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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Para além da inclusão sócio-digital: dos jogos de mercado como objetos de política pública



A palavra inclusão aparece como referência constante em diversas formas de descrição e apresentação de programas, projetos e experiências na política pública de forma praticamente unânime entre os mais diversos entendimentos e posicionamentos das chamadas políticas sociais. Aparecendo, de forma geral, com o sentido de incluir àqueles que não tem acesso a determinados bens materiais, serviços e identificação nas máquinas de governabilidade públicas e privadas, seja por falta de alcance dos mecanismos e possibilidades de articulação das estruturas políticas em ação ou seja pelo entendimento de que as estruturas que fornecem acesso não devem ser geridas pelo própria máquina pública, a inclusão serve como conceito que abre um campo de atuação e serve como critério de análise do que pode estar dentro ou fora.

Visto dessa forma, a inclusão se torna conceito operatório de produção e entendimento do que deveria balizar e sustentar as condições de aplicabilidade de uma política pública. Em outras palavras, se a política é inclusiva, ela dá acesso a determinados valores e modos de vida que entendemos serem necessários para sustentar a condição social ideal visualizada pela política em operação. Se a política não é inclusiva, ela segmenta, classifica, filtra, escolhe favorecer e empoderar aqueles que aparentemente já estão inseridos nas redes de circulação dos serviços e bens ofertados pelas máquinas da governabilidade. O critério que esse conceito operatório facilmente coloca à vista é qual o corte do que se entende por incluído e por excluído, que métodos de medição e análise são utilizados por uma política para operar essa divisão, entendendo que essa divisão explicita uma escolha, um campo de atuação e, sobretudo, intervenção que a política em questão se propõe a lidar. É a possibilidade de análise dessa segmentação e dos critérios atrelados a ela que nos permite reposicionar a questão sobre o conceito de inclusão e como ele vem sendo utilizado em nossas políticas públicas em vigência atualmente.
Vale aqui explicar, clareando algumas pré-condições como ponto de partida para a breve análise que aqui se estabelece, que o título desse artigo inclui a palavra “digital” na relação com inclusão social com uma intenção clara no que se refere a dimensão digital como mais um espaço, um universo e um campo de produção de diferentes formas e tipos de sociabilidade. Entende-se, desse modo, que essa dimensão é vista como um espaço de relacionamento humano que pode e é visto por determinadas políticas públicas como campo de intervenção e presença das máquinas de governabilidade que colocamos aqui em análise. A inclusão digital é vista aqui como o acesso a esse espaço de relacionamento humano, a esses canais e redes de interação, apenas acessíveis pelo uso de determinadas tecnologias, que constroem e pautam fluxos de comunicação, bens materiais e imateriais, serviços, formas de ativismo, atravessando e sendo atravessado pelas outras tantas dimensões de sociabilidade nas quais se percebem os espaços de relacionamento humano. O conceito, os critérios do que está dentro e do que está fora, além das formas de operação que a expressão “inclusão” fornece à ação de uma política pública permitem intervir também através do digital como espaço de governabilidade, sobretudo, daquilo que se entende como uma ação social proposta por uma política.
Mais do analisar a questão do digital, se pretende aqui analisar a questão da inclusão como modo de intervenção no social. Bruno Latour (2012) resgata a etimologia da palavra “social” explicitando com mais clareza sobre o quê incluir ou não incluir está se falando aqui.

A etimologia da palavra “social” em si é bastante instrutiva. A raiz é seq-, sequi, e a primeira acepção é “seguir”. O latim socius denota um companheiro, um associado. Nas diferentes línguas, a genealogia histórica da palavra “social” designa primeiro “seguir alguém” e depois “alistar” e “aliar-se a”, para finalmente exprimir “alguma coisa em comum”. (…) “Social” como em “problemas sociais” ou “questão social” é uma inovação do século 19. O vocábulo paralelo “sociável” alude à capacidade que tem o indivíduo de de viver polidamente em sociedade” (Latour, 2012, pag. 24).

Mas, que coisa em comum é essa e que nível de inserção é esse que permite viver polidamente em sociedade? Como surge a questão social como um espaço de intervenção que dá condições e sustenta o surgimento de um sem número de políticas públicas, logo, estratégias de governabilidade? De que modo incluir tem a ver com condicionar modos de vida e inserir em fluxos de operação da máquina governamental já conhecidos, sustentando e sendo sustentados por condições que mantém as ordens dominantes instauradas?
Há uma forma de pensamento que vale aqui explicitar, mesmo que de forma esquemática e reducionista, com a intenção de colocar de modo mais claro que relação é essa entre “inclusão”, “social” e “governo” que está posta nesse espaço de análise que se estabelece. Inclusão vem sendo aqui descrita como um conceito operatório que viabiliza determinadas políticas públicas, permitindo estabelecer critérios do que está incluído e do que deve ser objeto de atuação do governo para promoção da inclusão. Logo, o governo atua, de certa forma, intervindo nessa “questão social” com o objetivo de pautar determinadas condições de vida em sociedade. Que condições são essas?
Tendo estabelecido aqui alguns princípios de entendimento do conceito “inclusão” e “social”, vale aqui avançar um pouco mais conceituando como se pode entender o conceito de “governo” para tocarmos em algumas das questões que foram aqui levantadas.

... governo, aqui, é um modo de conceitualizar todos aqueles programas, estratégias e táticas para a condução da conduta, mais ou menos racionalizados, para agir sobre as ações dos outros de maneira a alcançar certos fins. Nesse sentido, pode-se falar em governo de um navio, de uma família, de uma prisão ou fábrica, de uma colônia e de uma nação, assim como de um governo de si” (ROSE, 2011, pag. 25).

Chega-se aqui a um ponto interessante de posicionamento desses conceitos. Governa-se para agir sobre os outros, para conduzir conduta. O sociável e a questão social torna-se campo de intervenção, modo de atuar para induzir e promover determinados tipos de conduta e modos de ação desejados. Incluir torna-se modo de produzir políticas públicas que tenham por intenção estabelecer critérios do que está dentro e do que está fora desses modos de sociabilidade polidos e desejados pelo governo das condutas.
No entanto, essa governança de conduta não acontece nos tempos em que vivemos de modo aleatório. Vive-se sob a influência de um tipo de racionalidade fundamentalmente influenciada por questões de fundo econômico e financeiro. Os parâmetros de renda e padrões de consumo servem de critérios de regulação de inúmeras formas do que condiciona os modos de vida e espaços de sociabilidade por onde os seres humanos interagem e se produzem mutuamente. O que serve de critério entre incluído e excluído se baseia diretamente nos indicadores econômicos que categorizam as diferentes classes, comunidades e formas de segregação.
Buscando entender como o jogo econômico pauta as formas de governo atuais, Foucault (2008b) deixa claro o que define esse critério do incluído/excluído que aqui se coloca em evidência.

Ora, essa ideia de que deve haver uma regra de não-exclusão e de que a função da regra social, da regulamentação social, da seguridade social no sentido amplo do termo deve ser a de garantir pura e simplesmente a não-exclusão de um jogo econômico que, fora disso, deve se desenrolar por si mesmo, é essa ideia que é aplicada, esboçada em todo caso, em toda uma série de medidas mais ou menos claras” (FOUCAULT, 2008b, pag. 278).

Logo, as políticas de inclusão, sejam elas a partir dos espaços do digital ou não, vistas dessa forma tornam-se estratégias de um governo visando a inserção das condutas por dentro desse jogo econômico, entendendo que uma vez inseridas no jogo o próprio jogo têm condições de se regular, operando a partir de estratégias que deixam de serem espaços de atuação do governo para serem espaços de atuação do mercado. Criar condições de consumo, criar condições de se posicionar em algum lugar no jogo econômico é, portanto, posicionar as bases dos modos de vida que essa governança de condutas pretende estabelecer. Garantir que o espaço de liberdade seja o espaço de liberdade do mercado, ou seja, que a liberdade se dê a partir das regras de funcionamento e dos contornos estabelecidos pelo mercado é garantir a eficácia e os critérios de sucesso das políticas de inclusão, melhorando níveis de renda e condições de inserção num jogo para o qual o próprio governo foi pensado e construído para manter.
É disso que se trata, em sua grande maioria, as políticas públicas de inclusão produzidas no âmbito de governos constituídos como neoliberais, sendo sustentados e mantidos como condições de existência e garantias da liberdade dos próprios mercados que os produzem. Se a possibilidade de livre comércio é o interesse maior no jogo de interesses do que está em disputa, o papel do governo é garantir que ele ocorra, produzindo condições para que se amplie nas esferas em que ainda não atua, incluindo no “social” os que estão fora do jogo.
Vale dizer que aqui não se coloca um juízo de valor explícito, afirmando que esse modo de entender os conceitos que analisamos defina essas políticas como negativas ou num sentido depreciativo qualquer. Ao contrário. O que aqui se objetiva é estabelecer alguns critérios de análise para que se perceba com um pouco mais de clareza o que de fato parece estar em jogo. É apenas entendendo como tem se produzido esses espaços de atuação que temos melhores condições de se ver dentro do próprio jogo, percebendo que papel ocupa, que discurso sustenta e se esse discurso parece operar políticas em direção ao que de fato desejamos ou a um jogo econômico que talvez ainda não se tenha percebido como o que tem regulado os modos de vida e fazer político atuais.
Logo, já encaminhando para algumas ainda breves conclusões que tiramos dessas relações estabelecidas, falar de questões como empoderamento coletivo, constituição de sujeitos autônomos e a possibilidade de produzir espaços de co-gestão é falar de outros jogos que parecem não dialogar e serem compatíveis com essa busca contínua da eficácia financeira e econômica desse modo de governar. Além disso, é falar de outras possibilidades que criem condições e funcionem como outros modos de operar política que não a visão da inclusão nos jogos de mercado.
É novamente Foucault (2008a) que parece dar pistas interessantes de posicionamento do olhar para além desse jogo:

Então, frente a essa política global do poder se fazem revides locais, contra-ataques, defesas ativas e às vezes preventivas. Nós não temos que totalizar o que apenas se totaliza do lado do poder e que só poderíamos totalizar restaurando formas representativas de centralismo e de hierarquia. Em contrapartida, o que temos de fazer é instaurar ligações laterais, todo um sistema de redes, de bases populares” (FOUCALT, 2008a, pag. 74).

É para além dos jogos de mercado, para além da economia como critério que determina modos de relacionamento e condiciona modos de vida que outros níveis de pensamento abrem espaço e permitem operar em estruturas de representatividade que não reproduzam essas formas de centralismo e hierarquia que são as condições de base da própria existência dos modos de governabilidade atuais. É por outro caminho que deslocamos essa racionalidade e abrimos espaço para outras formas. É por outras condições de relação, onde os posicionamentos se lateralizam, onde o coletivo opera como aquele que constrói contorno, que define seu espaço e se vê como agente de seu próprio modo de vida que outras redes são possíveis, que outros fluxos de interação podem ser pensados. E nisso, sem dúvida, a dimensão do digital pode colaborar na produção de outros jogos de relacionamento, não como condição de partida, mas como condição de apropriação de uma racionalidade que lhe antecede e opera por outros valores.

Referências
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Graal. 26ed. 2008a. 295p.
FOUCAULT, Michel. Nascimento da biopolítica. Martins Fontes. 2008b. 474p.
LATOUR, Bruno. Reagregando o social: uma introdução à teoria do Ator-Rede. Edufba/Edusc. 2012. 399p.
ROSE, Nikolas. Inventando nossos selfs: psicologia, poder e subjetividade. Vozes. 2011. 308p.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Apresentando no I WPOSINFO - Workshop de Engenharia da Informação na Universidade Federal do ABC

Semana passada estive no I WPOSINFO realizado pelo curso de Engenharia da Informação da Universidade Federal do ABC.

Me chamou atenção a proposta do encontro e a possibilidade de dialogar novamente com uma área por dentro das engenharias a partir de um tema que tem sido meu foco de estudos nos últimos anos:  a informação. Aparecer no seminário sendo um engenheiro de formação em graduação e mestrado, mas estando dentro das ciências sociais aplicadas pelo curso de Ciência da Informação no doutorado deu um caldo incrível. Não só a teoria da interdisciplinaridade, mas essa vivência a partir de olhares que podem se compor de fato em encontros antes inusitados.

Logo de cara, chegando a universidade, encontro dois bons amigos dos tempos de graduação que viraram professores e dão aula exatamente na Engenharia da informação, o Murilo e o Suyama. Conversa boa, lembrando de bons tempos juntos, de como o trabalho de cada um evoluiu, os caminhos de pesquisa, os espaços de encontros. Excelente primeiro contato.

Logo mais, fui apresentar um trabalho que busquei construir de modo mais técnico, dado o contexto das engenharias. A vontade de era explorar mais a análise de como a distribuição de graus de centralidade numa rede podem favorecer encontrarmos comunidades e grupos de usuários mais centrados em contatos entre si. Um pequeno estudo, aproveitando dados dos Telecentros.BR, para iniciar uma investigação um pouco mais voltada para os algoritmos que pretendo investir nos próximos meses.

Segue aqui a apresentação:



domingo, 4 de setembro de 2011

De grupo-assujeitado para grupo-sujeito: formação como projeto de intervenção

"Mais do que isso, se entendemos que um dos papéis de uma política pública de inclusão digital é facilitar a promoção de redes, é facilitar essa promoção a partir de uma perspectiva que entenda que uma rede só emerge livre quando seus membros se colocam não como um grupo-assujeitado, mas sim como um grupo-sujeito não submetido a regras externas, com poder de fala irruptiva em uma ação transgressora dos significantes sociais dominantes e das regras de
assujeitamento (Passos, 2007)."

"Vemos o espaço de telecentro como um espaço de relações, um espaço ocupado por papéis que vão ser exercidos e mutuamente realimentados: o monitor e os usuários. Formar, capacitar, no entendimento dessa visão, é criar um contexto, um espaço reflexivo que permita visualizar esses papéis apenas como transitoriedade momentânea do nosso fazer coletivo, é auxiliar a transpor esses papéis para um campo de escuta e conversa que se manifeste como possibilidade de aprendizagem
consciente em nosso cotidiano."

 ... e um pouco mais das reflexões que temos feito no exercício de documentação que fiz junto com a companheira Isis.

sábado, 27 de agosto de 2011

3 níveis de centralidade na rede Telecentros.BR: a dança de planos e movimentos de relação

A magia por trás dos algoritmos de análise de redes é a enorme flexibilidade que eles possuem, permitindo que possamos tratar a informação das relações que coletamos de n modos possíveis de acordo com sua própria imaginação.

Explorando hoje um pouco mais dos recursos do Pajek, o software de análise que tenho utilizado, decidi reduzir a quantidade de nós por grau de centralidade das redes que tenho analisado do Telecentros.BR.

Separei 3 níveis de centralidade na rede:
  1. os nós que possuem acima de 20 conexões;
  2. os nós que possuem acima de 15 conexões;
  3. os nós que possuem acima de 10 conexões.
 O mais interessante foi a surpresa de perceber que essa divisão, por mais que tenha sido totalmente aleatória e pensada apenas por curiosidade, me mostrou 3 configurações muito distintas da rede levando a pensar que de fato estava olhando para 3 movimentos muito diferentes.

Coloco as imagens que obtive abaixo para ilustrar o que comecei a ver nesse movimento:

Acima de 20 conexões


  
 Acima de 15 conexões

 

  Acima de 10 conexões


Os pontos amarelos são tutores/membros das equipes dos polos de formação. Os pontos verdes são monitores e os vermelhos pessoas cadastradas que não identificamos a qual grupo pertencem.

O que me chamou a atenção?

Quem mais está utilizando o sistema de mensagem online do Moodle é, sem dúvida, o grupo de tutores/membros dos polos. Os nós da rede que possuem acima de 20 conexões são apenas membros desse grupo e que acabam interagindo majoritariamente entre si também. Já quando baixamos para acima de 15 conexões, um movimento muito interessante fica mais evidente: a rede se divide em dois blocos, mostrando o grupo anterior de tutores/polos e um novo grupo de monitores que praticamente não se relacionam. Isso me mostra uma coisa importante: os monitores que mais utilizam essa rede conversam sobretudo entre si, interagindo muito menos com os tutores. A força da rede de monitores, mais uma vez, fica evidente na relação entre si, na vontade de conversar com outros monitores, formando um grupo que tem muito mais a dizer por aquilo que vivem e fazem. Já quando baixamos para acima de 10 conexões, a rede entra em outro momento, com uma maior mistura de tutores e monitores. A hipótese é que nesse momento começa a atuar de fato as estratégias de tutoria e acompanhamento da formação via esse sistema de mensagem online.


Uma conclusão importante, pra mim, desse processo todo: temos dois movimentos de formação de rede caminhando juntos. Um diz respeito do encontro entre monitores, mais espontâneo, motivado por elementos que fogem totalmente ao controle, ao esperado, ao programado da formação. Esse movimento atrai menos pessoas, mas surge com mais força na centralidade da rede. Outro diz respeito do encontro entre tutores e monitores, motivado pelo desenvolvimento da formação, pelos papéis a serem cumpridos, pelos objetivos do curso a serem desenvolvidos. Esse movimento atrai mais gente, pois tem direcionamento direto com a comunicação e acompanhamento do curso. No entanto, é menos central.

Os dois movimentos caminham juntos, se sobrepondo, se constituindo como diferentes interfaces e planos de conversação que funcionam tudo junto-misturado. Um movimento leva ao outro e assim segue uma certa dança que é apenas mais uma forma de retratar a beleza dos diferentes movimentos da própria vida: formal e informal, espontâneo e proposto, livre e pautado. A rede, como reflexo do que somos, não seria diferente.... Será?

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Como se forma uma rede? - Bonita matéria na revista ARede

A Patrícia pegou o espírito do trabalho que temos feito nos últimos tempos e traduziu isso de uma forma singular na matéria online e impressa da revista A Rede de agosto.

Cito esse trecho que é parte fundamental da aposta de investir tempo, imaginação e energia numa formação:

"Um dos objetivos mais importantes de qualquer programa de inclusão digital é a formação de rede entre os monitores. Os monitores atendem usuários, organizam as atividades nos telecentros, fazem a ponte entre os telecentros e os interesses da comunidade. São responsáveis por manter as unidades do programa vivas. Grande parte do aprendizado dessas pessoas, na prática, se dá nesta experiência. Assim, um processo de formação precisa oferecer os instrumentos para resolver problemas e elaborar projetos neste dia-a-dia. Neste caso, o instrumento é a rede, a interação. As conversas entre os monitores, antes mesmo de concluído seu processo de formação, indicam que uma rede está emergindo no Telecentros.BR"

 Não é novidade já dita por tantas pessoas, amigos, pensadores, poetas e por aí vai: o que importa são as pessoas. E, num espaço onde podemos articular ações que aproximem pessoas de pessoas, para que possam simplesmente conversar, se conhecer, se ouvir, se encontrar e perceber que há tantos pontos de vista quanto a multiplicidade de encontros possíveis, já temos mais do que conseguido o melhor que poderíamos. A rede surge e o que acontece depois é resultado de uma soma de fatores que simplesmente estão fora do nosso controle. Garantir que as pessoas se encontrem não é pouca coisa, ainda mais por dentro dos métodos, metodologias e filosofias que tangenciam o pensamento educacional. Desconstruir esse lugar de poder/saber abrindo novas possibilidades de experimentação é um processo passo a passo, que demanda paciência, observação, análise e reconstrução contínua do próprio sentido que te move.


Analisando a formação de redes na ferramenta Fórum do Moodle

Sempre considerei o Moodle uma plataforma bastante dura, engessada e pouco sedutora para a promoção de um espaço de conversa online em relação a outras possibilidades, como o Drupal e Wordpress.

O fato é que tenho trabalho, nem tanto por opção mas por uma questão demanda do edital, com o Moodle na Rede de Formação do projeto Telecentros.BR. Tenho documentado por aqui alguns movimentos que temos feito de análise da formação de redes de conversas entre os monitores que estão participando desse processo. Já são mais de 1300 nesse momento e os primeiros estudos que comecei a fazer me mostraram algo que de fato eu pouco esperava: um uso muito intenso dos módulos de comunicação, acima de qualquer outra coisa que eu já tinha visto em um projeto como esse.

Continuando nessa pesquisa/estudo/experiência comecei ontem a noite a estudar como analisar a formação dessas redes entre os monitores a partir de suas conversas nos fóruns disponíveis pelos diversos tópicos do curso. O Gus havia me dado um toque de que estava ocorrendo um tipo de conversa interessante/intensa por ali, dado a percepção que ele estava tendo nos encontros de formação presencial com os monitores, pelos papos que estava ouvindo na reunião com as equipes de cada polo. Deu um tempo, resolvi investigar isso.

O fato é que o modo que o Moodle dificulta muito as coisas pela maneira com que ele guarda os dados na na sua tabela de fórum. A tabela onde conseguimos extrair as conversas é chamada de mdl_forum_posts, que organiza as mensagens em colunas chamadas: "discussion", "parent", "user", "created", "subject" e "message", entre outras que importam menos para o que queria fazer por aqui. A coluna discussion guarda o número de uma thread de conversas, ou seja, o número de um tópico qualquer criado dentro de um fórum. A coluna "parent" guarda o número do fórum onde ocorreu a conversa. A coluna user guarda o usuário que postou naquela discussão, repetindo a discussão e o usuário caso haja repetição de qualquer um deles. A coluna created guarda o timestamp (horário em formato Unix) de quando a postagem foi feita e as colunas subject e message guardam o título e o conteúdo da postagem.

A complicação é que, diferente das tabelas de mensagens online, não temos diretamente do Moodle uma listagem de relacione quem conversou diretamente com quem. Dado isso, montei um script em PHP que monta essa correlação de quem conversou com quem. A ideia básica desse script considerar que todo mundo que postou numa discussão conversou com todo mundo nessa discussão, formando um grupo que interage entre si a partir dessa discussão. Sem dúvida, podemos montar isso de outra forma, considerando o tempo de postagem ou outros critérios para como relacionar as pessoas. É algo que pretendo explorar a partir desse estudo inicial. O script lê os dados de um arquivo que contêm basicamente duas colunas: número da discussão e id do usuário que postou na discussão. Ele monta para cada discussão um array e depois faz uma combinação entre todos os usuários desse array, exibindo na tela para uso posterior.

Segue aqui o script:


function possibilities ($input) {
 
  for ($contador=0;$contador<=count($input);$contador++){
    $elementoatual = array_shift($input);
    foreach ($input AS $current) {
        if (!empty($input)) {
        printf("%d,%d
",$elementoatual,$current);
            }
        }       
    }
 }

    $fh=fopen('c:\xampp\htdocs\arquivos\forum.csv','r');
    $dados = array ();
   
    while (list($discussao,$pai,$usuario,$timestamp) = fgetcsv($fh,1024,',')){
       
        // cria um array temporário com as duas variáveis coletadas
        $arraytemp = array($discussao,$usuario);
       
        // acrescenta o array temporário num array que vai agregar todos os dados do arquivo.
        array_push($dados,$arraytemp);       
    }
   
    //indexa o array pela primeira dimensão, no caso, pelo campo da discussão
    sort($dados);
   
    $contador=0;      
    $discussaoux=9999999;
    $acumulaarray = array();
    foreach ($dados AS $dado){
   
        if ($dados[$contador][0]!=$discussao) {         
            $discussao=$dados[$contador][0];
            possibilities($acumulaarray);
            $acumulaarray = array();
        }    

        array_push($acumulaarray,$dados[$contador][1]);
        $contador++;

    }
   
    fclose($fh);
    ?>;
       

Só para ilustrar os primeiros utilizando esse script para montar um arquivo no formato Pajek, segue a primeira imagem da rede que gerei ontem a noite:





Alguns dados interessantes sobre ela, limpando loops e múltiplas conexões entre pares:
  • grau médio de conexão: 27,44
  • diâmetro da rede: 13 (maior distância entre dois pontos).
O próximo passo é começar a detalhar essa análise, buscando descobrir como o fórum tem sido apropriado pelos monitores, pelos tutores e equipes de polos, analisando as possíveis diferenças regionais que podem se desdobrar em diferentes estratégias de como cada polo tem utilizado/ocupado esse ambiente.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Várias faces de uma rede: espaços coletivos como elemento de produção de liberdade

Conversando com uma grande amiga nessa semana ela me perguntou por quê eu achava tão importante promover redes livres nos projetos em que tenho atuado, na maneira de se relacionar e de pensar os modos de atuar.

A conversa foi provocando elementos e me fez revistar algumas apostas dos últimos anos, podendo refinar um pouco a minha própria maneira de dizer isso.

Um resumo de um ponto fundamental da conversa segue aqui, quando estávamos falando sobre como tinha sido a atuação dos Metáforas em relação ao que tínhamos tentado fazer dentro do Ministério da Cultura:

então, aí voltamos para a nossa conversa de ontem
16:34 percebi que eu tenho uma coisa mal expicada, fundamentada, uma espécie de "fé na rede"
  acredito que a ação colaborativa pode fazer emergir coisas novas
  e, aí o truísmo, boas
  a rede, por si só, não faz nada bom ou ruim
 eu: sim, total
16:35  tem que ter um complemento nessa "fé na rede'
  qual é?
 eu: a rede é apenas a manifestação de uma possibilidade de contato
  heheheheheh
  nova igreja dos pastores da conexão!
  mas, é mais fundo sim
  total
  a rede pela rede num diz nada
  mas, ela é uma das condições para se trabalhar agenciamentos coletivos
16:36 que são pautados por uma maneira de ver/entender/praticar política
  no caso do minc, a nossa bandeira era redistribuir grana para potencializar as ações na ponta
  com o menor número de intermediários possível
  quebrando a ideia clássica de centros-culturais como intermediários do $ do gov investido em cultura
16:37 então, a ação hacker era entrar no MinC para abrir esse espaço, conectar o máximo possível as pessoas para compartilharem suas possibilidades criativas, buscando empoderar e fortalecer os movimentos culturais a partir de sua articulação em rede
  propondo que: se encontrando, a gente entende melhor os problemas que tem e pode se articular melhor para conseguir encaminhar nossas demandas
16:38 sejam elas criativas, sejam elas políticas
  se é que a separação nisso....  O ponto forte disso é perceber que as redes são pré-condições para ampliarmos o potencial de articulações, agenciamentos políticos e, sobre tudo, ter um espaço onde a ideia que faço das coisas é enlaçada por tantas outras e meu efeito de acreditar em minhas próprias verdades pode ser atenuado, criando espaço para que entre em contato com outras formas de pensar e me produzir no mundo.  Não deixa de ser isso a experiência que temos buscado desenvolver nos projetos por onde temos passado...  E só para ilustrar, segue abaixo algumas das faces de uma dessas redes em construção, a Telecentros.BR:    

terça-feira, 12 de julho de 2011

Gerando mapas de longitudes e latitudes

Tive um problema para resolver hoje e documento por aqui a solução, pois a busca pela web não pareceu nada trivial.

A ideia é que eu tinha uma lista de cidades de monitores que participam da formação do Telecentros.BR. Eu queria gerar um mapa a partir dessa lista para poder ver como estava essa distribuição no Brasil como um todo. Que caminho eu escolhi:
  1. baixei uma listagem de latitudes e longitudes do site da DataSus;
  2. gerei uma lista de correspondências entre as minhas cidades a listagem acima, via a função procv do OpenOffice. Exportei a listagem em duas colunas, com o nome da cidade e as coordenadas juntas numa mesma coluna, num arquivo CSV;
  3. gerei um arquivo KML para ser importado diretamente no Google Maps via um site que faz esse serviço online;
  4. Importei os dados diretamente no Google Maps e saiu esse mapa aqui.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Apresentando no FISL 12 - Análise de redes sociais e sistemas dinâmicos com software livre

Apresentação analise de redes e sistemas dinamicos - fisl 12
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Comentando a apresentação:
Foi bem interessante e muito bom preparar esse material para apresentar no contexto do FISL. Desde 2004 que eu não apresentava nada por lá e fiquei com um certo receio de estar sendo técnico demais. No entanto, não. A sala tava bem cheia e pude entrar em detalhes na visão que tenho dos sistemas dinâmicos, a relação que isso tem com as redes sociais e como experimentos de análise desses sistemas podem ampliar nosso conhecimento e reflexão sobre o próprio comportamento humano em rede. Gostei bastante!

Encontrei o bro Felipe. Boas conversas, saudades de conversar mais. 

No resto do fórum, aproveitei pouco a programação oficial, já que estava muito por conta do GT de Análise e Extração de dados da Rede de Formação do Telecentros.BR. Esse GT foi ótimo, juntando os técnicos mais interessados em definir que caminhos são possíveis e que experimentações desejamos construir a partir dos dados que estão sendo gerados pelo uso dos monitores do curso de formação que temos produzido. Decidimos trabalhar em 3 linhas simultâneas:
  1. análise dos movimentos de formação de redes sociais. Foco: Que redes estão sendo formadas?
  2. análise de conteúdo: discurso, semântica e uso da linguagem. Foco: Sobre o que essas redes estão conversando?
  3. análise de correlações: avaliar quais são os impactos dos participantes dessas redes na apropriação da formação. Foco: Estar em rede tem influência nesse tipo de curso de formação?
Enfim, bom FISL, boas discussões e bons desdobramentos. 

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Experimentando a leitura de estratégias de conectividade

Fiz um post alguns dias atrás mostrando os primeiros movimentos da rede Telecentros.BR, tentando descrever um pouco do que tava ocorrendo por dentro do Moodle por onde tá rolando as principais ações atualmente.

No post, apontava 3 movimentos inicias que estavam mais evidentes quando comecei a analisar a base de dados do projeto:
  1. a formação de uma rede envolvendo a relação entre os polos regionais (tutores, supervisores e coordenadores) e os monitores de cada região;
  2. a formação de uma rede envolvendo os polos regionais;
  3. a formação de uma rede envolvendo os monitores.
Fiz uma pequena distinção entre esses três níveis de composição para evidenciar o que acredito ser um movimento/construção de uma estratégia de conectividade que mostra alguns indícios das primeiras características que estão ficando visíveis do que estamos fazendo em termos de projeto.
O fato é que disponibilizamos a ferramenta de conversação online do Moodle para os monitores e polos pudessem utilizar como um recurso de conversa por dentro da plataforma. O que quero descrever agora é como vejo que estão se apropriando desse recurso como um determinado tipo de estratégia de conectividade entre eles.

Antes de mais nada, é fundamental ter em mente que estamos falando de um projeto ainda em fase de implantação, com apenas 3 meses de contato direto com a ponta do programa. A forma como essa rede começa diz muito do discurso inicial, da proposta que está sendo estabelecida entre quem está trabalhando diretamente no projeto e quem está chegando com a expectativa de receber um curso à distância. Há uma certa proposta de relação que está colocada e, a partir dessa proposta, uma dinâmica e uma estrutura de rede começa a surgir delineando movimentos e dando algumas pistas de para onde esse projeto está indo.

A proposta de relação inicial do projeto é, resumidamente:
  1. oferecer um curso de 480 horas, dividido em dois módulos, sendo um de 80 horas e outro de 400 com foco específico no desenvolvimento de projetos dentro do Telecentro;
  2. formar grupos de 30 monitores com apoio de 1 tutor para criar um acompanhamento durante esse curso.
O convite a se relacionar, a partir do que está colocado acima, diz muito de uma forma de se fazer e produzir um curso à distância. Pode ser visto como estratégia de formação ou como um jeito de começar uma rede, como uma estrutura intermediária para estabelecimento de relações que pode ser derivada para outras formas de conversa, para outros convites de relação, para outras maneiras de atuar em rede. Parte grande da energia que temos colocado no projeto é acreditar nesse convite, entendendo que o que está começando é o início de um movimento, uma maneira de nos encontrarmos dentro da sala de aula para pensarmos vôos para outros lugares.

Utilizando indicadores de centralidade e diâmetro da rede, é possível descrever um pouco melhor como esse movimento tem acontecido dentro da plataforma Moodle. Coloco aqui embaixo uma tabela com os principais dados que coletei dos 3 movimentos iniciais de rede que mencionei acima:


Indicadores Polos+Monitores Polos Monitores
Densidade 0,028955 0,0671242 0,010443




Grau médio 61,2109745 40,5430464 15,7480106
Grau mais baixo 1 0 0
Grau mais alto 2049 766 380




Proximidade média 0,2847 0,2737 0,1646
Proximidade mais baixa 0,0019 0 0
Proximidade mais alta 0,4162 0,3952 0,2558




Intermediação média 0,0001 0 0
Intermediação mais baixa 0 0 0
Intermediação mais alta 0,0858 0,1521 0,0415




Distância média no maior cluster 3,69087 3,82219 4,17026
Maior distância entre dois vértices 10 11 11
Tabela dos dados absolutos



Variações Polos+Monitores Variação na rede só dos Polos (%) Variação na rede só dos Monitores (%)
Densidade 0,028955 131,82 -63,93
Grau médio 61,2109745 -33,77 -74,27
Grau mais baixo 1 -100,00 -100,00
Grau mais alto 2049 -62,62 -81,45
Proximidade média 0,2847 -3,86 -42,18
Proximidade mais baixa 0,0019 -100,00 -100,00
Proximidade mais alta 0,4162 -5,05 -38,54
Intermediação média 0,0001 -100,00 -100,00
Intermediação mais baixa 0 0,00 0,00
Intermediação mais alta 0,0858 77,27 -51,63
Distância média no maior cluster 3,69087 3,56 12,99
Maior distância entre dois vértices 10 10,00 10,00
Tabela das variações

Há muitas possibilidades de leitura desses dados e a ideia é experimentar um pouco por aqui aquilo que me faz sentido, os movimentos que percebo e como acredito que esses instrumentos auxiliam a ler sistemas mais complexos para além daqueles que estamos acostumados no dia-a-dia. Algumas interpretações:
  1. a rede formada pelos polos é 131,82% mais densa do que a rede formada apenas pelos polos+monitores. Os polos vêm se encontrando de forma sistemática desde junho de 2010, para produzirem juntos os conteúdos, as diretrizes e os alinhamentos necessários para a construção dessa formação. O fato de sua densidade de conexões apresentar esse nível indica uma proximidade muito maior entre polos do que entre os monitores entre si e com os polos. Quando vemos a rede de monitores, a densidade cai -63,93%, mostrando o quanto dispersos se tornam os monitores entre si quando os polos saem da relação nesse momento. Os monitores estão espalhados por todo o Brasil e estão começando a formar grupo nessa conexão com o Moodle. Isso leva tempo e depende muito da aposta de relação que a formação fizer para conectar monitores de diferentes regiões, depende da vontade de conversa, da vontade de encontro que esse processo todo gerar e criar caminhos para ocorrer. Nesse momento, o que esse nível de densidade me mostra, bem como as imagens das redes linkadas acima, é o quanto, a partir dessa proposta de formação, o trabalho dos polos é fundamental nesse momento. São eles que adensam a rede, ampliando sua capilaridade.
  2. sobre o Grau mais alto, dá para perceber também um movimento interessante. Ele cai -62% na rede de polos e -81% na rede de monitores. Isso aponta uma tendência interessante, mostrando que o grau mais alto na rede de polos+monitores ocorre quando esses dois níveis estão conversando entre si, ou seja, mostra um movimento de polos contactando monitores e vice-versa. A relação do polo na formação é central, pois é ele que apresenta o tutor na formação, aquele que tem por papel acolher os monitores, tirar suas dúvidas e acompanhar sua formação.
  3. os indicadores de proximidade e intermediação apresentam o mesmo movimento, apenas mais intenso no caso da intermediação. Esses indicadores servem para mostrar o nível de proximidade médio entre os nós de uma rede e o grau de articulação entre esses nós. O que fica mais evidente a partir dos dados dessas tabelas, considerando apenas os valores mais altos, é o quanto essa rede de formação depende dessa relação dos polos com os monitores para se articular. A rede só de polos fica 77% mais articulada sem os monitores e a rede só de monitores -51% menos articulada, considerando os nós com maior potencial de articulação na rede. A rede sem os tutores perde muito da sua intensidade, do papel de intermediador que os tutores acabam exercendo na relação com suas turmas de monitores. Esse papel pode ser construído pelos próprios monitores quando avançam na construção de estratégias em comum, na articulação de movimentos próprios, desintermediados da relação direta com os polos, quando começam a utilizar a plataforma de conectividade mais como um canal de encontro do que propriamente um canal para realizarem um curso. Acredito ser possível levar os movimentos da rede de formação para esse âmbito, mas isso é algo a ser experimentado ao longo desse processo todo que estamos vivenciando. 
  4. a distância média entre nós na rede também sofre um impacto, apesar de menor, quando da saída dos polos da rede de monitores. Há um espalhamento na rede, aumentando as distâncias entre monitores. Um dos papéis dos tutores é, nesse momento, realizar parte dessa intermediação, conectando monitores, apresentando pessoas, divulgando suas ideias e links e criando campo para promoção de conexões e articulações em rede.
 São ainda movimentos muito iniciais, pouco conclusivos. Acredito que mais do que concluir, a ideia por aqui é experimentar o descrever e entender melhor como muitos desses recursos podem ser úteis em ações de intervenção, de leitura de movimentos complexos para pensar nas nossas próprias estratégias em projetos, como promovemos ações e os efeitos que elas geram nas redes que buscamos auxiliar a ativar. 

domingo, 10 de abril de 2011

Produção coletiva: empoderando a rede através da apropriação de tecnologia

Há várias formas de se pensar no desenvolvimento de um projeto e na forma que pretendemos desenvolver um processo produtivo, seja lá do que for.

Há escolhas que buscam preservar o rigor do conhecimento técnico, a padronização e, para isso, criam instâncias de especialistas que determinam procedimentos, normas, padrões e formas de como um projeto deve ser desenvolvido.



Há outras escolhas que buscam potencializar a produção coletiva, criando e garantindo que espaços de diálogo possam estar sempre abertos para discutir as normas, os procedimentos e as soluções que terão impacto direto na vida do conjunto de pessoas que se relacionam no âmbito de um projeto.



Não acredito que sejam necessariamente dois processos que se oponham. Acredito que o bom desenvolvimento técnico de um projeto se dê quando conseguimos garantir estabilidade, escalabilidade e um processo de apropriação coletiva dos meios e modos de construir a produção.

Sem dúvida, há riscos. Mas, os riscos são bem menos técnicos e muito mais de acreditar e apostar num meio de relação onde a conversa se faz necessária, fundamental e meio pelo qual a técnica se expressa e auxilia a produzir sentido.

Sem dúvida, há riscos. Mas, os ganhos de visão que obtemos quando compartilhamos nossas escolhas, quando escolhemos juntos criam um campo em potencial que impacta muitas outras coisas para além daquilo que podemos visualizar no desenvolvimento de um projeto. Criamos redes ao sentarmos juntos e nos propormos a fazer o mesmo trabalho, a enfrentar as mesmas dificuldades e, juntos, pararmos e refletirmos sobre quais são as nosssa reais possibilidades mediante as nossas reais restrições.

Enxergamos o que enxergamos quando vamos juntos. Esse é o grande ponto a ser pensado em qualquer processo, sobretudo aqueles que lidam diretamente com produção imaterial, com a criatividade e que afetam a forma que as pessoas se expressam, a maneira como entendem e enxergam o mundo.

A experiência que temos tido e fomentado ao longo do projeto Telecentros.BR é exatamente essa. Mais do que focar numa excelência técnica da formação, estamos buscando empoderar e criar meios de relação para a emergência da Rede de Formação do programa.



A rede só surge quando se apropria de seus processos, quando sente que seu poder de voz é real, não intermediado, que suas decisões têm efeitos práticos, imediatos. A rede só surge quando as pessoas se dão conta que sua voz muda os rumos, define processos e que ela reverbera em pessoas que de fato têm interesse, tempo e vontade de escutar. A rede é inteligente para perceber quando esse processo não é real. Os links se organizam, se recriam e se rearticulam em torno daquilo que os motiva: exercer sua própria autonomia.

Para isso, criar encontros, eventos, seminários e reuniões presenciais são fundamentais. Não só para apresentar resultados, mas para definir a política de nosso meio. Nesses espaços, temos a oportunidade de nos colocarmos numa posição semelhante, descentralizando identidades anteriores e percebendo que nossas opiniões podem afetar a de outros e construir o novo.

Mais do que construindo uma formação, estamos nos construindo como grupo, como relação e como príncipio de produção coletiva. É outro efeito que se obtém, é outro campo que se abre e é outro projeto que se desdobra.

terça-feira, 22 de março de 2011

Telecentros como plataformas de articulação de redes

Há diversas "verdades" que têm sido ditas a respeito de projetos sociais que envolvem, de uma forma ou de outra, o uso de tecnologias que promovam maior conectividade entre as pessoas. Algumas acabam se tornando quase um mantra de várias conversas sendo que acabamos por perder o panorama mais global de como essas ideias têm sido articuladas e, sobretudo, colocadas em prática nos projetos em geral.

Uma delas é a questão da formação em rede, da promoção da redes, das redes sociais de maneira geral. É dito com muita frequência que o objetivo do projeto é promover redes, trabalhar a inteligência coletiva, facilitar a colaboração, utilizar as tecnologias para promover um tipo de interatividade que tem se tornado a moeda nº 1 quando ouvimos expressões como "mídias sociais" e tal.

A pergunta que me coloco aqui é: para que promover redes? para que trabalhar a inteligência coletiva? A rede pela rede promove conectividade daí a achar que isso é algo que deve ser buscado ou não, depende muito de como se responde ao objetivo disso tudo.

Não sou partidário das opiniões que acreditam que a rede é uma panacéia que pode melhorar a forma como nos relacionamos e nos articulamos para o desenvolvimento de objetivos em comum. Na mesma proporção que a rede amplia, ela também limita, também seleciona, filtra, reduz e sintetiza. Na mesma proporção que a rede conecta, ela desloca, atrai a atenção para pontos específicos, reduzindo níveis possíveis de outros tipos de conexão.

A rede surge como paradigma de controle e gestão de um estado burguês em desenvolvimento: rede elétrica, rede de esgosto, rede de televisão, rede de água, entre tantas outras. Logo, a rede pela rede, estamos discutindo o abstrato pelo abstrato. Não se trata disso e acredito que esse momento, apesar de parecer óbvio em certos momentos, merece alguma reflexão um pouco mais detalhada.

Acredito que há algo mais que me interessa na ideia de rede: a ideia de organização. A possibilidade de utilização de uma plataforma ampla e intensa de conectividade, como podemos entender os muitos projetos e programas que implantaram telecentros pelo Brasil na última década, como plataforma de articulação de redes que podem demandar outros níveis de organização, aí sim, algo surge que me interessa profundamente.


A infra-estrutura é fundamental, a banda larga é fundamental, a formação é fundamental. São aspectos de base, quase como condições de possibilidade para algo possa surgir a partir da intensa possibilidade de interação que pode ser criada a partir da livre apropriação dessas camadas de base. 


Entendo por outros níveis organizacionais alguns pontos importantes que podem ser experimentados de várias maneiras:

  • a consciência de si na relação com o outro. Me percebo, me conheço, me descubro um pouco mais quando me coloco em relação;
  • a capacidade de mobilização social, quando me dou conta de que minhas questões são mais amplas do que meus próprios interesses. Encontro semelhanças e diferenças que promovem deslocamentos em meu pensamento, ampliando possibilidades e perspectivas de interpretação daquilo que vivo. As semelhanças e diferenças tornam-se movimentos que disparam ações de conectividade, que promovem interação, debate e, eventualmente, colaboração. Causas, bandeiras, objetivos são descobertos, organizados e promovidos de maneiras supreendentes;
  • a descoberta do novo. As diferentes "verdades" se encontram e podem se remixar criando novas formas, novas possibilidades emergentes e que podem ser utilizadas de muitas maneiras por aqueles que se dão conta de algo novo surgiu;
  • novas formas de "institucionalização". A rede opera novas interfaces de sentido, novas maneiras de formar bando, grupos que se articulam, se autodenominam e se reconhecem de alguma que produz algum tipo de identidade coletiva. É um novo nível organizacional que surge como resposta a uma necessidade latente de interação. 



 A rede passa a operar efeitos que rearticulam territórios, mobilizam recursos e operam aberturas de diálogo que podem fazer toda a diferença no dia-a-dia de um telecentro, de uma comunidade, um laboratório, uma empresa, seja qualquer tipo ou forma de agrupamento humano. 

Nesse sentido, sinto que podemos ampliar a compreensão de nossa ação ativista nos sistemas dinâmicos complexos em que atuamos. Somos, de alguma maneira, promotores de interatividade pelos projetos em que atuamos. Refletimos de alguma e apoiamos a emergência de novos níveis organizacionais? Estamos prontos para mudar escopo, objetivos e nos adaptarmos ao que surge em meio ao fluxo que fazemos parte? Estamos prontos para construir novas verdades?