo de como ele funciona. Agora, a partir do momento que você tem essa imagem da uma sensação, como você falou de a partir dali você vai replicar a metareciclagem... vocês estão trabalhando com o conceito de apropriação metafórica junto com a idéia de reapropriacao?
(Dalton) Sim, eu diria que sim. Na verdade, você só consegue fazer uma reinterpretação da tecnologia como primeiro grau de apropriação tecnológica se você invadir o campo da metáfora. Se você entrar no campo da metáfora você constrói toda uma simbologia. Eu me identificar com aquilo de uma outra forma, então eu construo um significado diferente para aquilo.
Pô, pega um computador, “ah um computador eh como se fosse uma maquina de escrever”, ou o notebook, porque tem esse nome notebook? O mouse... como eh que eu dou novos nomes para aquilo, né? Como eu chamo, como eu explico o que é um HD dentro de um computador sem ter que usar a velha metáfora de um fichário de arquivos, que vem de uma metáfora de desktop, de escritório e que muitas vezes a pessoa nem conhece aquilo, nunca nem viu um fichário de arquivo?
VII. O processo de desconstrução
(Dalton) o processo de desconstrução surgiu de uma necessidade prática. Para montar novos computadores era necessário canibalizar outros, então a gente tinha que sacar muitas vezes um transistor de placa para colocar em outra para que aquele transistor pudesse suprir uma necessidade. Então ela começou de uma prática, o fato de eu ter que pegar doações das mais diversas possíveis e a partir destas doações, que têm realidades técnicas das mais diversas, eu poder construir novas máquinas, me levou a partir para a desconstrução. Depois, a gente começou a perceber que este processo de desconstrução estava na pedagogia, está lá em Paulo Freire, e os caras já estão falando isso há décadas e tem tudo a ver com isso. Quer dizer, como é que eu trago esse processo do Paulo Freire, como eh que eu trago as idéias do Piaget, e por aí vai embora. Como é que eu entro com isso dentro deste processo?
VIII. Colaboração
Marcio BlackSe o software livre aparece como resistência ao estado e o Dalton falando da metareciclagem, trabalhar com o estado e trabalhar com as corporações não cria um ruído ai? Não cria um ruído no software livre, no software livre ou na metareciclagem, seja qual for essa ação comunitária, não cria um ruído?
(Dalton) Vamos voltar um pouco. Quando você coloca assim: o software livre como resistência às corporações, eu discordo. Eu não acho que o software livre é uma resistência à corporação até porque o software livre só existe como existe graças às corporações, graças à Redhat, graças à IBM, graças à Suse e por aí vai. Elas que deram possibilidades. Corporações que emergiram da prática do software livre que deram as possibilidades para que ele se constituísse da forma que ele é. Então eu não vejo essa “resistência” às corporações. Eu não acho que é por aí a maneira de compreender isso, até porque se você entra em uma comunidade de software livre, um monte de gente trabalha em empresa e constrói o kernel do Linux porque tem uma empresa que paga o salário do cara. Então eu acho, pra ser mais ousado, que a gente não tem que ver as corporações no sentido de resistência, no sentido de embate. A gente tem que ver a forma como as corporações se organizam como um campo fluídico onde a gente pode penetrar e interagir lá dentro, e rearticular o sistema produtivo, e não ver como um embate.
Marcio Black Você acha que é possível isso então? Fazer a empresa abrir mão de uma parte do lucro dela pra poder incorporar essas soluções que a metareciclagem dá ou traz? Ou ela não vai se apropriar disso, capturar isso daí para, lógico, gerar lucro; eu não conheço empresa que não queira lucro.
(Dalton) Dentro do que a gente concebe como colaboração entra uma outra linha aqui. Quando você pensa na dimensão econômica da colaboração, esta dimensão se efetiva no seguinte ponto: a colaboração se dá numa troca e numa organização modular e elementar. Então, por exemplo, quando eu produzo um pedaço de código eu estou jogando granularidades na rede. Quando eu divido e subdivido um trabalho, estou colocando modularidades à disposição. Isso tem valor econômico mas não financeiro porque eu estou contribuindo com a rede. O que tem valor financeiro é o processo de integração das modularidades. Chega uma empresa no site do metareciclagem, e fala assim: “Pô esses caras têm um monte de idéia legal!” Ela pega aquilo, integra de uma certa forma e chama aquilo de um produto. E vende! E faz lucro! E eu não tô nem aí pra isso! Isso é muito legal, no meu ponto de vista. Ela conseguiu fazer uma leitura da elementaridade que está dentro do wiki, e conseguiu dar um valor financeiro para aquela elementariedade. Para mim beleza! Isso é o que fez o Debian ser o que é, a Redhat ser o que é, a Suse ser o que é. Eles integraram o software, as elementaridades do software numa dimensão que deu uma cara financeira. Isso não abalou a comunidade, isso não abalou a rede, isso fortaleceu a rede porque, de uma certa forma esses caras deram subsídios pra que a apropriação e a integração que a empresa fez fosse o feedback, falando de concepção sistêmica, no próprio sistema da rede. Então, olha que coisa maluca, a gente coloca através da emergência na rede uma corporação para colaborar com você. A corporação se torna parte da rede.
Marcio Black -Não é você que está colocando a corporação para colaborar com você. É ela que está se apropriando do seu trabalho.
(Dalton) Não! É o sistema da rede, ela não tem como se inserir neste sistema se ela não for mais um nó!
IX. Xemeliza a MetaReciclagem aê!
Cara de óculos barbudo magro braquelo em portunhol: Eu sou um observador aqui e estou achando na verdade que todas as coisas que vocês falam extremamente interessantes, extremamente complexas, não? E tem também uma coisa quase artistica, uma sensibilidade, uma coisa muito graciosa, não? Mas também entra essa complexidade, acho uma coisa muito difícil você discutir, muito difícil entrar no discurso, no vosso diálogo. Tem uma linguagem muito específica, eu acho que é uma comunidade que é muito complexa, muito excêntrica, uma coisa muito complicada para dedicar sua vida não? Então, falando da teoria e da prática, eu estou achando que tem uma prática muito sofisticada, mas na teoria eu tenho uma pergunta que é muito simples mas acho que não se falou ainda: eu não consegui entender no teu discurso, como se faz, através dessas práticas muito complexas, para inserir, quando se diz inserir na verdade dentro dos problemas ou das saias da sociedade onde vocês se sentem inconformados, sim? Eu acho que vocês poderiam criar uma rede incrível, mundial e global de pessoas com conhecimentos muito complexos que fazem reinvenção do que vocês querem, mas onde está o elo que vai unir isso com uma incidência real e necessária com as quais vocês estão inconformados? As grandes corporações, esse sistema global de neoliberalismo. Gostaria de entender isso porque até agora não vi, mas pode ser que como o discurso é muito técnico eu não... Assim, eu sou sociólogo, então estou procurando esse elo que não estou conseguindo perceber até agora. Para todos vocês que estão neste meio... Eu gostaria de entender isso, porque acho que também seria importante pra vocês, não uma coisa de teoria mas é necessário pra uma prática que esteja transcendendo, ou seja, além do discurso muito complexo, muito fechado né?
(Dalton) A idéia de falar a respeito de apropriação tecnológica foi trazer um discurso pra gente debater. Um discurso teórico pra gente debater em cima de práticas daquilo que a gente chama de MetaReciclagem, de um projeto de desconstrução e apropriação tecnológica. Isso foram conceitos que a gente vem elaborando, vem interpretando, vem tentando traduzir dentro das teorias que a gente vem circulando por aí que como você viu vão pra áreas das mais variadas. A prática disso, dentro dos campos sociais, se dá na dimensão onde você consegue identificar diversas localidades que produzem cultura, que têm todo um trabalho seja musical, visual, seja dançando, seja fazendo, seja cantando, seja organizando. Este trabalho se dá numa dinâmica de rede mas pontual, geograficamente falando. Quando a gente chega com esse processo de apropriação tecnológica em rede dentro de uma comunidade, a gente está criando um mecanismo de difusão, de interação, que sai da localidade e começa articular esses pontos em rede. É isso que a gente vem fazendo, criando espaços de ocupação, entrando nesses espaços e construindo-os junto com as pessoas, dentro daquilo que elas já fazem sem interferir no fazer, mas criando condições para que elas se apropriem de novas tecnologias, seja reinterpretando, seja adaptando, seja reinventando. Mas pensando esse processo de apropriação numa lógica em rede, onde a imersão disso crie estruturas sociais, mecanismos sociais, para que elas possam romper ciclos aos quais estão inseridos historicamente. É esse processo que a gente vem fazendo.

Um comentário:

Hudson disse...

Muito legal ler este post, pois relata toda a dinamica da rede metareciclagem, demostrando que para entender mesmo todo este processo tem que participar, conviver ma lista, entendendo assim como se formar a idéia metarecicleira. Me fez refletir bastante sobre esta rede..vlw mesmo Dalton por esta rememorização...