Pensar em redes é, muitas vezes, uma questão de enxergar como as coisas podem se relacionar entre si. A potência da análise de redes sociais está em permitir visualizarmos as relações que acreditamos existir, facilitando dar contorno e tornar mais evidente que possíveis padrões de relacionamento estamos diante. Pensar em padrões, mais do que pensar naquilo que é determinado, é pensar naquilo que se conjuga nos hábitos, nas tendências de relação que talvez ainda não tenhamos nos dado conta.
Em tese, estamos diante de uma ferramenta de espelhamento, facilitando perceber diversos contextos espelhados nas relações que definem os limites de um sistema. Podemos ver aqui refletidos as políticas de relação, as formas, os modos e as diferentes maneiras possíveis nas quais esses sistemas são concebidos e apropriados por aqueles que lhes utilizam.
Foi com essa motivação como ponto de partida que montei essa apresentação para o Seminário de Usos de Redes Sociais na Produção Científica na USP.
Construindo uma história de links e caminhos, de conexões e conversas, de sentidos e contextos...
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domingo, 2 de dezembro de 2012
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Para além da inclusão sócio-digital: dos jogos de mercado como objetos de política pública
A palavra inclusão aparece como
referência constante em diversas formas de descrição e
apresentação de programas, projetos e experiências na política
pública de forma praticamente unânime entre os mais diversos
entendimentos e posicionamentos das chamadas políticas sociais.
Aparecendo, de forma geral, com o sentido de incluir àqueles que não
tem acesso a determinados bens materiais, serviços e identificação
nas máquinas de governabilidade públicas e privadas, seja por falta
de alcance dos mecanismos e possibilidades de articulação das
estruturas políticas em ação ou seja pelo entendimento de que as
estruturas que fornecem acesso não devem ser geridas pelo própria
máquina pública, a inclusão serve como conceito que abre um campo
de atuação e serve como critério de análise do que pode estar
dentro ou fora.
Visto dessa forma, a inclusão se torna conceito
operatório de produção e entendimento do que deveria balizar e
sustentar as condições de aplicabilidade de uma política pública.
Em outras palavras, se a política é inclusiva, ela dá acesso a
determinados valores e modos de vida que entendemos serem necessários
para sustentar a condição social ideal visualizada pela política
em operação. Se a política não é inclusiva, ela segmenta,
classifica, filtra, escolhe favorecer e empoderar aqueles que
aparentemente já estão inseridos nas redes de circulação dos
serviços e bens ofertados pelas máquinas da governabilidade. O
critério que esse conceito operatório facilmente coloca à vista é
qual o corte do que se entende por incluído e por excluído, que
métodos de medição e análise são utilizados por uma política
para operar essa divisão, entendendo que essa divisão explicita uma
escolha, um campo de atuação e, sobretudo, intervenção que a
política em questão se propõe a lidar. É a possibilidade de
análise dessa segmentação e dos critérios atrelados a ela que nos
permite reposicionar a questão sobre o conceito de inclusão e como
ele vem sendo utilizado em nossas políticas públicas em vigência
atualmente.
Vale aqui explicar, clareando algumas pré-condições
como ponto de partida para a breve análise que aqui se estabelece,
que o título desse artigo inclui a palavra “digital” na relação
com inclusão social com uma intenção clara no que se refere a
dimensão digital como mais um espaço, um universo e um campo de
produção de diferentes formas e tipos de sociabilidade. Entende-se,
desse modo, que essa dimensão é vista como um espaço de
relacionamento humano que pode e é visto por determinadas políticas
públicas como campo de intervenção e presença das máquinas de
governabilidade que colocamos aqui em análise. A inclusão digital é
vista aqui como o acesso a esse espaço de relacionamento humano, a
esses canais e redes de interação, apenas acessíveis pelo uso de
determinadas tecnologias, que constroem e pautam fluxos de
comunicação, bens materiais e imateriais, serviços, formas de
ativismo, atravessando e sendo atravessado pelas outras tantas
dimensões de sociabilidade nas quais se percebem os espaços de
relacionamento humano. O conceito, os critérios do que está dentro
e do que está fora, além das formas de operação que a expressão
“inclusão” fornece à ação de uma política pública permitem
intervir também através do digital como espaço de governabilidade,
sobretudo, daquilo que se entende como uma ação social proposta por
uma política.
Mais do analisar a questão do digital, se pretende
aqui analisar a questão da inclusão como modo de intervenção no
social. Bruno Latour (2012) resgata a etimologia da palavra “social”
explicitando com mais clareza sobre o quê incluir ou não incluir
está se falando aqui.
“A etimologia da palavra “social” em si é
bastante instrutiva. A raiz é seq-, sequi,
e a primeira acepção é “seguir”. O latim socius
denota um companheiro, um associado. Nas diferentes línguas, a
genealogia histórica da palavra “social” designa primeiro
“seguir alguém” e depois “alistar” e “aliar-se a”, para
finalmente exprimir “alguma coisa em comum”. (…) “Social”
como em “problemas sociais” ou “questão social” é uma
inovação do século 19. O vocábulo paralelo “sociável” alude
à capacidade que tem o indivíduo de de viver polidamente em
sociedade” (Latour, 2012, pag. 24).
Mas, que coisa em comum é essa e que nível de
inserção é esse que permite viver polidamente em sociedade? Como
surge a questão social como um espaço de intervenção que dá
condições e sustenta o surgimento de um sem número de políticas
públicas, logo, estratégias de governabilidade? De que modo incluir
tem a ver com condicionar modos de vida e inserir em fluxos de
operação da máquina governamental já conhecidos, sustentando e
sendo sustentados por condições que mantém as ordens dominantes
instauradas?
Há uma forma de pensamento que vale aqui explicitar,
mesmo que de forma esquemática e reducionista, com a intenção de
colocar de modo mais claro que relação é essa entre “inclusão”,
“social” e “governo” que está posta nesse espaço de análise
que se estabelece. Inclusão vem sendo aqui descrita como um conceito
operatório que viabiliza determinadas políticas públicas,
permitindo estabelecer critérios do que está incluído e do que
deve ser objeto de atuação do governo para promoção da inclusão.
Logo, o governo atua, de certa forma, intervindo nessa “questão
social” com o objetivo de pautar determinadas condições de vida
em sociedade. Que condições são essas?
Tendo estabelecido aqui alguns princípios de
entendimento do conceito “inclusão” e “social”, vale aqui
avançar um pouco mais conceituando como se pode entender o conceito
de “governo” para tocarmos em algumas das questões que foram
aqui levantadas.
“... governo, aqui, é um modo de conceitualizar todos
aqueles programas, estratégias e táticas para a condução da
conduta, mais ou menos racionalizados, para agir sobre as ações dos
outros de maneira a alcançar certos fins. Nesse sentido, pode-se
falar em governo de um navio, de uma família, de uma prisão ou
fábrica, de uma colônia e de uma nação, assim como de um governo
de si” (ROSE, 2011, pag. 25).
Chega-se aqui a um ponto interessante de posicionamento
desses conceitos. Governa-se para agir sobre os outros, para conduzir
conduta. O sociável e a questão social torna-se campo de
intervenção, modo de atuar para induzir e promover determinados
tipos de conduta e modos de ação desejados. Incluir torna-se modo
de produzir políticas públicas que tenham por intenção
estabelecer critérios do que está dentro e do que está fora desses
modos de sociabilidade polidos e desejados pelo governo das condutas.
No entanto, essa governança de conduta não acontece
nos tempos em que vivemos de modo aleatório. Vive-se sob a
influência de um tipo de racionalidade fundamentalmente influenciada
por questões de fundo econômico e financeiro. Os parâmetros de
renda e padrões de consumo servem de critérios de regulação de
inúmeras formas do que condiciona os modos de vida e espaços de
sociabilidade por onde os seres humanos interagem e se produzem
mutuamente. O que serve de critério entre incluído e excluído se
baseia diretamente nos indicadores econômicos que categorizam as
diferentes classes, comunidades e formas de segregação.
Buscando entender como o jogo econômico pauta as
formas de governo atuais, Foucault (2008b) deixa claro o que define
esse critério do incluído/excluído que aqui se coloca em
evidência.
“Ora, essa ideia de que deve haver uma regra de
não-exclusão e de que a função da regra social, da regulamentação
social, da seguridade social no sentido amplo do termo deve ser a de
garantir pura e simplesmente a não-exclusão de um jogo econômico
que, fora disso, deve se desenrolar por si mesmo, é essa ideia que é
aplicada, esboçada em todo caso, em toda uma série de medidas mais
ou menos claras” (FOUCAULT, 2008b, pag. 278).
Logo, as políticas de inclusão, sejam elas a partir
dos espaços do digital ou não, vistas dessa forma tornam-se
estratégias de um governo visando a inserção das condutas por
dentro desse jogo econômico, entendendo que uma vez inseridas no
jogo o próprio jogo têm condições de se regular, operando a
partir de estratégias que deixam de serem espaços de atuação do
governo para serem espaços de atuação do mercado. Criar condições
de consumo, criar condições de se posicionar em algum lugar no jogo
econômico é, portanto, posicionar as bases dos modos de vida que
essa governança de condutas pretende estabelecer. Garantir que o
espaço de liberdade seja o espaço de liberdade do mercado, ou seja,
que a liberdade se dê a partir das regras de funcionamento e dos
contornos estabelecidos pelo mercado é garantir a eficácia e os
critérios de sucesso das políticas de inclusão, melhorando níveis
de renda e condições de inserção num jogo para o qual o próprio
governo foi pensado e construído para manter.
É disso que se trata, em sua grande maioria, as
políticas públicas de inclusão produzidas no âmbito de governos
constituídos como neoliberais, sendo sustentados e mantidos como
condições de existência e garantias da liberdade dos próprios
mercados que os produzem. Se a possibilidade de livre comércio é o
interesse maior no jogo de interesses do que está em disputa, o
papel do governo é garantir que ele ocorra, produzindo condições
para que se amplie nas esferas em que ainda não atua, incluindo no
“social” os que estão fora do jogo.
Vale dizer que aqui não se coloca um juízo de valor
explícito, afirmando que esse modo de entender os conceitos que
analisamos defina essas políticas como negativas ou num sentido
depreciativo qualquer. Ao contrário. O que aqui se objetiva é
estabelecer alguns critérios de análise para que se perceba com um
pouco mais de clareza o que de fato parece estar em jogo. É apenas
entendendo como tem se produzido esses espaços de atuação que
temos melhores condições de se ver dentro do próprio jogo,
percebendo que papel ocupa, que discurso sustenta e se esse discurso
parece operar políticas em direção ao que de fato desejamos ou a
um jogo econômico que talvez ainda não se tenha percebido como o
que tem regulado os modos de vida e fazer político atuais.
Logo, já encaminhando para algumas ainda breves
conclusões que tiramos dessas relações estabelecidas, falar de
questões como empoderamento coletivo, constituição de sujeitos
autônomos e a possibilidade de produzir espaços de co-gestão é
falar de outros jogos que parecem não dialogar e serem compatíveis
com essa busca contínua da eficácia financeira e econômica desse
modo de governar. Além disso, é falar de outras possibilidades que
criem condições e funcionem como outros modos de operar política
que não a visão da inclusão nos jogos de mercado.
É novamente Foucault (2008a) que parece dar pistas
interessantes de posicionamento do olhar para além desse jogo:
“Então, frente a essa política global do poder se
fazem revides locais, contra-ataques, defesas ativas e às vezes
preventivas. Nós não temos que totalizar o que apenas se totaliza
do lado do poder e que só poderíamos totalizar restaurando formas
representativas de centralismo e de hierarquia. Em contrapartida, o
que temos de fazer é instaurar ligações laterais, todo um sistema
de redes, de bases populares” (FOUCALT, 2008a, pag. 74).
É para além dos jogos de mercado, para além da
economia como critério que determina modos de relacionamento e
condiciona modos de vida que outros níveis de pensamento abrem
espaço e permitem operar em estruturas de representatividade que não
reproduzam essas formas de centralismo e hierarquia que são as
condições de base da própria existência dos modos de
governabilidade atuais. É por outro caminho que deslocamos essa
racionalidade e abrimos espaço para outras formas. É por outras
condições de relação, onde os posicionamentos se lateralizam,
onde o coletivo opera como aquele que constrói contorno, que define
seu espaço e se vê como agente de seu próprio modo de vida que
outras redes são possíveis, que outros fluxos de interação podem
ser pensados. E nisso, sem dúvida, a dimensão do digital pode
colaborar na produção de outros jogos de relacionamento, não como
condição de partida, mas como condição de apropriação de uma
racionalidade que lhe antecede e opera por outros valores.
Referências
FOUCAULT, Michel.
Microfísica do poder.
Graal. 26ed. 2008a. 295p.
FOUCAULT, Michel.
Nascimento da biopolítica.
Martins Fontes. 2008b. 474p.
LATOUR, Bruno.
Reagregando o social: uma introdução à teoria do
Ator-Rede. Edufba/Edusc. 2012.
399p.
ROSE, Nikolas.
Inventando nossos selfs: psicologia, poder e subjetividade.
Vozes. 2011. 308p.
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
Conversando sobre Design colaborativo e dispositivos móveis como meios de intervenção social no I Congresso de Extensão Universitária da Unifesp
Desde os tempos de estudante universitário que escuto falar que uma universidade de qualidade, pública e gratuita deveria ser feita de três eixos fundamentais: pesquisa, ensino e extensão. A pesquisa e o ensino são elementos que têm me sido bastante próximos nos últimos, mas a extensão universitária era algo que de fato nunca tinha me colocado para pensar sobre e analisar seus efeitos, impactos e possíveis modos de trabalho quando envolve de fato professores, alunos, trabalhadores em geral e a própria comunidade onde o objeto de extensão surge como desenho e contorno de prática.
Ocorre que desde o começo desse ano estamos numa boa parceria com o núcleo Educação, Tecnologia e Cultura da Universidade Federal de São Carlos no contexto do projeto +Telecentros. Uma preocupação central desse espaço é trabalhar a questão da extensão como um elemento de articulação entre o que é produzido na universidade e o que é experenciado na relação com a sociedade. Questões de fundo interessantes, mas, sobretudo, modos de envolver alunos de graduação e pós-graduação que fazem muito sentido quando pensamos que a Universidade poderia ser um amplo de espaço de debate e experiência de outros modos de produzir uma sociedade.
O envolvimento do aluno é algo que tem me surpreendido. O impacto que as reuniões trazem, as reflexões que eles se fazem entre o que rola na sala de aula e o que vivenciam no ambiente de implementação de um projeto em uma política pública federal, os efeitos que isso vai acarretando em seu modo de entender seu papel, de como questionar esse mesmo papel.
A convite dos professores de lá, preparamos um material para apresentar no I Congresso de Extensão Universitária promovido pela Unifesp aqui em São Paulo. Fui eu e Felipe Cabral apresentarmos o trabalho que estamos desenvolvendo na área de Web para o projeto na parte da manhã, Felipe e Gus Gannan apresentando a parte de dispositivos móveis na período da tarde.
Conversa boa por lá. O ponto em que nos posicionamos era olharmos para a forma como produzimos um site, seja ele uma rede, um ambiente de divulgação de informação, agregação ou o uso que quisermos dar, como um meio fundamental de discutirmos as próprias apostas de como entendemos que um projeto deve funcionar, como ele deve operar e que impactos a organização da informação desse projeto causa na maneira como entendemos o próprio projeto. Produzir um site é menos uma técnica ou o desenvolvimento de um produto, sendo muito mais, neste caso, uma oportunidade de abrirmos diálogos que nos organizem e facilitem refletirmos sobre o que fazemos, como fazemos e como nos vemos uns aos outros. A conversa impactou algumas pessoas, trazendo questões interessantes sobre como articulamos esse trabalho em relação aos próprios caminhos de pesquisa da Universidade, suas formas de aprofundamento, documentação e efeitos em toda a comunidade acadêmica. Enfim, novos sentidos ganhando corpo para nós ali, em ato e presença.
Outro ponto forte da conversa, que nem sempre é um ponto trivial por aí afora, foi debatermos que não acreditamos numa cisão entre o que chamamos tradicionalmente de "equipe de tecnologia" e aqueles que operam os sentidos e caminhos de um projeto. Essa cisão tem a tendência de alienar investimentos emocionais e técnicos que poderiam estar a favor de uma melhor compreensão de como nos comunicamos e de como operamos enquanto grupo no espaço e na posição de gerir um projeto de forma coletiva. Conversa forte, abrindo espaços para questionarmos vários pontos de tensão que brotam em nossas relações de dia-a-dia: hierarquia, posições de poder, circulação de fluxos de informação e por aí vai.
Ocorre que desde o começo desse ano estamos numa boa parceria com o núcleo Educação, Tecnologia e Cultura da Universidade Federal de São Carlos no contexto do projeto +Telecentros. Uma preocupação central desse espaço é trabalhar a questão da extensão como um elemento de articulação entre o que é produzido na universidade e o que é experenciado na relação com a sociedade. Questões de fundo interessantes, mas, sobretudo, modos de envolver alunos de graduação e pós-graduação que fazem muito sentido quando pensamos que a Universidade poderia ser um amplo de espaço de debate e experiência de outros modos de produzir uma sociedade.
O envolvimento do aluno é algo que tem me surpreendido. O impacto que as reuniões trazem, as reflexões que eles se fazem entre o que rola na sala de aula e o que vivenciam no ambiente de implementação de um projeto em uma política pública federal, os efeitos que isso vai acarretando em seu modo de entender seu papel, de como questionar esse mesmo papel.
A convite dos professores de lá, preparamos um material para apresentar no I Congresso de Extensão Universitária promovido pela Unifesp aqui em São Paulo. Fui eu e Felipe Cabral apresentarmos o trabalho que estamos desenvolvendo na área de Web para o projeto na parte da manhã, Felipe e Gus Gannan apresentando a parte de dispositivos móveis na período da tarde.
Conversa boa por lá. O ponto em que nos posicionamos era olharmos para a forma como produzimos um site, seja ele uma rede, um ambiente de divulgação de informação, agregação ou o uso que quisermos dar, como um meio fundamental de discutirmos as próprias apostas de como entendemos que um projeto deve funcionar, como ele deve operar e que impactos a organização da informação desse projeto causa na maneira como entendemos o próprio projeto. Produzir um site é menos uma técnica ou o desenvolvimento de um produto, sendo muito mais, neste caso, uma oportunidade de abrirmos diálogos que nos organizem e facilitem refletirmos sobre o que fazemos, como fazemos e como nos vemos uns aos outros. A conversa impactou algumas pessoas, trazendo questões interessantes sobre como articulamos esse trabalho em relação aos próprios caminhos de pesquisa da Universidade, suas formas de aprofundamento, documentação e efeitos em toda a comunidade acadêmica. Enfim, novos sentidos ganhando corpo para nós ali, em ato e presença.
Outro ponto forte da conversa, que nem sempre é um ponto trivial por aí afora, foi debatermos que não acreditamos numa cisão entre o que chamamos tradicionalmente de "equipe de tecnologia" e aqueles que operam os sentidos e caminhos de um projeto. Essa cisão tem a tendência de alienar investimentos emocionais e técnicos que poderiam estar a favor de uma melhor compreensão de como nos comunicamos e de como operamos enquanto grupo no espaço e na posição de gerir um projeto de forma coletiva. Conversa forte, abrindo espaços para questionarmos vários pontos de tensão que brotam em nossas relações de dia-a-dia: hierarquia, posições de poder, circulação de fluxos de informação e por aí vai.
quarta-feira, 13 de junho de 2012
Apresentando sobre dinâmica de evolução de revistas científicas e bibliotecas digitais no 3º Simpósio Brasileiro de Comunicação Científica na Universidade Federal de Santa Catarina
Semana passada estive na Universidade Federal de Santa Catarina, no campus de Florianópolis, para participar do 3º Simpósio Brasileiro de Comunicação Científica. O evento faz parte das ações de pesquisa do programa de pós-graduação em Ciência da Informação e trouxe como temática do encontro a questão do acesso aberto.
Tema bom de conversar e ainda com muito, mas muito para ser feito em termos de tecnologia, pesquisa e, sobretudo, entendimento humano do assunto. Como tenho feito já a um tempo, estou participando de eventos desse tipo, enviando trabalhos do doutorado, como estratégia para conhecer melhor a área da CI no Brasil, o que tem sido feito, quem está atuando e construir melhores formas de me inserir também nesse contexto.
Alguns bons temas foram discutidos por lá nos dois dias do evento. Vou resumir aqui o que considero como as principais contribuições para o debate e onde acho que temos bastante espaço para experimentar bons processos de relação:
E no final, até um show Hare Krishna com distribuição de comida vegana rolou! Bom encontro!
Tema bom de conversar e ainda com muito, mas muito para ser feito em termos de tecnologia, pesquisa e, sobretudo, entendimento humano do assunto. Como tenho feito já a um tempo, estou participando de eventos desse tipo, enviando trabalhos do doutorado, como estratégia para conhecer melhor a área da CI no Brasil, o que tem sido feito, quem está atuando e construir melhores formas de me inserir também nesse contexto.
Alguns bons temas foram discutidos por lá nos dois dias do evento. Vou resumir aqui o que considero como as principais contribuições para o debate e onde acho que temos bastante espaço para experimentar bons processos de relação:
- Banco Mundial e Unesco agora possuem diretrizes institucionais de promoção a seus repositórios em acesso aberto, seguindo os padrões da OAI.
- A União Européia finalizou recentemente um projeto chamado PEER - Publishing and the ecology of european research. O projeto se propunha a investigar os efeitos causados pela publicação sistemática de artigos científicos revisados pelos pares do ponto de vista dos leitores, dos journals assim como em toda a ecologia da pesquisa na união européia. Diversos materiais interessantes foram gerados ao longo de 4 anos de trabalho.
- Pesquisadores americanos têm criado alguns manifestos sobre a abertura integral e de acesso aberto aos resultados das pesquisas que foram financiadas pelo governo. Bom debate rolando aqui.
- Para novos processos, novos modos de dar visibilidade sempre são uma etapa que ajudam e muito a conseguirmos avança na consolidação de novas ideias. A PLOS (Public Library of Science) tem se proposto a construir e experimentar novos indicadores que busquem avançar nas limitações de avaliação que hoje existem quando utilizamos apenas o fator de impacto. O Article level metrics é uma iniciativa fundamental para esse debate. A ideia aqui por detrás é mostrar como temos a necessidade de trabalhar de forma multidimensional para construir sistemas de avaliação de impacto que expandam as nossas limitações de olhar do que é hoje considerado uma boa pesquisa científica. Trabalham com as seguintes dimensões e suas possíveis integrações: usage, citations, social bookmarking and dissemination activity, media and blog coverage, discussion activity and ratings.
- O projeto total-impact.org é uma iniciativa que permite criarmos uma coleção de objetos de pesquisa que desejamos rastrear e avaliar ao mesmo seu impacto na comunidade acadêmica. Permite criar coleções de artigos, dados, gráficos, entre outros e avaliar como eles são apropriados em diferentes dimensões. Muito útil.
- Um livro interessante sobre os "novos colégios invisíveis" foi comentando como uma boa tentativa de mostrar como a ciência, a dinâmica da pesquisa e os fluxos de redes têm mudado nos últimos anos no mundo todo.
- Nas apresentações de trabalho, deu para sentir as primeiras conversas sobre curadoria digital de dados, sobretudo num projeto que foi ali apresentado, do Digital Curation Centre. É um projeto do Governo inglês que visa auxiliar suas universidades e instituições de pesquisa a promoverem processos de curadoria de seus dados digitais, ou seja, arquivarem dados brutos de pesquisa e não somente aqueles que já foram processados e se tornaram relatórios, artigos ou outros tipos de trabalhos. Outro debate fundamental: onde publicar os dados brutos da minha pesquisa? O quanto eles não poderiam alimentar de ideias e possibilidades de experimentação outros pesquisadores que tivessem interesses semelhantes aos meus? O quanto isso não poderia favorecer a melhor circulação de nossas próprias ideias?
- Sobre ferramentas, duas delas foram bem lembradas para análise de padrões complexos em dados de produção científica: Citespace e Sci2.
Abaixo, segue a apresentação que fiz no Simpósio e o link do artigo apresentado.
E no final, até um show Hare Krishna com distribuição de comida vegana rolou! Bom encontro!
Postado por
Dalton Martins
às
11:27
Um comentário:
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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Emergência de redes ou aprofundamento da política neoliberal? Abrindo novos espaços de pensar....
O encantamento e a sedução pela idéia de que a emergência de redes sociais baseadas na Internet representa um novo modo de transformação dos modos tradicionais de relação social parece ter tocado diretamente parte expressiva do modo como pesquisadores e ativistas entendem suas ações de intervenção nos domínios da cultura digital. Mas, outros modos de observar esses eventos, sem dúvida, são possíveis e necessários, sobretudo aqueles que buscam dar um passo ao lado e procuram contextualizar esses movimentos observando suas dimensões correlatas na política e na economia.
Questionar se de fato estamos vivendo o início de uma nova onda de possibilidades de livre expressão, cyberdemocracia, transparência e liberdade de relações parece ultrajante em determinados contextos. Mas, observando como tem se desenvolvido a apropriação sobre o que podemos chamar de trabalho imaterial como gerador de valor, principalmente por parte das grandes empresas voltadas para a Internet, como Google, Facebook e Yahoo, que utilizam seus potentes algoritmos para identificação de padrões e promoção de novos tipos de serviços, marketing e mesmo a criação de novos mercados de consumo do imaterial, temos portas abertas para enxergar outros movimentos e valores que impulsionam o próprio desenvolvimento da grande rede.
Como podemos obter evidências e aprofundar análises que permitam questionarmos essas tendências e observamos com mais cuidado os próprios movimentos que são impulsionados com o nome de liberdade da informação e que de fato alimentam grandes ilhas de dados que movem enormes negócios por todo o mundo? Como produzir dados e indicadores para analisar os próprios efeitos do isolamento e apropriação de dados e indicadores? É fundamental pesquisar e buscar traçar esse perfil, identificando movimentos de análise que permitam vincularmos tendências políticas, mudanças de mercado, indicadores econômicos e a própria análise dos fluxos e tendência de uso da Internet, levando a novas camadas de consistência analítica que nos permitem questionar os modos de fazer cultura digital nos tempos em que vivemos.
Questionar se de fato estamos vivendo o início de uma nova onda de possibilidades de livre expressão, cyberdemocracia, transparência e liberdade de relações parece ultrajante em determinados contextos. Mas, observando como tem se desenvolvido a apropriação sobre o que podemos chamar de trabalho imaterial como gerador de valor, principalmente por parte das grandes empresas voltadas para a Internet, como Google, Facebook e Yahoo, que utilizam seus potentes algoritmos para identificação de padrões e promoção de novos tipos de serviços, marketing e mesmo a criação de novos mercados de consumo do imaterial, temos portas abertas para enxergar outros movimentos e valores que impulsionam o próprio desenvolvimento da grande rede.
Como podemos obter evidências e aprofundar análises que permitam questionarmos essas tendências e observamos com mais cuidado os próprios movimentos que são impulsionados com o nome de liberdade da informação e que de fato alimentam grandes ilhas de dados que movem enormes negócios por todo o mundo? Como produzir dados e indicadores para analisar os próprios efeitos do isolamento e apropriação de dados e indicadores? É fundamental pesquisar e buscar traçar esse perfil, identificando movimentos de análise que permitam vincularmos tendências políticas, mudanças de mercado, indicadores econômicos e a própria análise dos fluxos e tendência de uso da Internet, levando a novas camadas de consistência analítica que nos permitem questionar os modos de fazer cultura digital nos tempos em que vivemos.
sábado, 17 de dezembro de 2011
Desdobramentos de conversas sobre as análises da Rede Conversê.org
No meio desse ano, comecei a avançar em experimentos mais concretos sobre algumas hipóteses de como estudar redes a partir de suas bases de dados. Lá em Durban, em julho, comecei a brincar com a base de dados da rede Conversê.org, uma ação fundamental que foi executada no âmbito do projeto Cultura Digital por gente querida na busca por ampliar os espaços coletivos e de conversação que existiam nos projetos culturais até então.
Experiência rica, intensa, o que só me motivou mais a querer trabalhar com ela. Comecei a construir um artigo que buscasse sintetizar alguns modos interessantes que eu gostaria de mostrar sobre como essa rede se desenvolveu ao longo de seu tempo de existência. Escolhi o formato de artigo por ser uma estrutura formal o suficiente para meu desejo de organizar as informações necessárias para obter o efeito que eu estava buscando naquele momento: menos discurso aberto, mais síntese de movimentos.
O artigo foi publicado essa semana na revista Em Questão, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A primeira coisa que fiz foi apresentar o resultado do trabalho para as redes Estúdio Livre e Metareciclagem, por onde ainda circulam várias pessoas que participaram da concepção, implantação e desenvolvimento do projeto Conversê. Meu desejo: conversar, ouvir comentários, críticas, ampliar minha capacidade de olhar para aquilo que tem me interessado nos últimos tempos.
Começou uma conversa muito interessante, puxada pela Fabi Borges e que vale relatar por aqui:
"fabi,
tuas questões são um ponto chave...
de fato, são perguntas como essas que têm me movido a estudar as coisas desse modo.
escutei e escuto muitos discursos bonitos, floridos falando sobre redes, sobre projetos que eu participe e que, por experiência, eu sabia que o que aqueles discursos revelavam estava longe da minha percepção empírica das coisas.
mas, como demonstrar isso? com mais contra-discurso apenas, ficaria só mais uma versão da história. os gráficos e análise ajudam a embasar um pouco mais, apesar de não resolverem essas perguntas, como você bem colocou. dão um grau a mais para outras versões da história.
algumas hipóteses minhas:
bjs,
dalton"
E assim segue a conversa...
Experiência rica, intensa, o que só me motivou mais a querer trabalhar com ela. Comecei a construir um artigo que buscasse sintetizar alguns modos interessantes que eu gostaria de mostrar sobre como essa rede se desenvolveu ao longo de seu tempo de existência. Escolhi o formato de artigo por ser uma estrutura formal o suficiente para meu desejo de organizar as informações necessárias para obter o efeito que eu estava buscando naquele momento: menos discurso aberto, mais síntese de movimentos.
O artigo foi publicado essa semana na revista Em Questão, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A primeira coisa que fiz foi apresentar o resultado do trabalho para as redes Estúdio Livre e Metareciclagem, por onde ainda circulam várias pessoas que participaram da concepção, implantação e desenvolvimento do projeto Conversê. Meu desejo: conversar, ouvir comentários, críticas, ampliar minha capacidade de olhar para aquilo que tem me interessado nos últimos tempos.
Começou uma conversa muito interessante, puxada pela Fabi Borges e que vale relatar por aqui:
"fabi,
tuas questões são um ponto chave...
2011/12/17 fabi borges <catadores@gmail.com>:> horizontal de fato, que nao tinha poder de fato??--
> pq esses usuarios nao mantiveram interesse?
> entra ahi um problema de design?
> ou ainda, por falta de "cultura" de colaboracao?
> Seria pq estava atrelada ao ESTADO e isso dava sensacao de que nao era
de fato, são perguntas como essas que têm me movido a estudar as coisas desse modo.
escutei e escuto muitos discursos bonitos, floridos falando sobre redes, sobre projetos que eu participe e que, por experiência, eu sabia que o que aqueles discursos revelavam estava longe da minha percepção empírica das coisas.
mas, como demonstrar isso? com mais contra-discurso apenas, ficaria só mais uma versão da história. os gráficos e análise ajudam a embasar um pouco mais, apesar de não resolverem essas perguntas, como você bem colocou. dão um grau a mais para outras versões da história.
algumas hipóteses minhas:
- não acho que seja problema de design;
- não acho que seja falta de cultura de colaboração;
- não acho que é pelo papel do "estado";
- acho, e tenho buscado coletar, compilar, refletir sobre evidências mais fortes nesse sentido, que tem muito a ver com dois modos que podem se complementar de enxergar redes:
- as redes auto-organizadas que emergem por si só: metareciclagem,
é um exemplo disso. o contexto convoca, as pessoas se encontram pq que
querem, por que sentem que ali encontra a força de uma conversa que não
acontece em outro lugar. É como se uma certa vibra corresse no ar,
instigando em diferentes modos a vontade de fazer algo que acaba se
tornando num contexto de rede.
- as redes construídas por projetos ou ações que visam promover coletivos e ampliar o potencial de auto-organização de grupos: esses são bem mais complexos, pois envolvem uma questão crucial pra mim: cuidado e afeto. Se as pessoas encontrarem em redes gente disposta a recebê-las, acolher de fato, conversar, responder, cuidar, demonstrar interesse verdadeiro (não a vontade de vender e fazer o ritual canibal marketeiro número 2), coisas muito interessantes podem acontecer. Mas, investir num processo desse demanda tempo, demanda muita, mas muita energia na vontade e disposição de conversar. Poucas redes que eu conheço se propuseram e conseguiram executar isso bem feito. Alguns exemplos, como a Rede Humaniza SUS, a rede Telecentros.br (os monitores de telecentros) caminham nessa vertente e dão boas pistas de como investir energia e inspiração nesse sentido.
- Acho que a rede Conversê tentou ficar num misto disso, não fazendo nenhuma e nem outra. Mas, isso é só uma hipótese...
bjs,
dalton"
E assim segue a conversa...
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Apresentando no IV SECIN - Seminário de Ciência da Informação
Fui ontem a Londrina, visitar a Universidade Estadual - UEL, participando do IV SECIN para apresentar alguns resultados de meu trabalho de doutorado por lá.
Ambiente gostoso, lugar desconhecido com cheiro de conhecido, clima quente, boas caminhadas, reflexões e boas conversas. Tem sido muito interessante para mim essa andança que tenho feito a partir do começo desse ano, indo a outras universidades, conhecer pessoas, apresentar e assistir apresentações de trabalhos de gente que está estudando e buscando se tornar um pesquisador assim como eu.
O caminho da pesquisa é fascinante por muitas razões. Mas, sobretudo, o que tem mais me atraído é a possibilidade do "livre" pensar, para quem quer e está disposto a se articular para isso. Conhecer pessoas, construir ideias, imaginar desenhos e contornos de possibilidades, conseguir tempo para experimentar e atuar a partir de outras demandas de tempo é algo singular e muito raro. A qualidade do trabalho muda, o olhar se afina para coisas que antes não pareciam fazer sentido, os fundamentos do pensamento são colocados em questão e novas janelas se abrem a partir de cada encontro.
O fundamental é se permitir a isso, se livrando de preconceitos e outros valores que podem na verdade criar níveis de engessamento que acabam te impedindo de ouvir o outro e conhecer sua perspectiva sobre um trabalho. Seja dentro da universidade ou fora, nos movimentos ativistas, políticos ou qualquer que seja, gente é gente, curiosidade é curiosidade e, sobretudo, liberdade é liberdade. Mentes livres que não precisam de contornos prévios para se definir. Elas partem do exato ponto onde estão e produzem um mundo novo em qualquer brecha que visualizam.
Frutos de conversas... Mas, apresentei o trabalho abaixo por lá.
Na conversa final, numa boa apresentação da turma por lá, fizemos algumas passagens interessantes buscando entender como uma área ainda tão pequena como a Ciência da Informação poderia agregar tanta gente de outros campos, espaços e experiências de pesquisa/trabalho.
É fato que a Ciência da Informação é um espaço muito pouco definido. Por isso, tão interessante. Sendo Ciências Sociais Aplicadas, como formalmente é pensada, acaba agregando gente que vêm das engenharias, exatas, filosofia, comunicação, e por aí vai. Um campo/espaço de conversa, lugar mal formado em passo de se formar, espaço aberto para construções de referências, pensamentos e modos de olhar para as coisas ainda livres de julgo pré-definido com o rigor do pensamento "real". Realidade em trânsito, em modos de transitar, em meios de caminhar, espaços para serem preenchidos.
Delícia de local, habitar o "entre" de vários outros locais. Ativador de imaginários, o que tem sido fundamental em tempos de transições de modos de olhar, pensar e agir.
É fato que a realidade é mágica, que pode ser construída de relance, no trânsito do pensamento em movimento de pensar. A informação é "objeto" livre de definição, objeto surgido com o objetivo de estar num sempre vir a ser definição. Metáfora interessante, útil como disparador de novos sentidos que se prestam a dissolver sentidos. Brincadeiras contínuas de modos de pensar.
Enfim... muito foi disparado nessa conversa de ontem a tarde. Feliz de ter participado e ver esse tipo de papo acontecer em locais que jamais imaginaria encontrar esse tipo de interface. Ainda só começando... ;-)
Ambiente gostoso, lugar desconhecido com cheiro de conhecido, clima quente, boas caminhadas, reflexões e boas conversas. Tem sido muito interessante para mim essa andança que tenho feito a partir do começo desse ano, indo a outras universidades, conhecer pessoas, apresentar e assistir apresentações de trabalhos de gente que está estudando e buscando se tornar um pesquisador assim como eu.
O caminho da pesquisa é fascinante por muitas razões. Mas, sobretudo, o que tem mais me atraído é a possibilidade do "livre" pensar, para quem quer e está disposto a se articular para isso. Conhecer pessoas, construir ideias, imaginar desenhos e contornos de possibilidades, conseguir tempo para experimentar e atuar a partir de outras demandas de tempo é algo singular e muito raro. A qualidade do trabalho muda, o olhar se afina para coisas que antes não pareciam fazer sentido, os fundamentos do pensamento são colocados em questão e novas janelas se abrem a partir de cada encontro.
O fundamental é se permitir a isso, se livrando de preconceitos e outros valores que podem na verdade criar níveis de engessamento que acabam te impedindo de ouvir o outro e conhecer sua perspectiva sobre um trabalho. Seja dentro da universidade ou fora, nos movimentos ativistas, políticos ou qualquer que seja, gente é gente, curiosidade é curiosidade e, sobretudo, liberdade é liberdade. Mentes livres que não precisam de contornos prévios para se definir. Elas partem do exato ponto onde estão e produzem um mundo novo em qualquer brecha que visualizam.
Frutos de conversas... Mas, apresentei o trabalho abaixo por lá.
IV SECIN - Paradigma da pesquisa em análise de redes sociais: usos e possibilidades para a Ciência da Informação no Brasil
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Na conversa final, numa boa apresentação da turma por lá, fizemos algumas passagens interessantes buscando entender como uma área ainda tão pequena como a Ciência da Informação poderia agregar tanta gente de outros campos, espaços e experiências de pesquisa/trabalho.
É fato que a Ciência da Informação é um espaço muito pouco definido. Por isso, tão interessante. Sendo Ciências Sociais Aplicadas, como formalmente é pensada, acaba agregando gente que vêm das engenharias, exatas, filosofia, comunicação, e por aí vai. Um campo/espaço de conversa, lugar mal formado em passo de se formar, espaço aberto para construções de referências, pensamentos e modos de olhar para as coisas ainda livres de julgo pré-definido com o rigor do pensamento "real". Realidade em trânsito, em modos de transitar, em meios de caminhar, espaços para serem preenchidos.
Delícia de local, habitar o "entre" de vários outros locais. Ativador de imaginários, o que tem sido fundamental em tempos de transições de modos de olhar, pensar e agir.
É fato que a realidade é mágica, que pode ser construída de relance, no trânsito do pensamento em movimento de pensar. A informação é "objeto" livre de definição, objeto surgido com o objetivo de estar num sempre vir a ser definição. Metáfora interessante, útil como disparador de novos sentidos que se prestam a dissolver sentidos. Brincadeiras contínuas de modos de pensar.
Enfim... muito foi disparado nessa conversa de ontem a tarde. Feliz de ter participado e ver esse tipo de papo acontecer em locais que jamais imaginaria encontrar esse tipo de interface. Ainda só começando... ;-)
quarta-feira, 6 de julho de 2011
Conferência ISSI 2011 - anotações do quarto dia
Mais um dia de conferência, mais um dia de vários toques interessantes.
O dia começou com uma apresentação de Olle Persson sobre técnicas de mapeamento e melhorias metodológicas em visualização de grafos de redes. A preocupação básica da apresentação, e de várias outras que transcorreram ao longo do dia, foi como criar maior relevância/reputação a determinadas conexões como forma de deixar menos poluídas as imagens de redes que são geradas. O fundo dessa conversa, ao meu ver, não pode ser só focada em como resolvemos nosso problema como pesquisadores, mas sim como entendemos melhor e reconhecemos as estruturas de relevância que produzimos ao atuar em rede.
Logo depois, começaram as sessões de apresentação dos poster, na qual meu trabalho e da Sueli Mara, minha orientadora do doutorado, estavam alocados.
A primeira vez que participo desse tipo de encontro, utilizando o formato de posters para divulgar pesquisas em estágio ainda iniciais. Gostei do formato, na real, dá para analisar aquilo que te interessa, conversar com quem está por ali apresentando o trabalho, trocar contatos, enfim, conhecer um pouco mais o que cada um está fazendo. Clima bom, boas conversas. A pesquisa que trouxemos para apresentar foi uma revisão dos principais artigos publicados no Brasil sobre questões relacionadas a "redes sociais" e "informação", onde mostramos que tipo de recursos de análise os pesquisadores têm utilizado, a dificuldade de trabalhar com grandes massas de dados e problemas ainda metodológicos no uso de novas técnicas de análise. Sem dúvida, esse é um campo ainda muito no início no Brasil, ainda mais por tudo o que tenho visto aqui. Há muito a experimentar, pois temos características, focos de análise que passam longe das preocupações que circulam num fórum como esse. Por exemplo, nesses dias todos não vi ninguém apresentar nada relacionado a produção cultural, a apropriação de tecnologia, a produção independente, gambiarra, software livre, etc, etc. Apesar disso, o tipo de metodologia e estrutura de análise que o povo daqui tá utilizando também está bem a frente do que usamos em outros tipos de estudos, como mencionei acima. Uma boa junção.
Depois da sessão de posters, fui para as mesas de trabalho do dia. Segue uma síntese por aqui:
O dia começou com uma apresentação de Olle Persson sobre técnicas de mapeamento e melhorias metodológicas em visualização de grafos de redes. A preocupação básica da apresentação, e de várias outras que transcorreram ao longo do dia, foi como criar maior relevância/reputação a determinadas conexões como forma de deixar menos poluídas as imagens de redes que são geradas. O fundo dessa conversa, ao meu ver, não pode ser só focada em como resolvemos nosso problema como pesquisadores, mas sim como entendemos melhor e reconhecemos as estruturas de relevância que produzimos ao atuar em rede.
Logo depois, começaram as sessões de apresentação dos poster, na qual meu trabalho e da Sueli Mara, minha orientadora do doutorado, estavam alocados.
A primeira vez que participo desse tipo de encontro, utilizando o formato de posters para divulgar pesquisas em estágio ainda iniciais. Gostei do formato, na real, dá para analisar aquilo que te interessa, conversar com quem está por ali apresentando o trabalho, trocar contatos, enfim, conhecer um pouco mais o que cada um está fazendo. Clima bom, boas conversas. A pesquisa que trouxemos para apresentar foi uma revisão dos principais artigos publicados no Brasil sobre questões relacionadas a "redes sociais" e "informação", onde mostramos que tipo de recursos de análise os pesquisadores têm utilizado, a dificuldade de trabalhar com grandes massas de dados e problemas ainda metodológicos no uso de novas técnicas de análise. Sem dúvida, esse é um campo ainda muito no início no Brasil, ainda mais por tudo o que tenho visto aqui. Há muito a experimentar, pois temos características, focos de análise que passam longe das preocupações que circulam num fórum como esse. Por exemplo, nesses dias todos não vi ninguém apresentar nada relacionado a produção cultural, a apropriação de tecnologia, a produção independente, gambiarra, software livre, etc, etc. Apesar disso, o tipo de metodologia e estrutura de análise que o povo daqui tá utilizando também está bem a frente do que usamos em outros tipos de estudos, como mencionei acima. Uma boa junção.
Depois da sessão de posters, fui para as mesas de trabalho do dia. Segue uma síntese por aqui:
- Sessão Networks 1 - a mesma tendência de como criar novas estruturas de produção de relevância para melhorar a análise de grafos estava presente na mesa como um todo. Algumas propostas caminhavam no sentido de utilizar não só a conexão, mas seu conteúdo como um espaço relacional a ser caracterizado a partir de critérios determinados. Outros pesquisadores têm trabalho com a ideia de que pedaços de documentos podem ser vistos como genes que são passados para outras produção, derivando mutações e transformações. Ideia interessante, Dawkins já falava isso nos memes, mas a aplicação não interessou muito. Outra pesquisa falava sobre como considerar a formação de "cartéis" de citação entre pesquisadores de uma área científica. Para isso, ele propunha estudar não só apenas o efeito da auto-citação, mas os efeitos e movimentos das redes de pesquisadores próximos no grafo de forma conjunta a partir dos indicadores de proximidade. Ideia interessante. Ele separou e analisou como evolui no tempo os diferentes níveis de atuação desses pesquisadores em camadas distintas de rede. Gostei da forma como isso foi apresentado. No meu caso, faria sentido entender como evolui no tempo as diferentes camadas de colaboração num espaço de produção científica: instituições, departamentos, grupos, etc.
- Sessão Data Sources 1 - Foi uma sessão de vários trabalhos em andamento, com menos tempo de apresentação para cada um. Marcou a presença de pesquisas brasileiras, mostrando como o país está se fortalecendo para dentro, ao contrário do que outros estudos apontavam. Em tese, os movimentos brasileiros têm fortalecido a atuação nos jornais do país, consolidando espaços internos de publicação da produção. Interessante entender como isso se relaciona com as políticas públicas na C & T.
- Sessão Key address - Apresentou uma fala o Ricardo Baeza Yates, um dos líderes na europa do Yahoo Lab. A fala se concentrou em analisar quais são as limitações atuais de algoritmos de busca da informação na Web - como o Pagerank - e quais estão sendo algumas das tendências futuras na área e para onde o Yahoo está olhando. Em termos de limitações dos algoritmos, o ponto mais forte que foi mencionado é o que ele chama de relevância negativa, ou seja, como tratar movimentos de spam que produzem centanas/milhares de sites, redirecionam links e articulam conjuntos de estratégia para "enganar" a estrutura dos atuais algoritmos. O ponto chave está em identificar isso e as experiências que estão fazendo é usar mais e mais dados gerados em redes sociais como acoplamento a indexação tradicional de links. Algumas experiências foram mostradas, alguns resultados potenciais e melhores significativas aos atuais algoritmos. A checar melhor! No entanto, a visão da Yahoo é que a pesquisa na web não deve mudar significativamente em termos de algoritmos de busca, mas sim na experiência do usuário ao realizar buscas. Um outro recurso que ele mostrou foi o WebScope da Yahoo, que é uma plataforma que fornece dados livres estruturados para estudantes, grupos de pesquisa e interessados de forma geral. Por exemplo, dados de usuários que votaram em suas músicas preferidas no sistema do Yahoo, dados de linguagem natural, relações sociais e por aí vai. Bem útil para experimentações quando não temos os dados que precisamos.
- Sessão Webometrics 2 - A mesa tratou de análises do Google Scholar e Google Books, mostrando como os dois podem servir de plataformas para pesquisas em webmetria e cienciometria. Um ponto alto da apresentação foi a ferramenta Publish or Perish, que coleta os primeiros 1000 resultados do Google Scholar e sistematiza de uma forma delícia de ver. Acabei de baixar a ferramenta e já fiz com uma experiência com a Rede MetaReciclagem, o que já me surpreendeu logo de cara. Foi interessante também observar como os resultados do Scholar desequilibram totalmente o que é esperado como resultado tradicional de produção científica. Por exemplo, por ele, o Brasil é o terceiro país com mais conteúdo publicado. Isso se deve ao tipo de recurso que o Brasil está utilizando para divulgar sua produção científica, no caso o Scielo, ou seja, deixando os dados mais acessíveis para indexadores desse tipo. Enfim, ocupando espaços. Vale a pena conferir mais trabalhos do Statistical Cybermetrics Research Group.
- Sessão Networks and Visualization - Essa sessão foi sem grandes novidades, apresentando um pouco mais daquilo que já falei acima.
terça-feira, 5 de julho de 2011
Conferência ISSI 2011 - anotações do terceiro dia
Finalizando o terceiro dia aqui na conferência ISSI 2011. Algo que me ocorreu de ontem para hoje é que acabei não comentando muito qual razão de ter vindo aqui para a África do Sul e por quê participar de um congresso de uma sociedade de cienciometria e infometria.
O fato principal é que meu doutorado foi, por várias razões que levaram isso, encaminhado por dentro de um departamento de Ciências da Informação, lá na USP. No começo, eu mal sabia exatamente do que se tratava essa área do conhecimento e fui/venho gradativamente gostando do que tenho visto e experimentando nesse espaço de reflexão. A área está bastante voltada para reflexões em geral sobre analisar, refletir e pensar questões relacionadas a informação, seja do ponto de vista qualitativo, quantitativo, tecnológico, social, modelo de produção, financiamento, políticas de inovação, etc, etc, etc.. Muitos temas que acabei me envolvendo nos útimos anos convergem de forma bastante interessante nesse tipo de espaço. Logo, cá estou, vindo conhecer o que, pretensamente, dizem os pesquisadores que são considerados de ponta na área.
Vamos ao dia de hoje.
O foco estava voltado para apresentações de trabalhos acadêmicos completos que foram submetidos para avaliação e participação no congresso. Mais de 200 pessoas estavam por aqui hoje, que foram divididas em 3 salas a sua escolha, onde ocorriam as apresentações. O programa completo das apresentações, pesquisadores e seus trabalho está disponível no site da ISSI, para quem tiver maior interesse de acessar os trabalhos individuais. Aqui, comento apenas as sínteses de cada sessão que fui fazendo.
Fiz um roteiro que me pareceu mais coerente com meus temas de interesse e reporto por aqui o que me chamou atenção por onde passei:
O fato principal é que meu doutorado foi, por várias razões que levaram isso, encaminhado por dentro de um departamento de Ciências da Informação, lá na USP. No começo, eu mal sabia exatamente do que se tratava essa área do conhecimento e fui/venho gradativamente gostando do que tenho visto e experimentando nesse espaço de reflexão. A área está bastante voltada para reflexões em geral sobre analisar, refletir e pensar questões relacionadas a informação, seja do ponto de vista qualitativo, quantitativo, tecnológico, social, modelo de produção, financiamento, políticas de inovação, etc, etc, etc.. Muitos temas que acabei me envolvendo nos útimos anos convergem de forma bastante interessante nesse tipo de espaço. Logo, cá estou, vindo conhecer o que, pretensamente, dizem os pesquisadores que são considerados de ponta na área.
Vamos ao dia de hoje.
O foco estava voltado para apresentações de trabalhos acadêmicos completos que foram submetidos para avaliação e participação no congresso. Mais de 200 pessoas estavam por aqui hoje, que foram divididas em 3 salas a sua escolha, onde ocorriam as apresentações. O programa completo das apresentações, pesquisadores e seus trabalho está disponível no site da ISSI, para quem tiver maior interesse de acessar os trabalhos individuais. Aqui, comento apenas as sínteses de cada sessão que fui fazendo.
Fiz um roteiro que me pareceu mais coerente com meus temas de interesse e reporto por aqui o que me chamou atenção por onde passei:
- Sessão Science & Technology & Innovation: a ideia dessa mesa de trabalhos era juntar pesquisadores que estavam trabalhando em como identificar transições e movimentos de pesquisas acadêmicas para desenvolvimentos de tecnologias aplicadas pela indústria. Há tendências que indicam que cada vez mais os pesquisadores acadêmicos estão se vinculando ao desenvolvimento de patentes. O que me chamou atenção foi o fato de estarem usando para isso diferentes fontes de informação - jornais (Google News), blogs (Google Blogs), papers (Google Scholar), , resumos de congressos, sites de empresas - para avaliar como a informação vai sendo transmita e em que fase de um espaço para o outro. A ideia de base é demonstrar que o ciclo linear de pesquisa-desenvolvimento-produto é grande parte das vezes falso. Na real, muitas pesquisas importantes relacionadas a tecnologia surgem após grupos desenvolverem usos aplicados de uma ideia. Comentário: a ideia de que a pesquisa gera a inovação pode ser bastante afetada com base nesses estudos. Isso é realmente um ponto que podemos explorar mais. Grupos autônomos podem ser vistos como espaços importantes de inspiração e produção de novas ideias, alimentando e conectando após determinado período, com grupos acadêmicos que buscam desenvolver trabalhos mais formais em algum sentido.
- Sessão Webometrics 1: a mesa foi montada juntando os pesquisadores que tem desenvolvido e experimentado maneiras de analisar dados gerados na Web. O desafio que estão se colocando é como considerar cada vez mais os dados de relações sociais que deveriam ampliar a noção de relevância do que é um trabalho científico. É nesse sentido que alguns experimentos estão sendo propostos, como o Mendeley. Outro trabalho que achei bastante interessante foi uma análise realizada na Finlândia sobre como os sites das prefeituras municipais se linkavam entre si por todo o país, realizando um georefenciamento dos links. A ideia era trabalhar como a informação pública estava circulando e sendo referenciada pelos próprios orgãos públicos. Mostraram clusters de bibliotecas e outros serviços que se apoiavam mutuamente. Utilizaram para coletar os dados um bot voltado para apoio em pesquisas de Ciências Sociais. O último trabalho dessa mesa fez uma análise do Pirate Bay e do Open Street Map. A ideia deles era mostrar o padrão de uso dos participantes dessas ferramentas, dando uma ideia de seu grau de participação ao longo do tempo. Os resultados que mostraram dizem que evidenciam algo que encontramos em muitas redes, uma maior participação logo quando da criação do perfil e depois um desaparecimento gradativo. O Pirate Bay apresenta um padrão um pouco diferente, levando a considerar se a relevância dos arquivos em Torrent que ali são compartilhados cria esse maior nível de interesse em usar a plataforma. Os pesquisadores mencionaram experiências com Sentiment Minining. Comentários: gostei da abordagem dos trabalho e, principalmente, de ver como estão buscando construir as bases da Ciência das Redes, entendo o espaço informacional como um universo vasto de pesquisa. Gosto dessa abordagem e acredito que um olhar um pouco mais refinado para muitos dos projetos que atuamos pode nos ampliar bastante a reflexão sobre as estratégias que utilizamos, a maneira como nos organizamos em rede e muitas possíveis melhorias que poderíamos construir a partir disso. Gosto da ideia de analisar como os sites de um determinado contexto estão se linkando, permitindo otimizar e ampliar o potencial de circulação de muitos serviços que são desenvolvidos e pouco utilizados. Uma boa dica para cidades digitais, governos eletrônicos e experimentos por aí.
- Sessão Collaboration 1: foi uma sessão mais voltada para a discussão de como estudar padrões de colaboração na produção científica, o que envolve análise de padrões de co-autoria. Um dos trabalhos mencionou um novo conjunto de indicadores que têm por objetivo balancear melhor as relações de colaboração internacional, levando em consideração que países que possuem jornais acadêmicos mais fortes tendem a reduzir seu número de colaborações externas. Matematicamente, ideia interessante. Comentário: a sessão não foi tão interessante como as anteriores, mas pude aproveitar algumas dicas estatísticas de construção de gráficos e alguns truques de manuseio da informação.
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Dalton Martins
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segunda-feira, 4 de julho de 2011
Conferência ISSI 2011 - anotações do primeiro dia e segundo dia
A viagem para a África do Sul foi bastante tranquila: um pouco mais de 7 horas até Johannesburg e mais 1 hora de vôo até Durban. Tudo no horário, aeroportos muito bons e boa estrutura pelo caminho. Aproveitar o tempo para ler, escrever e organizar um pouco mais os estudos.
Cheguei no domingo após o almoço, no horário local. Aproveitei para conhecer a região, dar uma olhada na praia considerando que mesmo no inverno o dia estava lindo por aqui. A cidade é bastante bonita, lembra muito algum país europeu ou mesmo uma cidade americana. Ao menos o centro, por onde passei até agora. Avenidas bastante largas, balneários bem bonito, praia bonita.
Cansado da viagem e ainda um pouco confuso do fuso horário (+5 horas) fui dormir cedo para aproveitar o pique do dia seguinte.
Acordei bastante cedo pois estava bem afim de ir a pé até a Durban University of Technology (uma espécie de FATEC da governo federal da África do Sul), onde o evento está acontecendo. A ideia é aproveitar para conhecer mais a cidade, indo a partes que não me parecem nada turísticas, pois a universidade fica bem mais afastada da praia. Consegui seguir bem o mapa até próximo de lá, depois as ruas parecem que simplesmente não seguem mais nenhum padrão esperado quando olhando para o mapa que eu tinha em mãos. Os nomes mudam, os desenhos das ruas são diferentes. Pergunta daqui, pergunta dali, acabei chegando tranquilo e encontrei o povo do evento.
O dia hoje estava divido em dois tutoriais (mini-cursos) nos quais me inscrevi:
Gostei bastante do nível das apresentações, da preocupação com a construção dos argumentos, do cuidado na escolha dos dados, da busca por avançar em novas possibilidades de análise e estruturação da informação. Fazia bastante tempo que eu não participava de um evento e sentia essa sensação. Interessante se dar conta disso.
Dei uma olhada inicial nos anais do evento e achei alguns artigos interessantes para dar uma boa lida depois.
Enfim, um sonho antigo de fazer esse tipo de pesquisa se realizando por aqui. Uma etapa a aproveitar! ;-)
Amanhã, começam as mesas e apresentações dos artigos completos que foram submetidos. Eu exponho na quarta-feira nosso poster
Cheguei no domingo após o almoço, no horário local. Aproveitei para conhecer a região, dar uma olhada na praia considerando que mesmo no inverno o dia estava lindo por aqui. A cidade é bastante bonita, lembra muito algum país europeu ou mesmo uma cidade americana. Ao menos o centro, por onde passei até agora. Avenidas bastante largas, balneários bem bonito, praia bonita.
Cansado da viagem e ainda um pouco confuso do fuso horário (+5 horas) fui dormir cedo para aproveitar o pique do dia seguinte.
Acordei bastante cedo pois estava bem afim de ir a pé até a Durban University of Technology (uma espécie de FATEC da governo federal da África do Sul), onde o evento está acontecendo. A ideia é aproveitar para conhecer mais a cidade, indo a partes que não me parecem nada turísticas, pois a universidade fica bem mais afastada da praia. Consegui seguir bem o mapa até próximo de lá, depois as ruas parecem que simplesmente não seguem mais nenhum padrão esperado quando olhando para o mapa que eu tinha em mãos. Os nomes mudam, os desenhos das ruas são diferentes. Pergunta daqui, pergunta dali, acabei chegando tranquilo e encontrei o povo do evento.
O dia hoje estava divido em dois tutoriais (mini-cursos) nos quais me inscrevi:
- Introduction to scientometrics and webometrics - Peter Ingwersen - A ideia do tutorial era apresentar os principais conceitos e aplicações da cienciometria e webmetria. Achei interessante, o tal do Peter falava com bastante propriedade de várias coisas que eu apenas tinha ouvido falar até então. Deu para ter uma noção mais geral sobre cienciometria, apesar do tema não me interessar tanto. Aproveitei algumas boas dicas sobre gráficos, como estruturar a informação e alguns cuidados para não representar conclusões errôneas por falta de critérios estatísticos. Já na parte de webmetria, um assunto pelo qual tenho passado nos últimos anos, a abordagem foi interessante, porém não trouxe contribuições que fossem muito além do trabalho que a gente vem desenvolvendo. Mas, abordagem e forma de organizar a informação me pareceu muito boa. Peter tem uma proposta de analisar nós da web em 3 níveis, páginas, sites e domínios, criando camadas distintas para análise de relação entre esses níveis. Por exemplo, como os sites .gov se relacionam com os sites .org ao referenciar uma determinada página, ou como o domínio blogspot.com se relaciona referenciando um determinado recurso na web. Falou um pouco sobre o Site Explorer do Yahoo, posicionando essa ferramenta e seus potenciais de análise. Falou também do Blog Pulse, uma ferramenta do Nielsen. Além disso falou de algumas métricas comuns da web (número de links direcionados/número de entradas produzidas) e como normalizar esses dados de forma a criar critérios estatísticos de comparação. Peter considera que a área de estudo e análise das tais mídias sociais é ainda muito explorada pelos estudos no campo da informação, com muito espaço aberto para novos modelos analíticos poderem surgir. Comentário meu: novas formas de circular a informação vão exigir, se quisermos fazer ciência a partir disso, novas maneiras de entender como o espaço informacional é constituído. O fato é que, ao meu ver, os pesquisadores não considerarem dimensões das estratégias de articulação de relações sociais, o distanciamento entre aquilo que analisam e o que ocorre nas redes vai ser cada vez maior.
- Sci2: a tool of science of Science Research and Practice - Katy Börner - A Katy é diretora de um centro de pesquisa chamado Cyberinfrastructure for Network Science Center que tem como objetivo principal desenvolver software de apoio a pesquisa e agregar diferentes algoritmos de análise e visualização de redes. Ela organizou um tutorial para apresentar o Sci2, um software livre feito em Java com Python que agrupa uma quantidade bastante interessante de algoritmos de análise e visualização de redes com aplicações explícitas em várias áreas do conhecimento. Um dos pontos altos da apresentação foi como o software já possui scripts para analisar e animar a evolução de redes ao longo do tempo. É algo que tenho procurado já fazia um bom tempo e ainda não tinha encontrada nada muito consistente a respeito. A abordagem principal da apresentação é que esse tipo de ferramenta tem se tornado os telescópios e microscópios do nosso tempo, no que consiste fazer ciência a partir da enorme quantidade de dados que temos a disposição atualmente. Concordo bastante com essa visão, que é, por sinal, uma das coisas que me motiva nas atuas pesquisas em que estou envolvido. Temos muito campo de experimentação de agenciamentos sociais, de movimentos de formação e promoção de redes, de experiências colaborativas que podem servir como base para entendermos e propormos melhoras formas de nos relacionarmos para uma quantidade infinita de eventos. De fato, entender isso tem me ajudado a perceber que o estudo dos novos formatos abrem espaço para muitas pessoas se darem conta de que novas possibilidades de organização social não são apenas possíveis, como muito mais ricas no viver e conviver humano. Instalei o Sci2 e estou brincando um pouco ele por aqui, depois vou reportando o que tenho achado.
Gostei bastante do nível das apresentações, da preocupação com a construção dos argumentos, do cuidado na escolha dos dados, da busca por avançar em novas possibilidades de análise e estruturação da informação. Fazia bastante tempo que eu não participava de um evento e sentia essa sensação. Interessante se dar conta disso.
Dei uma olhada inicial nos anais do evento e achei alguns artigos interessantes para dar uma boa lida depois.
Enfim, um sonho antigo de fazer esse tipo de pesquisa se realizando por aqui. Uma etapa a aproveitar! ;-)
Amanhã, começam as mesas e apresentações dos artigos completos que foram submetidos. Eu exponho na quarta-feira nosso poster
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Experimentando a leitura de estratégias de conectividade
Fiz um post alguns dias atrás mostrando os primeiros movimentos da rede Telecentros.BR, tentando descrever um pouco do que tava ocorrendo por dentro do Moodle por onde tá rolando as principais ações atualmente.
No post, apontava 3 movimentos inicias que estavam mais evidentes quando comecei a analisar a base de dados do projeto:
O fato é que disponibilizamos a ferramenta de conversação online do Moodle para os monitores e polos pudessem utilizar como um recurso de conversa por dentro da plataforma. O que quero descrever agora é como vejo que estão se apropriando desse recurso como um determinado tipo de estratégia de conectividade entre eles.
Antes de mais nada, é fundamental ter em mente que estamos falando de um projeto ainda em fase de implantação, com apenas 3 meses de contato direto com a ponta do programa. A forma como essa rede começa diz muito do discurso inicial, da proposta que está sendo estabelecida entre quem está trabalhando diretamente no projeto e quem está chegando com a expectativa de receber um curso à distância. Há uma certa proposta de relação que está colocada e, a partir dessa proposta, uma dinâmica e uma estrutura de rede começa a surgir delineando movimentos e dando algumas pistas de para onde esse projeto está indo.
A proposta de relação inicial do projeto é, resumidamente:
Utilizando indicadores de centralidade e diâmetro da rede, é possível descrever um pouco melhor como esse movimento tem acontecido dentro da plataforma Moodle. Coloco aqui embaixo uma tabela com os principais dados que coletei dos 3 movimentos iniciais de rede que mencionei acima:
Há muitas possibilidades de leitura desses dados e a ideia é experimentar um pouco por aqui aquilo que me faz sentido, os movimentos que percebo e como acredito que esses instrumentos auxiliam a ler sistemas mais complexos para além daqueles que estamos acostumados no dia-a-dia. Algumas interpretações:
No post, apontava 3 movimentos inicias que estavam mais evidentes quando comecei a analisar a base de dados do projeto:
- a formação de uma rede envolvendo a relação entre os polos regionais (tutores, supervisores e coordenadores) e os monitores de cada região;
- a formação de uma rede envolvendo os polos regionais;
- a formação de uma rede envolvendo os monitores.
O fato é que disponibilizamos a ferramenta de conversação online do Moodle para os monitores e polos pudessem utilizar como um recurso de conversa por dentro da plataforma. O que quero descrever agora é como vejo que estão se apropriando desse recurso como um determinado tipo de estratégia de conectividade entre eles.
Antes de mais nada, é fundamental ter em mente que estamos falando de um projeto ainda em fase de implantação, com apenas 3 meses de contato direto com a ponta do programa. A forma como essa rede começa diz muito do discurso inicial, da proposta que está sendo estabelecida entre quem está trabalhando diretamente no projeto e quem está chegando com a expectativa de receber um curso à distância. Há uma certa proposta de relação que está colocada e, a partir dessa proposta, uma dinâmica e uma estrutura de rede começa a surgir delineando movimentos e dando algumas pistas de para onde esse projeto está indo.
A proposta de relação inicial do projeto é, resumidamente:
- oferecer um curso de 480 horas, dividido em dois módulos, sendo um de 80 horas e outro de 400 com foco específico no desenvolvimento de projetos dentro do Telecentro;
- formar grupos de 30 monitores com apoio de 1 tutor para criar um acompanhamento durante esse curso.
Utilizando indicadores de centralidade e diâmetro da rede, é possível descrever um pouco melhor como esse movimento tem acontecido dentro da plataforma Moodle. Coloco aqui embaixo uma tabela com os principais dados que coletei dos 3 movimentos iniciais de rede que mencionei acima:
| Indicadores | Polos+Monitores | Polos | Monitores |
| Densidade | 0,028955 | 0,0671242 | 0,010443 |
| Grau médio | 61,2109745 | 40,5430464 | 15,7480106 |
| Grau mais baixo | 1 | 0 | 0 |
| Grau mais alto | 2049 | 766 | 380 |
| Proximidade média | 0,2847 | 0,2737 | 0,1646 |
| Proximidade mais baixa | 0,0019 | 0 | 0 |
| Proximidade mais alta | 0,4162 | 0,3952 | 0,2558 |
| Intermediação média | 0,0001 | 0 | 0 |
| Intermediação mais baixa | 0 | 0 | 0 |
| Intermediação mais alta | 0,0858 | 0,1521 | 0,0415 |
| Distância média no maior cluster | 3,69087 | 3,82219 | 4,17026 |
| Maior distância entre dois vértices | 10 | 11 | 11 |
Tabela dos dados absolutos
| Variações | Polos+Monitores | Variação na rede só dos Polos (%) | Variação na rede só dos Monitores (%) |
| Densidade | 0,028955 | 131,82 | -63,93 |
| Grau médio | 61,2109745 | -33,77 | -74,27 |
| Grau mais baixo | 1 | -100,00 | -100,00 |
| Grau mais alto | 2049 | -62,62 | -81,45 |
| Proximidade média | 0,2847 | -3,86 | -42,18 |
| Proximidade mais baixa | 0,0019 | -100,00 | -100,00 |
| Proximidade mais alta | 0,4162 | -5,05 | -38,54 |
| Intermediação média | 0,0001 | -100,00 | -100,00 |
| Intermediação mais baixa | 0 | 0,00 | 0,00 |
| Intermediação mais alta | 0,0858 | 77,27 | -51,63 |
| Distância média no maior cluster | 3,69087 | 3,56 | 12,99 |
| Maior distância entre dois vértices | 10 | 10,00 | 10,00 |
Tabela das variações
Há muitas possibilidades de leitura desses dados e a ideia é experimentar um pouco por aqui aquilo que me faz sentido, os movimentos que percebo e como acredito que esses instrumentos auxiliam a ler sistemas mais complexos para além daqueles que estamos acostumados no dia-a-dia. Algumas interpretações:
- a rede formada pelos polos é 131,82% mais densa do que a rede formada apenas pelos polos+monitores. Os polos vêm se encontrando de forma sistemática desde junho de 2010, para produzirem juntos os conteúdos, as diretrizes e os alinhamentos necessários para a construção dessa formação. O fato de sua densidade de conexões apresentar esse nível indica uma proximidade muito maior entre polos do que entre os monitores entre si e com os polos. Quando vemos a rede de monitores, a densidade cai -63,93%, mostrando o quanto dispersos se tornam os monitores entre si quando os polos saem da relação nesse momento. Os monitores estão espalhados por todo o Brasil e estão começando a formar grupo nessa conexão com o Moodle. Isso leva tempo e depende muito da aposta de relação que a formação fizer para conectar monitores de diferentes regiões, depende da vontade de conversa, da vontade de encontro que esse processo todo gerar e criar caminhos para ocorrer. Nesse momento, o que esse nível de densidade me mostra, bem como as imagens das redes linkadas acima, é o quanto, a partir dessa proposta de formação, o trabalho dos polos é fundamental nesse momento. São eles que adensam a rede, ampliando sua capilaridade.
- sobre o Grau mais alto, dá para perceber também um movimento interessante. Ele cai -62% na rede de polos e -81% na rede de monitores. Isso aponta uma tendência interessante, mostrando que o grau mais alto na rede de polos+monitores ocorre quando esses dois níveis estão conversando entre si, ou seja, mostra um movimento de polos contactando monitores e vice-versa. A relação do polo na formação é central, pois é ele que apresenta o tutor na formação, aquele que tem por papel acolher os monitores, tirar suas dúvidas e acompanhar sua formação.
- os indicadores de proximidade e intermediação apresentam o mesmo movimento, apenas mais intenso no caso da intermediação. Esses indicadores servem para mostrar o nível de proximidade médio entre os nós de uma rede e o grau de articulação entre esses nós. O que fica mais evidente a partir dos dados dessas tabelas, considerando apenas os valores mais altos, é o quanto essa rede de formação depende dessa relação dos polos com os monitores para se articular. A rede só de polos fica 77% mais articulada sem os monitores e a rede só de monitores -51% menos articulada, considerando os nós com maior potencial de articulação na rede. A rede sem os tutores perde muito da sua intensidade, do papel de intermediador que os tutores acabam exercendo na relação com suas turmas de monitores. Esse papel pode ser construído pelos próprios monitores quando avançam na construção de estratégias em comum, na articulação de movimentos próprios, desintermediados da relação direta com os polos, quando começam a utilizar a plataforma de conectividade mais como um canal de encontro do que propriamente um canal para realizarem um curso. Acredito ser possível levar os movimentos da rede de formação para esse âmbito, mas isso é algo a ser experimentado ao longo desse processo todo que estamos vivenciando.
- a distância média entre nós na rede também sofre um impacto, apesar de menor, quando da saída dos polos da rede de monitores. Há um espalhamento na rede, aumentando as distâncias entre monitores. Um dos papéis dos tutores é, nesse momento, realizar parte dessa intermediação, conectando monitores, apresentando pessoas, divulgando suas ideias e links e criando campo para promoção de conexões e articulações em rede.
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