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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Várias faces de uma rede: espaços coletivos como elemento de produção de liberdade

Conversando com uma grande amiga nessa semana ela me perguntou por quê eu achava tão importante promover redes livres nos projetos em que tenho atuado, na maneira de se relacionar e de pensar os modos de atuar.

A conversa foi provocando elementos e me fez revistar algumas apostas dos últimos anos, podendo refinar um pouco a minha própria maneira de dizer isso.

Um resumo de um ponto fundamental da conversa segue aqui, quando estávamos falando sobre como tinha sido a atuação dos Metáforas em relação ao que tínhamos tentado fazer dentro do Ministério da Cultura:

então, aí voltamos para a nossa conversa de ontem
16:34 percebi que eu tenho uma coisa mal expicada, fundamentada, uma espécie de "fé na rede"
  acredito que a ação colaborativa pode fazer emergir coisas novas
  e, aí o truísmo, boas
  a rede, por si só, não faz nada bom ou ruim
 eu: sim, total
16:35  tem que ter um complemento nessa "fé na rede'
  qual é?
 eu: a rede é apenas a manifestação de uma possibilidade de contato
  heheheheheh
  nova igreja dos pastores da conexão!
  mas, é mais fundo sim
  total
  a rede pela rede num diz nada
  mas, ela é uma das condições para se trabalhar agenciamentos coletivos
16:36 que são pautados por uma maneira de ver/entender/praticar política
  no caso do minc, a nossa bandeira era redistribuir grana para potencializar as ações na ponta
  com o menor número de intermediários possível
  quebrando a ideia clássica de centros-culturais como intermediários do $ do gov investido em cultura
16:37 então, a ação hacker era entrar no MinC para abrir esse espaço, conectar o máximo possível as pessoas para compartilharem suas possibilidades criativas, buscando empoderar e fortalecer os movimentos culturais a partir de sua articulação em rede
  propondo que: se encontrando, a gente entende melhor os problemas que tem e pode se articular melhor para conseguir encaminhar nossas demandas
16:38 sejam elas criativas, sejam elas políticas
  se é que a separação nisso....  O ponto forte disso é perceber que as redes são pré-condições para ampliarmos o potencial de articulações, agenciamentos políticos e, sobre tudo, ter um espaço onde a ideia que faço das coisas é enlaçada por tantas outras e meu efeito de acreditar em minhas próprias verdades pode ser atenuado, criando espaço para que entre em contato com outras formas de pensar e me produzir no mundo.  Não deixa de ser isso a experiência que temos buscado desenvolver nos projetos por onde temos passado...  E só para ilustrar, segue abaixo algumas das faces de uma dessas redes em construção, a Telecentros.BR:    

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Artefatos, místicas e formas de pensar

Não creio que seja muita novidade entendermos que não fomos "treinados" na nossa cultura, no sistema educional, político, familiar bla bla bla para pensar diferente de formas lineares de entender as coisas. É praticamente "natural" analisarmos as coisas buscando relações de causa e efeito: se isso aconteceu, aquilo deve ter acontecido; se está desse jeito, é por culpa de tal coisa; se fizermos isso, vai rolar aquilo.

Criticar essa forma também não é algo novo. Muitos livros têm sido escritos, experiências, projetos, filosofias. De fato, no meu entender, estamos ainda no início da desconstrução: o novo tá visível como potencial, como possibilidade, ainda longe de se transformar em modo "natural" de pensar, pautando a maneira que nos organizamos e nos relacionamos. Ainda estamos longe disso.

Até aí, tudo bem. Há pouco a se fazer, a não ser aprofundar a crítica, analisar as possibilidades, experimentar, buscando sinalizar o novo na crença/aposta de que novas e novas gerações vão chegar, constituindo uma nova cultura, deslocando o velho e produzindo o novo. A vida que muitos de nós gostaríamos de viver, ao menos aqueles que estão se dando conta disso e percebendo os próprios limites no modo de fazer as coisas, não será experenciada em plena potência-contágio-coletivo nos tempos atuais. Somos o povo da romaria, somos o povo da migração, somos o povo que levanta poeira e busca construir um caminho por onde passar.



Lidar com isso é apenas uma condição de contorno, todavia. Há tantas brechas a serem exploradas, há tanto por se pensar e experimentar a cada dia, que a mente chega a não dar conta de tanta coisa que poderíamos tentar. Começar é um bom começo... ;-)

Tudo para isso para compartilhar uma reflexão que tem ganhado força dentro de mim nas últimas semanas. Algumas pessoas tem me perguntado por quê tenho dedicado tanta atenção, tempo e esforço estudando novos modelos matemáticos de análise de redes, dinâmica de sistemas e sistemas complexos. Acabei me dando conta que falei pouco sobre o que de fato tem ressoado aqui dentro, não na superfície, mas naquele âmago que te faz acordar as 3:00h da manhã e começar a rabiscar no velho caderno antes que a ideia-imagem-forma se esvaia nos abismos de si.

O fato, já eternizado por Einstein, é que para novos problemas precisamos de novos métodos. A vivência dos últimos 10 anos, somada a toda a experiência cultural-religiosa que vivencei nos últimos 7 anos, foi deixando isso gradativamente mais claro.

A dimensão da rede, do se relacionar em rede, da produção coletiva, da comunidade é um campo que ainda estamos de fato apenas começando a entender. Não há nada trivial nisso. Tenho explorado diversos pensadores/experimentadores que têm falado sobre isso e pautado a fronteira do que ainda conseguimos pensar. Gente como Fritojf Capra, Humberto Maturana, Gregory Bateson, Edgar Morin, Weiner Heisenberg, Ilya Prigogine, Pierre Levy, David Bohm, Barabasi, Duncan Watts, Mark Newman, Castells, Foucault, Deleuze, Guattari, Regina Benevides, Edu Passos, Nietzsche, Francisco Varela, sem falar nos aliados do dia-a-dia, Susana Maiani, Regiane, Renata Pudo, Paulinho, Felipe Fonseca, Daniel Pádua, Hernani Dimantas, Ricardo Teixeira, Rogério da Costa, Luiz Algarra, Lu Annunziata, Drica Guzzi, André Benedito, Glauco, Guima, Gus, Naty, Isis, Mari, Moura e por aí vai, são pessoas que têm, de uma forma ou de outra, me dado pistas, dicas e apontado caminhos, sobretudo aquelas que estão se predispondo a vivenciar isso em suas próprias relações.

Mas.... Tem um algo na minha forma de ver as coisas que estrutura a experiência a partir de algum tipo de método. Tenho me dado conta disso nos últimos anos, mas é algo que entendo estar presente desde sempre. O método, para mim, é o princípio, a energia motriz de organização daquilo que com que me relaciono.




Ocorre que o método que tenho utilizado desde sempre é o mesmo método linear que aprendi nos meus anos de estudo formal/convivência com tantas outras pessoas que pensaram assim. Seria pedir que de repente, ao entrar em contato com novas ideias, tudo subitamente mudasse. Não, as coisas são, em geral, um pouco mais complexas que isso.

Tem sido necessário construir um novo modo de pensar, uma nova forma de estruturas as coisas. Essa nova forma precisa incluir muitas dimensões, precisa ser flexível, móvel, dinâmica, ágil, adaptável. Precisa criar espaço para que outros pontos possam ser conectados, permitindo não apenas somar efeitos, mas emergir sensações e sínteses que não seriam possíveis antes.

O ferramental matemático da Teoria dos Grafos, o que de fato fundamenta a análise de redes e parte expressiva do que temos utilizado para o estudo dos sistemas dinâmicos traz essa perspectiva, ao meu modo de entender.

Simplificando ao máximo: é uma das formas modernas de entrar nos fluxos, de se deixar tocar pelas multiplicidades, de entrar no caos das interações, das relações emergentes e voltar de lá com um artefato, um objeto místico-síntese-atrator que tão simplesmente quanto a sua própria existência simbolize um movimento.

Não, não há nada de muito diferente do xamã que entra nos sonhos, nos fluxos da tribo e volta de lá com os totens-tabús produtores de sentido de seu coletivo. Uma nova forma de dar contorno e lidar com a amplitude daquilo que me ultrapassa.

Essa tem sido a motivação dos contornos de um novo modo e, posso garantir, estou ainda bem no começo, mas já começando a esboçar formas um pouco mais interessantes....

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Falando de pragmáticos, linguagem e conversações

Acabei de ler no final de semana o Contingência, Ironia e Solidariedade do Richard Rorty, por indicação da Drica.

Entre muitos trechos bons, de um pensamento suave, direto e muito útil para reflexão, separei um que acho que dá um pouco o tom do texto e de como ele articula sua filosofia:

"A única coisa que importa é que, quando se acredita nela, pode-se enunciá-la sem sair machucado. Em outras palavras, o que importa é nossa capacidade de falar com outras pessoas sobre o que nos parece verdade, e não sobre o que de fato é verdade. Se cuidarmos da liberdade, a verdade poderá cuidar de si mesma. Se formos suficientemente irônicos sobre nossos vocabulários finais e suficientemente curiosos sobre o de todas as outras pessoas, não precisaremos ter a preocupação de saber se estamos em contato direto com a realidade moral, se fomos cegados pela ideologia, ou se estamos sendo debilmente relavistas."

 Forte. Bom. Direto. Muito útil.

 A pergunta que me fiz foi: Como podemos trabalhar os dispositivos de visualização em estratégias de conversação que possam aguçar essa curiosidade sobre o vocabulário final de cada pessoa, cada organização, cada rede? Tem um caminho aqui...

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A conservação das estruturas nos sistemas sociais

Independente do tipo de sistemas sociais que somos parte, dá para perceber uma característica que que é muito semelhante em todos eles: os sistemas criam maneiras de conservarem suas condutas ditas "apropriadas".

Sejam as condutas ditas "libertárias", ditas "conservadoras", centralizadas, abertas... A questão é que a partir do momento em que um sistema social se constitui, ele passa a operar de uma maneira que me parece naturalmente conservar as condutas que constituíram o próprio sistema. Sem dúvida, isso muda ao longo do tempo, pois as pessoas mudam, sua maneira de ver, usar a linguagem, a produção de sentido e de viabilidade de estarem no mundo muda.

Mas, a maneira como conservamos nossas condutas nos sistemas sociais que participamos não é algo tão evidente. Me parece ser um aspecto sutil, muitas vezes móvel, mutante e encoberto de justificativas de nossos próprios padrões de conservação. Às vezes, o que surge como algo em busca do novo, vira uma maneira de conservar uma certa conduta que se estabiliza num tipo de busca do novo e, por dentro disso, a própria busca do novo padece de outras maneiras de se ver o novo. Ou seja, o olhar vai ficando engessado, acostumado a olhar para algo de uma determinada forma, como se essa forma fosse a certa, a melhor, a maneira viável, possível...

A questão é que os sistemas sociais vão se estabilizando ao longo do tempo assim. Em determinados pontos, passam por crises, viram do avesso, seu próprio desejo de conservação de condutas passa a ser insuficiente para lhe garantir vida: o sistema perde sua capacidade organizacional e morre. É reinventado de outras maneiras, desaparece aqui e surge ali. E tudo gira.

Lendo um pouco sobre isso no "A ontologia da realidade" do Humberto Maturana, vi um trecho que achei especial. Maturana menciona duas maneiras que vê sobre como um sistema social cria condições de estabilizar sua própria organização e, assim, preservar sua condição de possibilidade de se manter como um sistema social:
  • à estabilidade pela consciência social, ao ampliar as instâncias reflexivas que permitem a cada membro uma conduta social que envolve como legítima a presença do outro como um igual; ou
  • à estabilidade na rigidez de condutas, por um lado, mediante a restrição das circunstâncias reflexivas, ao limitar os encontros fora do sistema social e reduzir a conversação e a crítica, e, por outro lado, mediante a negação do amor, ao substituir a ética (a aceitação do outro) pela hierarquia e a moralidade (a imposição de normas de conduta), ao institucionalizar relações contingentes de subordinação humana. 
Possibilidades visíveis em muitos dos sistemas que vivemos e fazemos parte, além de alimentar condutas que conservam esses níveis de estabilidade. Justificativas para rigidez, limitação e institucionalização de relações são fáceis de serem encontradas e, a primeira vista, parecem sedutoras e produtoras de um sentido de eficácia e escala nas relações.

Mas, não se trata disso. Se pensamos nas redes como sistemas sociais que podem propor uma ampliação de nosso potencial de liberdade, creio que estamos falando de processos que considerem a consciência social como meio de organização e estruturação dos sistemas. Ou seja, estamos falando aqui de ampliar espaços de conversação, espaços de criação de coletivos que se exercitam na escuta, na busca do entendimento e do encaminhamento de suas questões pela composição de diversas visões. É um exercício de linguagem, de visão, de ampliação de olhar.

Do contrário, caminhos que levam a rigidez e hierarquização parecem a única opção possível, mesmo mascarados em formas libertárias, sedutores e em discursos fáceis. O sutil não tá na aparência, tá no uso da linguagem, nas formas de relação e naquilo que é não dito.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Ciências cognitivas ou pensando em como pensar no como fazemos o que fazemos

To lendo Francisco Varela na última semana. O livro "A mente incorporada" traz alguns aspectos muito interessantes sobre a história das ciências cognitivas, por onde vai contextualizando os primeiros movimentos (Conferências Macy), o desenvolvimento do paradigma cognitivista, a visão da emergência e a visão enativa, proposta por Varela.

É interessante observar como os grandes embates a respeito da visão de realidade, verdade, mundo objetivo, mundo subjetivo, interno e externo estão fortemente presentes na histórias do estudo da cognição humana. Sem dúvida, questões tão relevantes a filosofia, foram e vem sendo articuladas pelo surgimento de outras maneiras de se pesquisar e refletir sobre essas questões: neurofisiologia, psicologia, inteligência artificial, cibernética, biologia, etc...

Refletir sobre isso é refletir a partir das estruturas que utilizamos para a formação do nosso pensamento, de nossa visão de mundo e de como fazemos o que fazemos. Ao observar as diferentes escolas tive uma sensação muito interessante de ir me reconhecendo em cada maneira de pensar em relação a diferentes momentos do meu viver. Cheguei a momentos de me incomodar e de pensar o quanto teria sido útil ter acesso a esse tipo de reflexão antes...

Perceber o nosso pensar, dar-se conta das próprias estruturas que utilizamos para organizar nossa visão de mundo, perceber o quanto isso nos limita e nos amplia é um exercício libertador.

Colocar em perspectiva os próprios espaços que criamos para nos relacionarmos conosco mesmo não é um exercício trivial. Não é trivial por que simplesmente estamos por dentro desses espaços quando olhamos para eles. O olhar por dentro dos olhos é um olhar recursivo, segundo Varela. É um olhar circular e que na circularidade te coloca em um novo lugar.

A recursividade, vista dessa maneira, pode ser apropriada como uma dinâmica de conexão consigo mesmo, a criação de um espaço que se dobra sobre si. Paradigmas, modelos mentais, visões de mundo, planos de fundo, paisagens mentais podem ser reveladas e colocadas em perspectiva dessa maneira.

É quase uma dança, um bailar num ritmo recursivo...

As prisões e os monstros só ficam visíveis quando nos propomos a olhá-los de um outro lugar. É o tal do dar-se conta. Essa dança é a dança do dar-se conta.

A história das ciências cognitivas é a história da busca humana por estruturas de pensamento que ofereçam respostas a esse dar-se conta. Respostas de múltiplos ângulos de visão, de questionamentos a partir de várias escolas do pensamento, mas que nos emprestam algumas boas dicas para colocarmos em perspectiva e revisitarmos várias fases de nosso viver, e simplesmente ir se questionando se não nenhuma semelhança com essas estruturas de pensamento, tanto no que nos liberta quanto no que nos aprisiona.

será?

segunda-feira, 10 de maio de 2010

futebol dos filósofos

Sobre as indentidades

hdimantasaqui falando sobre as identidades.

diz assim: "Dalton insiste na produção da idéia do eu e o que estou tentando romper é com essa afirmação. Desde Freud não se concebe o homem como um ser indivisível. A identidade não é algo que nos define."

Concordo fortemente com isso. Mas, apesar das identidades não nos definirem, nós ainda nos relacionamos com elas como se nos definessem. E só parar para ver que tipo de respostas a gente habitualmente dá quando nos perguntam: Quem é você? O que você faz? Lançamos mão das identidades para garantir uma resposta minimamente cabível no contexto em que possamos estar. Não nos define, mas nós acabamos por nos definirmos a partir delas.

A pergunta que cabe é: como saímos desse enlace? Como deixamos visível para nós mesmos que estamos nos atrelando a identidades e fechando os espaços da impermanência a criarmos alguma forma de apego a essas mesmas identidades?

Concordo que somos multidão. Mas, agimos ainda autocentrados. Voltamos com frequência para as identidades quando se trata de exercer alguma forma de controle ou de manipular algo para que ocorra da forma que queremos. Como lidamos com o fato de sermos multidão a partir de uma multiplicidade de referenciais autocentrados? Como isso se explicita em nossos espaços de reflexão?

Particularmente, não tenho resposta para isso... Mas, acho que temos um caminho de pesquisa.
Eu creio que quando conseguimos alguma forma de nos visualizarmos, seja da maneira que for, a partir da visualização podemos ampliar a percepção da multidão e ir questionando as referenciais de autocentramento que ainda carregamos na mochila.

Será? ;-)