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quinta-feira, 24 de junho de 2010

Café TelecentrosBR: como foi, o que rolou e o que ficou

Começar a ativar uma rede é um processo tão único e singular quanto qualquer tipo de relação que possamos ter. Nunca é da mesma forma e sempre somos surpreendidos com nossas expectativas e visões sobre o que poderia acontecer.

Como venho relatando aqui já a alguns dias, estamos participando do programa TelecentrosBR como Polo Nacional da Rede de Formação.
O projeto é muito interessante em muitos níveis, mas sobretudo, ressalto alguns pontos que me chamam atenção:
  • o momento histórico em que nos encontramos e que se encontra muitas das ações de militância que criaram o conceito de inclusão digital e hoje refletem sobre seus 10 anos de práticas;
  • a abertura do projeto para a formação de uma rede que envolve polos regionais, monitores, programas, etc. que possa compor o programa de formação;
  • as ações descentralizadas e, ao mesmo, alinhadas em processos de ativação de redes que podem orientar os pontos e temas relevantes dessa conversa;
  • a visão e experiência que a gente vem acumulando a um tempo, sobre como pensar, agir, documentar e articular as partir dos projetos em que temos nos envolvido: Acessa SP, Acessa Escola, Humaniza SUS, Tecendo Redes, etc, etc, etc...
Conseguimos um bom espaço na 9ª Oficina de Inclusão Digital para algumas atividades, e dentre elas, resolvemos aproveitar o segundo dia de oficina para montar um Café TelecentrosBR com monitores, coordenadores de projetos, participantes e membros do programa TelecentrosBR.

Aproximadamente 60 pessoas participaram do papo, que contou com um público bem diversificado e que teve uma boa oportunidade para conversar e sair da dinâmica tradicional de ouvir especialistas e palestrantes sobre temas diversos.


 A dinâmica que montamos foi bem semelhante que a utilizamos para a ativação da Rede Humaniza SUS, em 2008.  Montamos um café com duas perguntas e um aquário para fechamento e debate final. O blog da Oficina documentou aqui o encontro.

As perguntas foram:
  • Quais são os temas que você considera mais relevantes para a formação dos monitores dos Telecentros?
              Veja aqui a digitalização das respostas dos participantes.               
              Segue abaixo a nuvem de tags das principais palavras mencionadas:


  • Como você considera que um Telecentro deu certo?
           Veja aqui a digitalização das respostas dos participantes.               

           Segue abaixo a nuvem de tags das principais palavras mencionadas:
 Os próximos passos agora são:

  • estudar esse material e construir um relatório que dê conta de agrupar por temas as sugestões;
  • entregar esse relatório de volta a todos os participantes do Café;
  • utilizar esse material para os Seminários da rede de formação que devem acontecer em Agosto.
 O mais interessante desse processo é que já começamos a construir a pauta da formação dos Telecentros.BT em rede. Na conversação, no encontro e no afeto que multiplica visões uma rede é ativada, uma conversa emerge e um programa surge.

É um jeito de fazer, um modo de conversar, uma maneira de pensar a rede.
A pergunta é a rede e a resposta é a rede.

E vamo em frente que tá bonito de ver essa construção.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Algumas dicas de contorno do Caderno de Campo - Pensamento Sistêmico

Algumas boas dicas para bordas e contornos do pensamento direto do Caderno de Campo:

"Mudanças profundas, ou seja, mudanças culturais baseadas na aprendizagem precisam de estruturas e ambientes nos quais as pessoas possam projetar experimentos e realizar experiências para, compartilhadamente, observar, refletir, chegar a conclusões firmes e agir de maneira mais efetiva e sustentada... Sem essa visão, estaremos sempre usando medidas de curto prazo, com baixa sustentabilidade, atacando sintomas de problemas e cada vez mais presos na armadilha do apagar incêndios." pág. 23

"Fizemos construção de sistemas de indicadores como forma de aprendizagem e comunicação da estratégia.... Por meio da aprendizagem, assimilamos (criamos) o mundo real em mapas." pág 24

"Um processo de gestão da mudança tem base no processo criativo, no qual a construção coletiva se dá a partir de uma tensão criativa envolvendo a contraposição de um entendimento sistêmico da realidade presente e de uma visão de futuro profundamente desejada."  pág.27

Possíveis fases de um processo de mudança: (pag. 28)
  • compreender a realidade atual: identificar a mentalidade que a origina, diagnosticar os limitadores do desenvolvimento coletivo;
  • visualizar o futuro: desafiar os próprios modelos mentais;
  • construir uma estratégia robusta: projetar sistemas de indicadores que influenciem a ação organizacional;
  • promover a mudança: esforços coordenados, colaboração e atuação em rede;
  • repensar a organização: repensar estruturas e processos. Cabemos nisso?
  • sustentar a mudança e aprender continuamente: ambientes de aprendizagem contínua, habilidades organizacionais essenciais.
"Um mapa da realidade, seja ela qual for, dá bases iniciais e fundamenta um trabalho de visualização do futuro, de planejamento estratégico ou mesmo de mudança adaptativa ou criativa. Não se preocupe em conhecer os detalhes na primeira passagem por cada um desses pontos." pág. 29

"Os modelos mentais, ou os pressupostos mais profundos, são modificados por meio do processo de aprendizagem. Mudança profunda implica aprendizagem. Um ciclo de aprendizado profundo precisa ser fomentado." pág. 34

"Habilidades e capacidades especiais são as que efetivamente transformam a maneira de perceber o mundo e sentir o mundo. São: aspiração, reflexão e conversação, conceituação. Arquitetura organizacional capaz de facilitar o o ciclo de aprendizado: idéias norteadoras, teorias, métodos e ferramentas, inovações em infra-estrutura." pág 35.

"Quanto mais se conhece as estruturas sistêmicas da realidade, mais necessitamos de um propósito comum para obter energia criativa e saber no que transformá-la. Só um grupo com alta capacidade de aprender junto pode ter uma visão ampliada do sistema, explorando-o por suas diversas facetas. Os programas de mudança falham porque entram em choque com as crenças e pressupostos das pessoas. " pág. 37

"Em última instância, não existem coisas, mas estruturas derivadas de padrões de comportamento de fluxos." pág. 38

O que vem a ser sistêmico? pág. 43
  • das partes para o todo;
  • dos objetos para os relacionamentos: faz mais sentido buscar um entendimento da realidade não por meio de coleções de objetos, mas por meio de redes de relacionamentos incorporadas em redes maiores;
  • das hierarquias para as redes;
  • da causalidade linear para a circularidade;
  • da estrutura para o processo;
  • da metáfora mecânica para a metáfora do organismo vivo e outras não-mecânicas;
  • do conhecimento objetivo para o conhecimento contextual e epistêmico;
  • da verdade para as descrições aproximadas;
  • da quantidade para a qualidade: implica uma mudança de ênfase da mensuração quantitativa dos objetos para uma postura de mapeamento e visualização;
  • do controle para cooperação, influenciação e ação não-violenta.
"Modelos devem ser utilizados como instrumentos de apoio para que os próprios administradores aprendam as consequências do seu modo de enxergar a realidade, em vez de serem utilizados para fazer previsões sobre o futuro." pág 57

"Vygotsky acaba por concluir que a linguagem afeta o pensamento tanto em seu conteúdo quanto em processo. Logo, diferentes linguagems produzem maneiras diferenciadas de pensar." pág. 57

"A cibernética nos ensina que os sistemas sustentam sua existência e comportamento por meio das relações circulares. Elas são de dois tipos básicos: relações circulares de reforço e relações circulares de balanceamento." pág. 60

"Soluções tradicionais pertencem ao pensamento linear (mesmas soluções, mais esforço, mais resultado), enquanto as soluções podem vir de um conjunto criativo (novas ações, com menos esforço, mais eficácia), levando em conta o sistema como um todo." pág 67

"O acordo sobre a principal transformação costuma ser o grande passo na solução do problema." pág. 92

"Os níveis de percepção: (pág. 94)
  1. por meio da percepção de eventos, o homem responde reativamente. Isso funciona bem, desde que o mundo não mude rápido demais. Isso também funciona se não há muita complexidade e interconexão. A visão de eventos é inteiramente fragmentada, impondo uma visão parcial da realidade;
  2. eventos são apenas variações nos padrões de comportamentos mais profundos. Para ultrapassar o nível dos eventos, é preciso analisar as tendências de longo prazo e avaliar suas implicações. Uma visão histórica começa a se configurar. Aquilo que considerávamos ser um problema recente, pode ser mais antigo que parecia.
  3. O terceiro nível invoca a compreensão da estrutura sistêmica da realidade. Esse nível indica o que causa os padrões de comportamento, buscando explicar como as variáveis influenciam-se mutuamente em relações de causa e efeito. Mapas sistêmicos são a base para o reprojeto do sistema.
  4. As estruturas da realidade social são construídas tendo por base o que as pessoas carregam em suas mentes. Os modelos mentais são os responsáveis pelas estruturas que os seres humanos constroem, seja nas cidades, nas comunidades, nas famílias, nas organizações. A compreensão de modelos mentais proporciona a capacidade para ações reestruturadoras de uma maneira mais profunda."
Os passos de ação do método sistêmico: (pág. 95) - permitem um mergulho nos níveis de realidade. Também apoiam o processo de aprender e sistematicamente aplicar uma linguagem sistêmica, de modo que ela possa tornar-se uma ferramenta que opera no nível subconsciente. Cada passo provoca aprendizagens mais profundas. Cada passo gera produtos que são usados como entrada nos próximos passos.
  1. definir uma situação complexa de interesse: define-se situação de interesse em uma frase ou título. Define-se também o horizonte de tempo para análise, delimitado por um determinado ano no passado e um determinado ano no futuro. Definem-se questões norteadoras. ;
  2. apresentar a história por meio de eventos; (FUNDAMENTAL APRESENTAR OS ANTECEDENTES)
  3. identificar as variáveis-chave: a partir da lista de eventos, pode-se identificar quais as variáveis estão em jogo na situação de interesse. Se eu tivesse em minhas mãos um gráfico que claramente demonstrasse a ocorrência desse evento, que gráfico seria esse? O resultado desse passo é uma lista de variáveis-chave, não superior em quantidade a 25. Essa lista representa algumas forças importantes em atuação na realidade.
  4. traçar os padrões de comportamento: coletam-se dados para compor séries históricas das variáveis;
  5. desenhar o mapa sistêmico: identificar as relações causais entre os fatores, desvendando as estruturas sistêmicas. Permite localizar os pontos de alavancagem para ação eficaz e sustentada;
  6. identificar modelos mentais: identificam-se os principais atores e, a seguir, identificam-se seus modelos mentais que mais afetam a realidade em questão;
  7. realizar cenários;
  8. modelar em computador;
  9. definir direcionadores estratégicos, planejar ações e reprojetar o sistema.

 "A clareza sobre qual de fato é o problema traz em si o encaminhamento da solução. Assim, antes de qualquer busca por solução, está a busca por um consenso mínimo sobre qual é a situação-problema." pág. 143

"A distância entre o estado atual e o estado futuro desejado torna-se fonte de tensão criativa, movendo os indivíduos em direção à concretização desse futuro." pág. 173

"É preciso compreender, porém, que toda a força da metodologia só será efetiva, no sentido de desafiar modelos mentais instituídos e construir estratégias efetivas, se dois fatores estiverem presentes: a existência de um ambiente e de uma cultura de aprendizagem, e a continuidade do processo." pág. 192

"A dinâmica natural das estruturas dissipativas simples ensina o princípio otimista sobre algo que costuma nos levar ao desespero no mundo humano: quanto maior for a liberdade na auto-organização, maior será a ordem." pág. 225

" A formação da estratégia é claramente um processo emergente, constituído por meio da aprendizagem do coletivo. Nele, a liderança abre mão do gerenciamento do conteúdo da estratégia e passa a gerenciar o processo estratégico." pág. 234

"Por ser um dos maiores alavancadores do desempenho superior da organização, a lidenraça frequentemente se coloca como sua principal barreira. As atitudes do líder-herói bloqueiam o aprendizado dos membros organizacionais ao reforçar sua crença de que a ascenção organizacional se dá por atos de bravura individual." pág. 236

"Tem-se visto que o aprofundamento do campo, bem como sua sustentabilidade, requer uma presença consciente, uma escuta profunda, um estar aberto a um fluxo maior de significado e uma participação consciente no campo maior da mudança. Essa participação consciente implica um entendimento da capacidade criativa e destrutiva que a ação humana tem sobre seu ambiente, levando ao reconhecimento de que frequentemente as barreiras para uma ação criativa mais profunda são exatamente os modelos mentais que criamos, e dos quais sentimo-nos escravos." pág. 238

"Estruturas em sistemas não são necessariamente construídas conscientemente. Elas são construídas a partir das escolhas, realizadas consciente ou inconscientemente, ao longo do tempo." pág. 258

"Simplesmente conceder poder, sem algum método de repor a disciplina e a ordem que advêm de um burocracia de comando e controle, produz caos. Temos que aprender a dispersar poder de modo que a autodisciplina possam, em grande medida, substituir a disciplina imposta. Isso nos situa na área da cultura: substituir a burocracia por aspirações, visões e valores." pág. 259

"O ambiente deve promover a visibilidade de aspectos mais sistêmicos do que simplesmente a tarefa em execução." pág. 260

"Se os indicadores locais premiam o ótimo local, mesmo sob condições de conflito ou de perda para a organização como um todo, as pessoas privilegiarão os indicadores locais. Por mais que se valorize o bem maior, dificilmente alguém prejudicará seus índices ou sua distribuição de resultados. Os sistemas de valorização e cobrança, em geral não-formalizados, frequentemente forçam os gerentes a tomar atitudes que são danosas para o sistema como um todo, pois incentivam a visão fragmentada, ou a chamada visão de feudo." pág. 261

Algumas boas perguntas refletindo sobre um programa de formação

  1. Quais são as questões que uma estratégia de formação busca propor?
  2. Como mapear essas questões de forma sistêmica?
  3. Quais são nossas questões mais críticas e que precisam ser contempladas?
  4. O que me impede de dormir a noite?
  5. O que eu gostaria de garantir que fosse experimentado/vivenciado num processo de aprendizagem?
  6. Por que a estratégia ou as políticas de uma organização não são eficazes?
  7. Como avaliar uma iniciativa estratégica?
  8. Como alinhar a mensuração das atividades operacionais com a estratégia geral?
  9. Por que a cultura de uma organização é vista como um problema?
  10. Como apresentamos o contexto em que esse programa surge?

terça-feira, 30 de março de 2010

uma reflexão sobre processos de formação e telecentros como espaços relacionais

Vemos o espaço do Telecentro como um espaço de relações, um espaço ocupado por papéis que vão ser exercidos e mutuamente realimentado: o monitor e os usuários. Formar, capacitar, no nosso entendimento, é criar um contexto, um espaço reflexivo que permita visualizar esses papéis apenas como transitoriedade momentânea do nosso fazer coletivo, é auxiliar a transpor esses papéis para um campo de escuta e conversa que se manifeste como possibilidade de aprendizagem consciente em nosso cotidiano.