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quarta-feira, 6 de julho de 2011

Conferência ISSI 2011 - anotações do quarto dia

 Mais um dia de conferência, mais um dia de vários toques interessantes.

O dia começou com uma apresentação de Olle Persson sobre técnicas de mapeamento e melhorias metodológicas em visualização de grafos de redes. A preocupação básica da apresentação, e de várias outras que transcorreram ao longo do dia, foi como criar maior relevância/reputação a determinadas conexões como forma de deixar menos poluídas as imagens de redes que são geradas. O fundo dessa conversa, ao meu ver, não pode ser só focada em como resolvemos nosso problema como pesquisadores, mas sim como entendemos melhor e reconhecemos as estruturas de relevância que produzimos ao atuar em rede.

Logo depois, começaram as sessões de apresentação dos poster, na qual meu trabalho e da Sueli Mara, minha orientadora do doutorado, estavam alocados.



A primeira vez que participo desse tipo de encontro, utilizando o formato de posters para divulgar pesquisas em estágio ainda iniciais. Gostei do formato, na real, dá para analisar aquilo que te interessa, conversar com quem está por ali apresentando o trabalho, trocar contatos, enfim, conhecer um pouco mais o que cada um está fazendo. Clima bom, boas conversas. A pesquisa que trouxemos para apresentar foi uma revisão dos principais artigos publicados no Brasil sobre questões relacionadas a "redes sociais" e "informação", onde mostramos que tipo de recursos de análise os pesquisadores têm utilizado, a dificuldade de trabalhar com grandes massas de dados e problemas ainda metodológicos no uso de novas técnicas de análise. Sem dúvida, esse é um campo ainda muito no início no Brasil, ainda mais por tudo o que tenho visto aqui. Há muito a experimentar, pois temos características, focos de análise que passam longe das preocupações que circulam num fórum como esse. Por exemplo, nesses dias todos não vi ninguém apresentar nada relacionado a produção cultural, a apropriação de tecnologia, a produção independente, gambiarra, software livre, etc, etc. Apesar disso, o tipo de metodologia e estrutura de análise que o povo daqui tá utilizando também está bem a frente do que usamos em outros tipos de estudos, como mencionei acima. Uma boa junção.

Depois da sessão de posters, fui para as mesas de trabalho do dia. Segue uma síntese por aqui:
  1. Sessão Networks 1 - a mesma tendência de como criar novas estruturas de produção de relevância para melhorar a análise de grafos estava presente na mesa como um todo. Algumas propostas caminhavam no sentido de utilizar não só a conexão, mas seu conteúdo como um espaço relacional a ser caracterizado a partir de critérios determinados. Outros pesquisadores têm trabalho com a ideia de que pedaços de documentos podem ser vistos como genes que são passados para outras produção, derivando mutações e transformações. Ideia interessante, Dawkins já falava isso nos memes, mas a aplicação não interessou muito. Outra pesquisa falava sobre como considerar a formação de "cartéis" de citação entre pesquisadores de uma área científica. Para isso, ele propunha estudar não só apenas o efeito da auto-citação, mas os efeitos e movimentos das redes de pesquisadores próximos no grafo de forma conjunta a partir dos indicadores de proximidade. Ideia interessante. Ele separou e analisou como evolui no tempo os diferentes níveis de atuação desses pesquisadores em camadas distintas de rede. Gostei da forma como isso foi apresentado. No meu caso, faria sentido entender como evolui no tempo as diferentes camadas de colaboração num espaço de produção científica: instituições, departamentos, grupos, etc. 
  2. Sessão Data Sources 1 - Foi uma sessão de vários trabalhos em andamento, com menos tempo de apresentação para cada um. Marcou a presença de pesquisas brasileiras, mostrando como o país está se fortalecendo para dentro, ao contrário do que outros estudos apontavam. Em tese, os movimentos brasileiros têm fortalecido a atuação nos jornais do país, consolidando espaços internos de publicação da produção. Interessante entender como isso se relaciona com as políticas públicas na C & T. 
  3. Sessão Key address - Apresentou uma fala o Ricardo Baeza Yates, um dos líderes na europa do Yahoo Lab. A fala se concentrou em analisar quais são as limitações atuais de algoritmos de busca da informação na Web - como o Pagerank - e quais estão sendo algumas das tendências futuras na área e para onde o Yahoo está olhando. Em termos de limitações dos algoritmos, o ponto mais forte que foi mencionado é o que ele chama de relevância negativa, ou seja, como tratar movimentos de spam que produzem centanas/milhares de sites, redirecionam links e articulam conjuntos de estratégia para "enganar" a estrutura dos atuais algoritmos. O ponto chave está em identificar isso e as experiências que estão fazendo é usar mais e mais dados gerados em redes sociais como acoplamento a indexação tradicional de links. Algumas experiências foram mostradas, alguns resultados potenciais e melhores significativas aos atuais algoritmos. A checar melhor! No entanto, a visão da Yahoo é que a pesquisa na web não deve mudar significativamente em termos de algoritmos de busca, mas sim na experiência do usuário ao realizar buscas. Um outro recurso que ele mostrou foi o WebScope da Yahoo, que é uma plataforma que fornece dados livres estruturados para estudantes, grupos de pesquisa e interessados de forma geral. Por exemplo, dados de usuários que votaram em suas músicas preferidas no sistema do Yahoo, dados de linguagem natural, relações sociais e por aí vai. Bem útil para experimentações quando não temos os dados que precisamos.
  4. Sessão Webometrics 2 -  A mesa tratou de análises do Google Scholar e Google Books, mostrando como os dois podem servir de plataformas para pesquisas em webmetria e cienciometria. Um ponto alto da apresentação foi a ferramenta Publish or Perish, que coleta os primeiros 1000 resultados do Google Scholar e sistematiza de uma forma delícia de ver. Acabei de baixar a ferramenta e já fiz com uma experiência com a Rede MetaReciclagem, o que já me surpreendeu logo de cara. Foi interessante também observar como os resultados do Scholar desequilibram totalmente o que é esperado como resultado tradicional de produção científica. Por exemplo, por ele, o Brasil é o terceiro país com mais conteúdo publicado. Isso se deve ao tipo de recurso que o Brasil está utilizando para divulgar sua produção científica, no caso o Scielo, ou seja, deixando os dados mais acessíveis para indexadores desse tipo. Enfim, ocupando espaços. Vale a pena conferir mais trabalhos do Statistical Cybermetrics Research Group.
  5. Sessão Networks and Visualization - Essa sessão foi sem grandes novidades, apresentando um pouco mais daquilo que já falei acima.
Dia bom! Experiência boa de estar em contato com esse universo de coisas legais que, sem dúvida, já estão potencializando muito aquilo que venho fazendo.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Conferência ISSI 2011 - anotações do terceiro dia

Finalizando o terceiro dia aqui na conferência ISSI 2011. Algo que me ocorreu de ontem para hoje é que acabei não comentando muito qual razão de ter vindo aqui para a África do Sul e por quê participar de um congresso de uma sociedade de cienciometria e infometria.
O fato principal é que meu doutorado foi, por várias razões que levaram isso, encaminhado por dentro de um departamento de Ciências da Informação, lá na USP. No começo, eu mal sabia exatamente do que se tratava essa área do conhecimento e fui/venho gradativamente gostando do que tenho visto e experimentando nesse espaço de reflexão. A área está bastante voltada para reflexões em geral sobre analisar, refletir e pensar questões relacionadas a informação, seja do ponto de vista qualitativo, quantitativo, tecnológico, social, modelo de produção, financiamento, políticas de inovação, etc, etc, etc.. Muitos temas que acabei me envolvendo nos útimos anos convergem de forma bastante interessante nesse tipo de espaço. Logo, cá estou, vindo conhecer o que, pretensamente, dizem os pesquisadores que são considerados de ponta na área.

Vamos ao dia de hoje.
O foco estava voltado para apresentações de trabalhos acadêmicos completos que foram submetidos para avaliação e participação no congresso. Mais de 200 pessoas estavam por aqui hoje, que foram divididas em 3 salas a sua escolha, onde ocorriam as apresentações. O programa completo das apresentações, pesquisadores e seus trabalho está disponível no site da ISSI, para quem tiver maior interesse de acessar os trabalhos individuais. Aqui, comento apenas as sínteses de cada sessão que fui fazendo.


Fiz um roteiro que me pareceu mais coerente com meus temas de interesse e reporto por aqui o que me chamou atenção por onde passei:

  1. Sessão Science & Technology & Innovation: a ideia dessa mesa de trabalhos era juntar pesquisadores que estavam trabalhando em como identificar transições e movimentos de pesquisas acadêmicas para desenvolvimentos de tecnologias aplicadas pela indústria. Há tendências que indicam que cada vez mais os pesquisadores acadêmicos estão se vinculando ao desenvolvimento de patentes. O que me chamou atenção foi o fato de estarem usando para isso diferentes fontes de informação - jornais (Google News), blogs (Google Blogs), papers (Google Scholar), , resumos de congressos, sites de empresas - para avaliar como a informação vai sendo transmita e em que fase de um espaço para o outro. A ideia de base é demonstrar que o ciclo linear de pesquisa-desenvolvimento-produto é grande parte das vezes falso. Na real, muitas pesquisas importantes relacionadas a tecnologia surgem após grupos desenvolverem usos aplicados de uma ideia. Comentário: a ideia de que a pesquisa gera a inovação pode ser bastante afetada com base nesses estudos. Isso é realmente um ponto que podemos explorar mais. Grupos autônomos podem ser vistos como espaços importantes de inspiração e produção de novas ideias, alimentando e conectando após determinado período, com grupos acadêmicos que buscam desenvolver trabalhos mais formais em algum sentido.
  2. Sessão Webometrics 1: a mesa foi montada juntando os pesquisadores que tem desenvolvido e experimentado maneiras de analisar dados gerados na Web. O desafio que estão se colocando é como considerar cada vez mais os dados de relações sociais que deveriam ampliar a noção de relevância do que é um trabalho científico. É nesse sentido que alguns experimentos estão sendo propostos, como o Mendeley. Outro trabalho que achei bastante interessante foi uma análise realizada na Finlândia sobre como os sites das prefeituras municipais se linkavam entre si por todo o país, realizando um georefenciamento dos links. A ideia era trabalhar como a informação pública estava circulando e sendo referenciada pelos próprios orgãos públicos. Mostraram clusters de bibliotecas e outros serviços que se apoiavam mutuamente. Utilizaram para coletar os dados um bot voltado para apoio em pesquisas de Ciências Sociais.  O último trabalho dessa mesa fez uma análise do Pirate Bay e do Open Street Map. A ideia deles era mostrar o padrão de uso dos participantes dessas ferramentas, dando uma ideia de seu grau de participação ao longo do tempo. Os resultados que mostraram dizem que evidenciam algo que encontramos em muitas redes, uma maior participação logo quando da criação do perfil e depois um desaparecimento gradativo. O Pirate Bay apresenta um padrão um pouco diferente, levando a considerar se a relevância dos arquivos em Torrent que ali são compartilhados cria esse maior nível de interesse em usar a plataforma. Os pesquisadores mencionaram experiências com Sentiment MininingComentários: gostei da abordagem dos trabalho e, principalmente, de ver como estão buscando construir as bases da Ciência das Redes, entendo o espaço informacional como um universo vasto de pesquisa. Gosto dessa abordagem e acredito que um olhar um pouco mais refinado para muitos dos projetos que atuamos pode nos ampliar bastante a reflexão sobre as estratégias que utilizamos, a maneira como nos organizamos em rede e muitas possíveis melhorias que poderíamos construir a partir disso. Gosto da ideia de analisar como os sites de um determinado contexto estão se linkando, permitindo otimizar e ampliar o potencial de circulação de muitos serviços que são desenvolvidos e pouco utilizados. Uma boa dica para cidades digitais, governos eletrônicos e experimentos por aí.
  3. Sessão Collaboration 1: foi uma sessão mais voltada para a discussão de como estudar padrões de colaboração na produção científica, o que envolve análise de padrões de co-autoria. Um dos trabalhos mencionou um novo conjunto de indicadores que têm por objetivo balancear melhor as relações de colaboração internacional, levando em consideração que países que possuem jornais acadêmicos mais fortes tendem a reduzir seu número de colaborações externas. Matematicamente, ideia interessante. Comentário: a sessão não foi tão interessante como as anteriores, mas pude aproveitar algumas dicas estatísticas de construção de gráficos e alguns truques de manuseio da informação. 
Resumo geral: dia bom, bem produtivo. Confirma bastante o que foi ontem, considerando que estar aqui tem sido interessante para observar o que está sendo produzido de pesquisa de ponta nos estudos da informação, em que pé aquilo que estou estudando está e como muitos desses métodos podem ser aproveitados para outros tipos de ações, para além da ciência formal.