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quarta-feira, 16 de maio de 2012

A Internet que queremos ou dos processos de concepção de um site


A Internet é uma rede de múltiplas camadas, de múltiplos níveis de tecnologias que dialogam entre si e criam um cenário de interoperabilidade de sistemas que permite possibilidades de comunicação e interação entre pessoas como nenhuma outra tecnologia antes sequer imaginou realizar. Ao permitir múltiplas camadas, a rede cria condições para que muitos modos de entender e produzir redes possam conviver. O comércio com suas necessidades de novas estruturas de venda e circulação de produtos, a indústria com sua necessidade de novos modos de produzir gestão ágil e descentralizada sem perder o controle de seus meios de produção, o governo com suas demandas de presença e manifestação em diversos territórios, sejam eles físicos ou imateriais, por onde sua regulação exerce efeitos e determina as regras dos jogos de convivência burocrática, os movimentos ativistas com a necessidade de divulgação de suas causas e de articulação de pessoas.

A Internet é rede de redes, é tecnologia que viabiliza circulação e dispersão de fluxos e, ao mesmo tempo, controle desses mesmos fluxos. É campo de apropriação e exercício de produzir formas de relação que façam sentido às demandas e necessidades de diferentes modos de organização social que podem ser produzidas pelas pessoas. É campo de influência, tecido de escritas de diferentes versões dos fatos, disputando espaços, colaborando em ações, dissolvendo fronteiras e produzindo limites. É massa de moldar zonas de interferência e produzir espaços que auxiliem na construção de sentidos restritos ou coletivos, sempre dependendo do olhar de quem vê e do modo como se relaciona.
Partindo dessa visão, a produção de um site, assim como seu próprio processo de concepção, é um ato de escrita, um ato de afirmação de valores que ultrapassam os limites dos dizeres técnicos e tecnicistas. A produção de um site é um evento político, entendendo por política a arte ou ciência da organização que pretende reger e regulamentar as formas de relação possíveis e imagináveis no contexto onde esse site irá operar. Por isso, ato de escrita, ato de atestação de valores, parâmetros e princípios de um grupo. Nesse caminho, a construção do site envolve necessariamente discutirmos a rede que queremos, a internet que desejamos refletir e os modos de organização que ampliem, sistematizem e facilitem as formas de relação que desejamos aqui constituir.
Sendo, portanto, o site o reflexo de um conjunto de princípios que ditam modos de fazermos redes, gostaríamos de aqui descrever esses modos e como eles têm influenciado em nosso processo de concepção do site do programa +Telecentros.

  1. A rede é espaço de encontro:
    A rede é espaço de aproximação entre pessoas, é local de encontro, é espaço onde o imaginário habita quando o contexto convoca e a presença é possível. É local onde encontrar a presença alheia amplia possibilidades de interação.
  1. A rede é espaço de conversa:
    A rede é espaço de conversação, de trocas de impressões, de compartilhamento de sentidos, de construção em andamento contínuo, do inacabado que se torna elemento de diálogo, de troca de impressões e de produção coletiva. A rede é ambiente e caminho onde as impressões se recombinam e dissolvem, entremeadas de links, pontos de contato e divergência.
  1. A rede é espaço de versões:
    A rede é espaço de diferentes visões e versões do que se encontra em produção. Como dissemos acima, é espaço do inacabado, é espaço de anotações, de retalhos de ideias e possibilidades de ideias. É local para documentar o que convoca a escrita, o que mobiliza o sentido sem a necessária preocupação de apresentar sentidos acabados. Sendo espaço de infinitas possibilidades de combinação, disponibilizar versões na rede é aumentar as chances de encontro com o outro quando um filtro de busca cria os enlaces e viabiliza novos vínculos.
  1. A rede é espaço de conflito:
    A rede é também espaço de desencontros. É espaço de explicitação de valores, de definição de campos que desejam criar marcas, que desejam dizer de limites, que desejam expressar discordâncias e mostrar que outros modos são possíveis. A rede é também máquina de articulação de opostos, de força vibratória que tensiona e distende nós de sentido.
  1. A rede chega até você:
    A rede não é feita de computadores, mas sim de pessoas. As máquinas, os protocolos e programas de computadores criam o campo de interconectividade e interoperabilidade de sistemas, permitindo que diversas tendências da indústria em termos de tecnologia e modos de produção econômica possam trocar informações e compartilharem dados. No entanto, a rede estabelece links pelos desejos das pessoas, a rede expressa em seus nós, em seus movimentos de centralidade e descentralização os modos como as pessoas se recombinam em grupos, comunidades e movimentos de expressão. A rede é articulada pelos e-mails, pelos links das redes sociais, pelos sms de telefones móveis, pelos encontros em espaços de formação, pelas vozes em seus múltiplos meios de expressão.
  1. A rede é livre:
    A rede não pode ser condicionada por nenhuma estrutura organizacional que pretenda definir seus rumos dado que ela é composta de pessoas. A hierarquia organizacional influencia a forma das redes, mas estas lhe escapam, criando novos vínculos, se apropriando de novos espaços de conversa onde sejam menos vigiadas. A hierarquia nas redes livres é nó de influência, mas não define centro e o tom dos fluxos em circulação. A hierarquia dialoga, circula e opera a partir de novas condições de conversa que se viabilizam na construção de sentido coletiva. A velha hierarquia sufoca as redes livres, eliminando o que a rede possui como condição fundamental de ser rede: as novas condições de possibilidades e combinações que sua estrutura permite.
  1. A rede é espaço político:
    A rede guia e é guiada, a rede influencia e é influenciada, a rede promove e é promovida. A rede, enquanto modo de organização de pessoas, define um campo político, define regras, condições, formas de relação que buscam viabilizar condições de relacionamento entre pessoas. A forma como a rede opera explicita suas escolhas como política relacional, o que lhe é permitido e o que lhe é negado.
Esses sete princípios definem desejos e condições que influenciam o modo como um pode ser concebido. Porém, são princípios que extrapolam os limites do próprio site, apontando para modos de produção de redes que buscam construir redes livres, abrindo brechas de expressão, espaços de conversa e novos caminhos que só podem surgir quando as regras do campo surgem da inteligência coletiva, bem ali onde a multidão forma bando e os burburinhos tecem diálogos em meio a produção de um novo modo comum. 

sábado, 17 de dezembro de 2011

Desdobramentos de conversas sobre as análises da Rede Conversê.org

No meio desse ano, comecei a avançar em experimentos mais concretos sobre algumas hipóteses de como estudar redes a partir de suas bases de dados. Lá em Durban, em julho, comecei a brincar com a base de dados da rede Conversê.org, uma ação fundamental que foi executada no âmbito do projeto Cultura Digital por gente querida na busca por ampliar os espaços coletivos e de conversação que existiam nos projetos culturais até então.

Experiência rica, intensa, o que só me motivou mais a querer trabalhar com ela. Comecei a construir um artigo que buscasse sintetizar alguns modos interessantes que eu gostaria de mostrar sobre como essa rede se desenvolveu ao longo de seu tempo de existência. Escolhi o formato de artigo por ser uma estrutura formal o suficiente para meu desejo de organizar as informações necessárias para obter o efeito que eu estava buscando naquele momento: menos discurso aberto, mais síntese de movimentos.

O artigo foi publicado essa semana na revista Em Questão, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A primeira coisa que fiz foi apresentar o resultado do trabalho para as redes Estúdio Livre e Metareciclagem, por onde ainda circulam várias pessoas que participaram da concepção, implantação e desenvolvimento do projeto Conversê. Meu desejo: conversar, ouvir comentários, críticas, ampliar minha capacidade de olhar para aquilo que tem me interessado nos últimos tempos.

Começou uma conversa muito interessante, puxada pela Fabi Borges e que vale relatar por aqui:

"fabi,

 tuas questões são um ponto chave...
 
2011/12/17 fabi borges <catadores@gmail.com>:

> pq esses usuarios nao mantiveram interesse?
> entra ahi um problema de design?
> ou ainda, por falta de "cultura" de colaboracao?
> Seria pq estava atrelada ao ESTADO e isso dava sensacao de que nao era
> horizontal de fato, que nao tinha poder de fato??--


de fato, são perguntas como essas que têm me movido a estudar as coisas desse modo.
escutei e escuto muitos discursos bonitos, floridos falando sobre redes, sobre projetos que eu participe e que, por experiência, eu sabia que o que aqueles discursos revelavam estava longe da minha percepção empírica das coisas.

mas, como demonstrar isso? com mais contra-discurso apenas, ficaria só mais uma versão da história. os gráficos e análise ajudam a embasar um pouco mais, apesar de não resolverem essas perguntas, como você bem colocou. dão um grau a mais para outras versões da história.

algumas hipóteses minhas:
  • não acho que seja problema de design;
  • não acho que seja falta de cultura de colaboração;
  • não acho que é pelo papel do "estado";
  • acho, e tenho buscado coletar, compilar, refletir sobre evidências mais fortes nesse sentido, que tem muito a ver com dois modos que podem se complementar de enxergar redes:
    • as redes auto-organizadas que emergem por si só: metareciclagem, é um exemplo disso. o contexto convoca, as pessoas se encontram pq que querem, por que sentem que ali encontra a força de uma conversa que não acontece em outro lugar. É como se uma certa vibra corresse no ar, instigando em diferentes modos a vontade de fazer algo que acaba se tornando num contexto de rede.
    • as redes construídas por projetos ou ações que visam promover coletivos e ampliar o potencial de auto-organização de grupos: esses são bem mais complexos, pois envolvem uma questão crucial pra mim: cuidado e afeto. Se as pessoas encontrarem em redes gente disposta a recebê-las, acolher de fato, conversar, responder, cuidar, demonstrar interesse verdadeiro (não a vontade de vender e fazer o ritual canibal marketeiro número 2), coisas muito interessantes podem acontecer. Mas, investir num processo desse demanda tempo, demanda muita, mas muita energia na vontade e disposição de conversar. Poucas redes que eu conheço se propuseram e conseguiram executar isso bem feito. Alguns exemplos, como a Rede Humaniza SUS, a rede Telecentros.br (os monitores de telecentros) caminham nessa vertente e dão boas pistas de como investir energia e inspiração nesse sentido.
  • Acho que a rede Conversê tentou ficar num misto disso, não fazendo nenhuma e nem outra. Mas, isso é só uma hipótese...

bjs,
dalton"

E assim segue a conversa...



terça-feira, 23 de agosto de 2011

Como se forma uma rede? - Bonita matéria na revista ARede

A Patrícia pegou o espírito do trabalho que temos feito nos últimos tempos e traduziu isso de uma forma singular na matéria online e impressa da revista A Rede de agosto.

Cito esse trecho que é parte fundamental da aposta de investir tempo, imaginação e energia numa formação:

"Um dos objetivos mais importantes de qualquer programa de inclusão digital é a formação de rede entre os monitores. Os monitores atendem usuários, organizam as atividades nos telecentros, fazem a ponte entre os telecentros e os interesses da comunidade. São responsáveis por manter as unidades do programa vivas. Grande parte do aprendizado dessas pessoas, na prática, se dá nesta experiência. Assim, um processo de formação precisa oferecer os instrumentos para resolver problemas e elaborar projetos neste dia-a-dia. Neste caso, o instrumento é a rede, a interação. As conversas entre os monitores, antes mesmo de concluído seu processo de formação, indicam que uma rede está emergindo no Telecentros.BR"

 Não é novidade já dita por tantas pessoas, amigos, pensadores, poetas e por aí vai: o que importa são as pessoas. E, num espaço onde podemos articular ações que aproximem pessoas de pessoas, para que possam simplesmente conversar, se conhecer, se ouvir, se encontrar e perceber que há tantos pontos de vista quanto a multiplicidade de encontros possíveis, já temos mais do que conseguido o melhor que poderíamos. A rede surge e o que acontece depois é resultado de uma soma de fatores que simplesmente estão fora do nosso controle. Garantir que as pessoas se encontrem não é pouca coisa, ainda mais por dentro dos métodos, metodologias e filosofias que tangenciam o pensamento educacional. Desconstruir esse lugar de poder/saber abrindo novas possibilidades de experimentação é um processo passo a passo, que demanda paciência, observação, análise e reconstrução contínua do próprio sentido que te move.


quinta-feira, 28 de julho de 2011

Artefatos, místicas e formas de pensar

Não creio que seja muita novidade entendermos que não fomos "treinados" na nossa cultura, no sistema educional, político, familiar bla bla bla para pensar diferente de formas lineares de entender as coisas. É praticamente "natural" analisarmos as coisas buscando relações de causa e efeito: se isso aconteceu, aquilo deve ter acontecido; se está desse jeito, é por culpa de tal coisa; se fizermos isso, vai rolar aquilo.

Criticar essa forma também não é algo novo. Muitos livros têm sido escritos, experiências, projetos, filosofias. De fato, no meu entender, estamos ainda no início da desconstrução: o novo tá visível como potencial, como possibilidade, ainda longe de se transformar em modo "natural" de pensar, pautando a maneira que nos organizamos e nos relacionamos. Ainda estamos longe disso.

Até aí, tudo bem. Há pouco a se fazer, a não ser aprofundar a crítica, analisar as possibilidades, experimentar, buscando sinalizar o novo na crença/aposta de que novas e novas gerações vão chegar, constituindo uma nova cultura, deslocando o velho e produzindo o novo. A vida que muitos de nós gostaríamos de viver, ao menos aqueles que estão se dando conta disso e percebendo os próprios limites no modo de fazer as coisas, não será experenciada em plena potência-contágio-coletivo nos tempos atuais. Somos o povo da romaria, somos o povo da migração, somos o povo que levanta poeira e busca construir um caminho por onde passar.



Lidar com isso é apenas uma condição de contorno, todavia. Há tantas brechas a serem exploradas, há tanto por se pensar e experimentar a cada dia, que a mente chega a não dar conta de tanta coisa que poderíamos tentar. Começar é um bom começo... ;-)

Tudo para isso para compartilhar uma reflexão que tem ganhado força dentro de mim nas últimas semanas. Algumas pessoas tem me perguntado por quê tenho dedicado tanta atenção, tempo e esforço estudando novos modelos matemáticos de análise de redes, dinâmica de sistemas e sistemas complexos. Acabei me dando conta que falei pouco sobre o que de fato tem ressoado aqui dentro, não na superfície, mas naquele âmago que te faz acordar as 3:00h da manhã e começar a rabiscar no velho caderno antes que a ideia-imagem-forma se esvaia nos abismos de si.

O fato, já eternizado por Einstein, é que para novos problemas precisamos de novos métodos. A vivência dos últimos 10 anos, somada a toda a experiência cultural-religiosa que vivencei nos últimos 7 anos, foi deixando isso gradativamente mais claro.

A dimensão da rede, do se relacionar em rede, da produção coletiva, da comunidade é um campo que ainda estamos de fato apenas começando a entender. Não há nada trivial nisso. Tenho explorado diversos pensadores/experimentadores que têm falado sobre isso e pautado a fronteira do que ainda conseguimos pensar. Gente como Fritojf Capra, Humberto Maturana, Gregory Bateson, Edgar Morin, Weiner Heisenberg, Ilya Prigogine, Pierre Levy, David Bohm, Barabasi, Duncan Watts, Mark Newman, Castells, Foucault, Deleuze, Guattari, Regina Benevides, Edu Passos, Nietzsche, Francisco Varela, sem falar nos aliados do dia-a-dia, Susana Maiani, Regiane, Renata Pudo, Paulinho, Felipe Fonseca, Daniel Pádua, Hernani Dimantas, Ricardo Teixeira, Rogério da Costa, Luiz Algarra, Lu Annunziata, Drica Guzzi, André Benedito, Glauco, Guima, Gus, Naty, Isis, Mari, Moura e por aí vai, são pessoas que têm, de uma forma ou de outra, me dado pistas, dicas e apontado caminhos, sobretudo aquelas que estão se predispondo a vivenciar isso em suas próprias relações.

Mas.... Tem um algo na minha forma de ver as coisas que estrutura a experiência a partir de algum tipo de método. Tenho me dado conta disso nos últimos anos, mas é algo que entendo estar presente desde sempre. O método, para mim, é o princípio, a energia motriz de organização daquilo que com que me relaciono.




Ocorre que o método que tenho utilizado desde sempre é o mesmo método linear que aprendi nos meus anos de estudo formal/convivência com tantas outras pessoas que pensaram assim. Seria pedir que de repente, ao entrar em contato com novas ideias, tudo subitamente mudasse. Não, as coisas são, em geral, um pouco mais complexas que isso.

Tem sido necessário construir um novo modo de pensar, uma nova forma de estruturas as coisas. Essa nova forma precisa incluir muitas dimensões, precisa ser flexível, móvel, dinâmica, ágil, adaptável. Precisa criar espaço para que outros pontos possam ser conectados, permitindo não apenas somar efeitos, mas emergir sensações e sínteses que não seriam possíveis antes.

O ferramental matemático da Teoria dos Grafos, o que de fato fundamenta a análise de redes e parte expressiva do que temos utilizado para o estudo dos sistemas dinâmicos traz essa perspectiva, ao meu modo de entender.

Simplificando ao máximo: é uma das formas modernas de entrar nos fluxos, de se deixar tocar pelas multiplicidades, de entrar no caos das interações, das relações emergentes e voltar de lá com um artefato, um objeto místico-síntese-atrator que tão simplesmente quanto a sua própria existência simbolize um movimento.

Não, não há nada de muito diferente do xamã que entra nos sonhos, nos fluxos da tribo e volta de lá com os totens-tabús produtores de sentido de seu coletivo. Uma nova forma de dar contorno e lidar com a amplitude daquilo que me ultrapassa.

Essa tem sido a motivação dos contornos de um novo modo e, posso garantir, estou ainda bem no começo, mas já começando a esboçar formas um pouco mais interessantes....

terça-feira, 22 de março de 2011

Telecentros como plataformas de articulação de redes

Há diversas "verdades" que têm sido ditas a respeito de projetos sociais que envolvem, de uma forma ou de outra, o uso de tecnologias que promovam maior conectividade entre as pessoas. Algumas acabam se tornando quase um mantra de várias conversas sendo que acabamos por perder o panorama mais global de como essas ideias têm sido articuladas e, sobretudo, colocadas em prática nos projetos em geral.

Uma delas é a questão da formação em rede, da promoção da redes, das redes sociais de maneira geral. É dito com muita frequência que o objetivo do projeto é promover redes, trabalhar a inteligência coletiva, facilitar a colaboração, utilizar as tecnologias para promover um tipo de interatividade que tem se tornado a moeda nº 1 quando ouvimos expressões como "mídias sociais" e tal.

A pergunta que me coloco aqui é: para que promover redes? para que trabalhar a inteligência coletiva? A rede pela rede promove conectividade daí a achar que isso é algo que deve ser buscado ou não, depende muito de como se responde ao objetivo disso tudo.

Não sou partidário das opiniões que acreditam que a rede é uma panacéia que pode melhorar a forma como nos relacionamos e nos articulamos para o desenvolvimento de objetivos em comum. Na mesma proporção que a rede amplia, ela também limita, também seleciona, filtra, reduz e sintetiza. Na mesma proporção que a rede conecta, ela desloca, atrai a atenção para pontos específicos, reduzindo níveis possíveis de outros tipos de conexão.

A rede surge como paradigma de controle e gestão de um estado burguês em desenvolvimento: rede elétrica, rede de esgosto, rede de televisão, rede de água, entre tantas outras. Logo, a rede pela rede, estamos discutindo o abstrato pelo abstrato. Não se trata disso e acredito que esse momento, apesar de parecer óbvio em certos momentos, merece alguma reflexão um pouco mais detalhada.

Acredito que há algo mais que me interessa na ideia de rede: a ideia de organização. A possibilidade de utilização de uma plataforma ampla e intensa de conectividade, como podemos entender os muitos projetos e programas que implantaram telecentros pelo Brasil na última década, como plataforma de articulação de redes que podem demandar outros níveis de organização, aí sim, algo surge que me interessa profundamente.


A infra-estrutura é fundamental, a banda larga é fundamental, a formação é fundamental. São aspectos de base, quase como condições de possibilidade para algo possa surgir a partir da intensa possibilidade de interação que pode ser criada a partir da livre apropriação dessas camadas de base. 


Entendo por outros níveis organizacionais alguns pontos importantes que podem ser experimentados de várias maneiras:

  • a consciência de si na relação com o outro. Me percebo, me conheço, me descubro um pouco mais quando me coloco em relação;
  • a capacidade de mobilização social, quando me dou conta de que minhas questões são mais amplas do que meus próprios interesses. Encontro semelhanças e diferenças que promovem deslocamentos em meu pensamento, ampliando possibilidades e perspectivas de interpretação daquilo que vivo. As semelhanças e diferenças tornam-se movimentos que disparam ações de conectividade, que promovem interação, debate e, eventualmente, colaboração. Causas, bandeiras, objetivos são descobertos, organizados e promovidos de maneiras supreendentes;
  • a descoberta do novo. As diferentes "verdades" se encontram e podem se remixar criando novas formas, novas possibilidades emergentes e que podem ser utilizadas de muitas maneiras por aqueles que se dão conta de algo novo surgiu;
  • novas formas de "institucionalização". A rede opera novas interfaces de sentido, novas maneiras de formar bando, grupos que se articulam, se autodenominam e se reconhecem de alguma que produz algum tipo de identidade coletiva. É um novo nível organizacional que surge como resposta a uma necessidade latente de interação. 



 A rede passa a operar efeitos que rearticulam territórios, mobilizam recursos e operam aberturas de diálogo que podem fazer toda a diferença no dia-a-dia de um telecentro, de uma comunidade, um laboratório, uma empresa, seja qualquer tipo ou forma de agrupamento humano. 

Nesse sentido, sinto que podemos ampliar a compreensão de nossa ação ativista nos sistemas dinâmicos complexos em que atuamos. Somos, de alguma maneira, promotores de interatividade pelos projetos em que atuamos. Refletimos de alguma e apoiamos a emergência de novos níveis organizacionais? Estamos prontos para mudar escopo, objetivos e nos adaptarmos ao que surge em meio ao fluxo que fazemos parte? Estamos prontos para construir novas verdades? 

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Notas do Imaginante

Revendo os RSSs atrasados do meu reader, me deparei com isso aqui nos posts do blog do MetaReciclagem.

Po, saudade da boa. Bonito de ver. Mexeu por aqui. Segue na íntegra, direto do blog do Meta:

"Você me pediu para te contar sobre o imaginante, eu vim aqui para te falar um pouco do que vivi....

Os fenômenos dançam.
O que tu chama de verdade, da tua identidade,
Para o imaginante é apenas o ponto zero da rede.
O lugar de onde ele produz as formas, as estruturas,
As oscilações e ondas que fazem teu mundo parecer sólido.
Você me pediu para te contar o que é um imaginante
E não consegui fazer isso de outra forma
A não ser tentando te mostrar porque você ainda não consegue ver.
O espaço informacional é por onde o imaginante caminha
E há um lugar e uma maneira de chegar a esse lugar
Que permite ao imaginante se reconhecer como tal.
Não é um lugar fácil de construir ou chegar
Nem tampouco pode ser comprado, imposto, forçado, mediado...
Ou exigido com base em algum reconhecimento que você ache que mereça ter.
O espaço da imaginante é o espaço de onde nascem as formas
De onde brotam os conceitos, novas palavras, definições, expressões,
E maneiras de se reinventar por entre margens e contornos do teu mundo.
O espaço do imaginante não é um espaço de poder
Não é um espaço de controle
Não é um espaço que pode ser conquistado
O espaço do imaginante é o espaço da pura possibilidade.
O teu dinheiro, a tua posição, as tuas conquistas
E a maneira que você se liga a elas, tentando preservá-las
Te impedem de entrar na rede do imaginante
Ele simplesmente faz escorrer por entre os teus dedos
Todo o poder que você acha que tem
Na tua íntima frustração de não entender e acessar o que o imaginante te parece ser.
O imaginante produz novas formas de conversar
Produz o espaço da possibilidade de encontro das pessoas
Dissolve certezas, se espalha por entre ideias,
Conecta opostos, deixa a mente livre para flutuar
Deixando poucas brechas de retorno para o que quer que seja.
O imaginante produz sua condição de liberdade
Mas você ainda não vai entender isso
Porque para ver a liberdade do imaginante
Você precisa conseguir acessar a pele esticada do seu tambor
Quando o timbre começa a soar
O fogo acende
A roda se forma
E os fenômenos apenas dançam na sua frente.
Você ainda não consegue acessar esse olhar
E fica se perguntando o porque.
Para isso, você precisa perder alguns dos teus maiores medos, medo de perder tua posição, sua sala, seu nome, sua reputação.
Precisa entrar no meio da multidão
Sentir seu cheiro, comer sua comida
Domir sua cama
Soltas suas tantas certezas
E se dispor a sentar junto
Pensar junto, olhar junto, se comprometer com o desafio
E ficar junto até resolvê-lo. Teu tempo é outro.
Se você não tiver medo,
Eu te garanto,
Em algum momento você vai descobrir esse olhar que brota liberdade
Num momento, o imaginante te reconhece
O espaço dele se abre
E talvez, você consiga entender onde está aquilo que tanto procura.
Mas, você não pode comprar isso.
Suas conversas sobre rede, colaboração, inovação e micro-empreendedorismo estão longe de tocar o espaço do imaginante
Ele para tudo isso e sorri da sua tentativa ingênua de manter seu controle, seu poder, sua reputação
Enquanto tenta, vestido da sua máscara de libertário, comprar seu espaço privilegiado em meio a multidão.
Não, você não vai conseguir
Sei que vai doer, mas só tem um jeito
Você vai ter de se despir
Entender o que significa o vamo que vamo
Perceber que não é um método
É puro movimento da produção da própria liberdade.
Você vai tentar, mas não vai conseguir comprar o imaginante
Você pode achar que conseguiu
Mas, dentro dele, há um espaço que você não consegue chegar, não consegue ver.
O código de metareciclar a produção de si do imaginante não é um conceito ou posição,
Apenas uma forma de viver que se é vivendo."

quinta-feira, 29 de julho de 2010

3 questões fundamentais do nosso tempo: referências, informação e ordem

Sinais interessantes podem ser lidos em várias instâncias de que as coisas estão mudando.
Até aí, que há de novo? Tudo tá sempre mudando, a vida nunca é estática e nos fluxos e refluxos nos reinventamos a cada dia.

Mas, parece que a mudança dos tempos que vivemos apontam vetores interessantes quando começamos a relacionar redes, problemas de conversação, explosão de informação, necessidade de encontrar ordem, angústia, o caos por simplesmente perceber que as formas tradicionais de se organizar o trabalho não funcionam mais e nada que conheçamos parece dar conta de oferecer novas perspectivas.

Que o trabalho e a forma como nos comunicamos vem mudando, também não tem nada de novo e isso tem sido dito de múltiplas maneiras a bons anos. Acredito que 3 questões fundamentais vêm pautando esses processos de mudanças:

  • medo, angústia da perder as referências, as certezas dos métodos e das formas que tradicionalmente sempre funcionaram. Toda a leva de metodologias rápidas e prontas, PMI, CRM, ERP, SAP, enfim... tudo o que criamos e desenvolvemos anos a fio para firmar certezas e ampliar nossa capacidade de previsão e organização da informação num mundo linear;
  • aumento exponencial de produção e acesso a informação, capacidade de estabelecer relações em rede, redefinições de identidade, de perfis que simplesmente não são possíveis de serem tratadas pelas lógicas tradicionais de organização. Hierarquias de tomadas de decisão, maneiras tradicionais de se pensar divisão de recursos, distribuição de poder e responsabilidades. Isso está mudando, queiramos ou não, e as lógicas tradicionais de gestão que tentam organizar isso colapsam em suas tentativas centralizadas, fechadas e lineares.
  • falta de conhecimento de outras possibilidades de se operar em meio ao caos e encontrar ordem. Dificuldade de operar sem um sentido de grupo, de coletivo e enorme dificuldade de saber como isso pode ser construído. Antigas referências de participação não dão conta. As pessoas mudaram, suas necessidades de participação são geracionais, suas visões do que é atuar em rede mudaram, suas necessidades de instâncias de distribuição de poder se agenciam em rede, querendo ou não. Não sabemos criar fluxos de organização disso.
 As organizações, as pessoas, grupos de trabalho, comunidades acabam dispersando e tendo enormes dificuldades para encontrarem sentido coletivo.

Se isso é um problema ou não, enfim, não creio que seja essa a questão. Acho que isso vai depender do olhar de quem observa ou não assim.

A questão que fica é, para onde José? Parece que fica a sensação de que temos a chave da porta, mas a porta já não há.

Alguns sinais interessantes parecem indicar traços de novas portas que podem ser construídas no fazer fazendo:
  • Novas tecnologias de conversação de grupos: Open Space, World Cafe, Investigação Apreciativa, etc...
  • Novas possibilidades de encontrar ordem nos fluxos da informação: Scale Free Networks, Power laws, Sistemas não-lineares, sistemas adaptativos, etc...
  • Novas possibilidades de organização em rede: a rede não como metáfora, mas como tendência de fluxo de informação. Abertura e disponibilização da informação em instâncias coletivas de decisão e conversação. Orçamentos abertos, decisões compartilhadas, alinhamentos coletivos. 
 São questões que parecem ainda de maneira dispersa, isoladas em muitos estudos e análises.
 Um desafio interessante e instigante é trabalhar a partir dessas 3 dimensões que, talvez, possam ser extremamente úteis quando se trata de encontrarmos novos caminhos e novas maneiras de estarmos juntos, não reduzindo e diminuindo a complexidade das tendências que vivemos, mas inventando novas formas de potencializá-las e reintegrá-las na produção de si.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

11º FISL - dia 22-07 - Conversando sobre Telecentros.BR, Metareciclagem, Dados Livres e Acervos Digitais

Fiz uma boa viagem na noite anterior. Sair tarde de São Paulo e viajar as 22:30 foi uma boa escolha: aeroporto vazio, pouca gente no saguão, vôo mais tranquilo. Bastante chuva em Porto Alegre, aeroporto quase fecha na hora do pouso, mas tudo ok. Cá cheguei. Direto pro hotel, a programação do dia seguinte parecia boa e acabou sendo bem melhor do que eu esperava.

Chego no FISL e montei uma apresentação baseada no manual da Rede de Formação, para falar um pouco sobre as linhas gerais, os principais desafios e como imaginamos que a rede pode criar propostas interessantes para a formação dos monitores do programa Telecentros.BR. Feito isso, fui dar uma rodada no espaço, visitar os estandes, encontrar uma boa moçada da antiga. Boas conversas de corredor e o ritmo aquecendo.

Entre na primeira palestra do dia "Educação e software livre: opções nas nuvens e nas máquinas". Um grupo de professores apresentando alguns recursos que utilizavam em salas de aula e em projetos piloto com professores. Gostei de ver uma apresentação mais detalhada sobre o software GCompris. Usei ele a alguns anos atrás, quando a gente ainda brincava com as possibilidades de softwares que uma distribuição Linux para o MetaReciclagem poderiam compor. O software avançou bastante, inclusive propondo uma espécie de linguagem de programação muito simples, na linha do Logo, que me pareceu interessante para o desenvolvimento de oficinas e projetos em ações de Telecentros. Vale a pena olhar com mais calma.

Depois, na mesma sala, veio a fala do Markun e da Daniela, sobre "Dados abertos e cultura livre". Bacana conhecer melhor o trabalho deles. Contaram o processo de criação do clone do Blog do Planalto, do Transparência hackday e alguns outros exemplos de projetos interessantes: SACSP, tr3e, georeferenciamento EJA, datagovsp.drupalgardens.com, data.gov, Open Data Catalogue (Vancouver), Apps for Democracy, Big Apps (NYC). Apresentaram algumas referências em que se basearam para pensar sobre dados abertos: blog.sunlightfoundation.org/10measurementsfortransparency e resource.org/8principles. Comentaram um pouco sobre a iniciativa do Governo de São Paulo, que depois da fase beta saiu do ar: governoaberto.sp.gov.br. Os próximos passos que estão pensando para o seu trabalho é criar uma plataforma que agregue iniciativas de dados abertos no Brasil, montar um sistema de crowdsourcing para fiscalizar obras para a Copa de 2014 e propor um programa de micro-bolsas de pesquisa na área. Conversam pela lista, que pode ser acessada em: thacker.com.br





Dando uma nova rodada no estandes, encontrei o pessoal dos Maristas, que fazem o trabalho muito legal de Robótica Livre e MetaReciclagem. Peguei um depoimento muito bacana de um oficineiro contando sobre sua influência de MetaArte no trabalho dos metarecicleiros aqui de Sampa. Biscoito fino!




Saindo da conversa, encontrei a Wanny do Ministério do Planejamento e o Global, que hoje tá trabalhando na Cobra Tecnologia. Além deles, tava a Rossana do MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrário) e fizemos uma rodada de conversa sobre a mesa que faríamos do Telecentros.BR, logo mais. Conversa boa, gostei muito da fala da Rossana sobre as questões relacionadas as áreas rurais que vão receber os telecentros. Peguei alguns depoimentos importantes dela para compor o vídeo que estamos planejamento fazer para aquecer algumas conversas no Seminário da Rede de Formação em agosto.

As 14:00, fomos para o prédio 09 e rolou a mesa Inclusão Digital e Software Livre. Pouco tempo, 1 hora, para 5 pessoas falarem e espaço para debate. Enfim, tempo muito curto, tivemos menos de 10 minutos para cada fala. Deu para destacar os principais desafios da Rede de Formação dos Telecentros: diversidade de políticas de inclusão digital, de estruturas e modelos de telecentro. Não deu tempo para abrir para debate e poder ouvir um pouco mais de outras visões para além dos representantes do programa. De qualquer forma, Rossa (MDA), eu e a Wanny (MPOG). Saímos dali e fomos almoçar. Boas conversas sobre as principais preocupações do programa. O Global me contou de algumas experiências que têm feito de forma voluntária com o Moodle, propondo uma formação orientada ao desenvolvimento de software livre. Gostei de algumas idéias dele, principalmente sobre suas preocupações com o perfil dos tutores que vão compor o projeto. Realmente, é um ponto delicado e que vale a pena muito carinho no seminário de formação.




Saindo do almoço, peguei alguns depoimentos em vídeo da Rossana, que são ouro para ampliar nossa visão do programa. Vale ver e refletir um pouco, principalmente no impacto que a chegada de bolsas têm em espaços que se regulam por uma outra lógica: podem gerar competição e desagregar movimentos. As saídas que ela propõe são interessantes.

Dali, parti dei mais uma rodada na área de estandes e encontrei o Metal, que tá trabalhando em Minas novamente e tá envolvido no projeto Cervo, do Minc. Conversamos quase uma hora e ele começou a me mostrar algumas especificações técnicas do projeto. Gostei muito do que vi e enxergo muitas possibilidades interessantes de construção de serviços de uso desses dados, principalmente nos estudo de suas relações e nas possibilidades de navegação entre elas. O Cervo tem uma arquitetura flexível para compartilhamento de acervos digitais de maneira descentralizada baseada em metadados. Tem bastante semelhança, em alguns pontos, com a estrutura de harvester das federações de bibliotecas digitais, mas são mais flexíveis e podem escalar de maneira mais livre. Vale a pena acompanhar isso e dar alguns pitacos na comunidade.

No próprio estande, encontrei o Eloir e o Alexandre, os dois dos Maristas e que são do Polo Sul, da Rede de Formação. Sentamos para conversar um pouco sobre como eles estão, as principais idéias que gostariam de ver contempladas no seminário e suas principais questões em relação ao programa. A conversa foi ótima e rendeu algumas boas e importantes ideias para o projeto. Vamos lá:
    1. precisamos nos preocupar sobre como a formação vai tratar questões operacionais e de suporte técnico ao funcionamento do telecentro. Muitos pontos podem ser resolvidos pelo próprio monitor, o que pode agilizar manter o telecentro operacional e mais máquinas a disposição dos usuários;
    2. como tornar o telecentro útil para a comunidade. Como o telecentro vai entrar nos corações e mentes das pessoas? Mapeamento da realidade local;
     3. é importante a formação ter uma parte feijão com arroz, mais conteudista. Muitos monitores vão querer isso;
    4. como vamos lidar com possíveis parceiros na produção de conteúdo para a formação? Por exemplo, se uma empresa quiser disponibilizar um conteúdo, como isso pode ser operacionalizado?
    5. conversamos muito sobre como se dará a contratação dos Tutores. A questão da remuneração dos tutores, seu modelo de contratação e  podemos fazer a formação desse tutor. O Polo Sul vai contratar 44 tutores em regime CLT. Estão pensando em encontrar alguns parceiros que possam oferecer cursos de formação extra para os tutores, como uma forma de ampliar sua motivação no projeto. Conversei com eles de propormos alguns encontros presenciais entre os tutores, quando nossa equipe vier para as formações presenciais. Gostaram bastante da idéia e sugeriram que podíamos fazer isso a cada 3 ou 4 meses, fazendo ciclos de conversas e revezamento para ir consolidando e compartilhando visões. Estão bastante preocupados em como manter o tutor motivado e como evitar o rodízio de tutores. Acham que o valor que será pago aos tutores é pouco, o que é preocupante pelo fato do tutor poder tratar o trabalho como algo secundário em suas ocupações. Acham fundamental problematizar isso no Seminário com os outros Polos. Por contratarem CLT, pensam em chamar pessoas que já passaram por seus cursos de formação, que estão envolvidos com os CRCs (Centros de Recondicionamento de Computadores) e que já têm envolvimento com inclusão digital. Acham preocupante a contratação de estagiários que não possuem nenhuma relação com projetos de telecentros.
    6. conversamos um pouco sobre o repositório de conteúdos de iniciativas de formação em inclusão digital. Na conversa, surgiu uma idéia muito interessante para criarmos um processo de moderação coletiva da sugestão de novos conteúdos. Os passos disso seriam os seguintes:
        - no site do projeto, haveria um espaço para qualquer pessoa na Internet cadastrar um material ou conteúdo qualquer que queira disponibilizar para a formação do programa Telecentros.BR;
        - esse conteúdo entraria numa fila de moderação, que seria acessível apenas por representantes dos Polos Regionais, Nacional e coordenação da Rede de Formação do MPOG;
        - essa fila de moderação funcionaria num modelo de votação, onde os Polos votariam se consideram o conteúdo adequado para ser parte da Rede de Formação. Se o conteúdo recebesse acima de X votos, ele seria disponibilizado como uma oferta "homologada" pelo programa e ficaria disponível para acesso aos monitores. Além disso, conversamos de ranquear as ofertas aprovadas pelo número de downloads dos monitores, claramente construindo um sistema de reputação e qualificação pelo uso dos monitores do programa. Adoram a idéia e acharam que isso deixaria o projeto muito mais interessante e inteligentge. Acredito realmente que construir essa fila de moderação e esse sistema de reputação de conteúdo pode funcionar como um bom fluxo para a construção de um repositório de objetos de formação extremamente interessante e potente.

Terminamos nosso ótimo papo e senti que ali aquecemos uma boa discussão para encaminhar no Seminário. Enfim, sinto que estamos começando certo. Depois, fui para uma boa conversa que estava sendo provocada pela turma da Cultura Digital do MinC - "programa de apoio ao desenvolvimento de software livre". Uma boa galera conhecida por ali e uma interessante discussão de como o MinC poderia fomentar editais que apoiassem a produção de software livre. Ali, fiquei sabendo de uma iniciativa interessante de formação que a Escola Superior de Redes estava construindo para apoiar o Suporte Técnico em salas de informatica do Proinfo. Fui atrás disso e gostei bastante do material. Uma boa referência de apoio aos monitores. Sobre a conversa do modelo de desenvolvimento, acho bem acertada a iniciativa do MinC. Sugeri que pudessem contemplar nesse edital não apenas a descentralização do modelo de desenvolvimento, mas também do modelo de testes e aprovação dos códigos entregues, além de incentivar processos de formação que ajudassem a produtores de mídias livres a transformarem suas demandas em propostas que pudessem ser mais facilmenter convertidas em demandas de desenvolvimento de software livre.

E para finalizar o dia, sentei num papo com o TC, da Casa de Cultura Tainã, que representam 80 telecentros no Telecentros.BR. Fazem parte da rede Mocambos (mocambos.net) e possuem algumas demandas muito específica de conteúdos. Um ponto que me saltou na conversa com o TC foi o fato de que vão haver iniciativas que não serão apenas regionais, ou seja, algumas iniciativas que vão ter de articular com diferentes polos regionais. Seria interessante termos isso mapeado e pensar em como articular com essas iniciativas que têm fortes influências culturais regionais, de gênero, de movimentos tradicionais da cultura popular. Seria importante conhecermos isso e conduzir uma discussão no Seminário de como contemplar essa diversidade na oferta de conteúdos do programa de formação.

Bem, para o primeiro dia rendeu um bocado de ideias e conversas. Fiquei bastante animado e empolgado com os papos por aqui e ampliei a crença de que precisamos articular cada vez mais com essas diferentes visões de inclusão digital, criando instâncias de conversa e representatividade, que amplie e dê significado a uma assinatura coletiva dessa proposta do programa de formação.

E segue o trem...

quinta-feira, 8 de julho de 2010

A sensação de controle e o reposicionamento das redes

Muito se fala hoje em dia sobre formas e possibilidades de se controlar redes, de se prever seu comportamento, de mapear suas relações para que possamos ter maneiras de fazer uma gestão mais atuante na complexidade das redes.
Já faz algum tempo que venho discutindo isso e questionando a impossibilidade que é utilizar ferramentas de mapeamento e gestão para se controlar redes: isso definitivamente não funciona e essas metodologias não servem para isso.

Mas, hoje encontrei uma citação chave para essa visão a respeito do que é essa tal sensação e necessidade de controle que circula na sociedade, nos grupos sociais e nas organizações. O medo de não conseguir pensar de outra maneira e a própria impossibilidade de refletir de outras formas leva e enquadra o raciocínio em níveis de contingência do pensamento que, sem dúvida, estão por detrás da irresponsabilidade muitas "boas iniciativas" de gestão que podemos observar nas empresas, governos, ongs, etc.

Cito aqui J. Doyne Farmer:

"Para prever a trajetória de algo, você precisa compreender todos os detalhes e monitorar cada detalhe. Isso é como resolver o problema do terrorismo pela vigilância e pela segurança. Estabeleça um sistema que detecte e siga cada terrorista e impeça-os de agir. Esta é uma solução tentadora, porque é fácil construir um consenso político para esse fim, e isto envolve tecnologia, que é algo em que nós somos bons. Mas, se há algo que aprendi em meus vinte e cinco anos de tentativas de predizer sistemas caóticos, é que isto é muito difícil, e é basicamente impossível de fazê-lo bem."

Mapeamentos são inúteis como foram de controle, pois sempre vão criar caixas de ressonâncias que detectam o sintoma conforme a causa que conseguem enxergar. A questão não está aí.

O ponto chave dessa conversa é a linguagem e a metalinguagem.
Ampliamos nosso potencial de rede, nosso adensamento e conversação quando conseguimos abrir novos espaços para conversarmos sobre como conversamos. Aí o mapeamento nos ajuda como estratégia de dobra, de ampliação da consciência do grupo a respeito de seus próprios temas, questões e filtros de relevância que surgem das contingências de sua própria linguagem.

Pra que ERP, CRM, SAP? Se mercados são conversações, a gestão se faz na subjetividade, no entre, na capacidade de operar na complexidade e não na capacidade de controlar e conseguir realizar previsões.

o que estamos mesmo fazendo?

como ampliar isso?

1. junte pessoas a sua volta que compartilham esse dna;
2. atue dentro de alguma ação onde você entenda que uma nova visão
pode cutucar novas possibilidades interferindo nas metodologias, nas
tecnologias, nas práticas;
3. atue também observando as práticas já existentes, aprendendo com
elas e realimentando essa ecologia de que vc. faz parte para que outras
pessoas, em outros estados e países possam aumentar seu próprio nível
de entendimento de novas possibilidades e auxiliar na ampliação dessas
possibilidades;
4. estamos todos aqui construindo um kernel mutante de possibilidades
sociais, o jeito de ser é o nosso linux, fazendo um
comparativo bem simplista...
5. enfim, alargue para onde vc. achar necessário essa árvore do
conhecimento, faça a rede pensar de acordo com seus fluxos, interfira,
escute, aprenda, transmita, ensine, repense...

somos muito além de um projeto, pois acima de tudo não temos metas a
serem alcançadas, temos sonhos compartilhados nesse pó de estrada que
estamos curtindo juntos e tentativas infinitas de encontrar sentido
para um tanto de coisa que só quem sente sabe o que é.

de como começou a montagem do primeiro laboratório de metareciclagem

mais uma da série de histórias...

Quanto ao material básico para começo que você me perguntou, segue
algo aí:
1 - Conjunto de chave de fendas (aquele de camelô mesmo);
2 - Alicate de bico fino;
3 - Um multímetro bem básico em caso de querer testar alguma placa ou
a fonte.
Bom, na minha opinião, isso aí já dá pro gasto. Creio que com uns
R$30,00 dê para comprar tudo, até menos.


e daí, o resto é história pra contar... ;-))))

nas rotas do que vemos por aí: refletindo sobre aprendizado em rede

outra saindo dos arquivos:

| Pois é, desentupir tem vários sentidos e o mais imediato que
|eu vejo é o reaproveitamento dos refugos dessas máquinas
|inchadas e ineficientes. Os trabalhadores alfabetizados por
|Paulo Freire ganharam poder de voz e de argumentação quando se
|deparavam com situações de alfabetização em que eram
|protagonistas. A letra escrita tinha uma função de ecoar a
|sensibilidade imprecisa daquele que antes somente se
|expressava por via oral. Essa inversão da cartilha da web
|voltada para a comunidade é uma retomada possível de uma
|"alfabetização" engajada. É um passo, apenas um passo, mas
|desponta setas na direção contrária do que vemos por aí...

Metareciclagem: da vanguarda de idéias para a vanguarda de ações

mexendo em mensagens antigas e dando uma geral, me deparei com um email que escrevi na lista do Metáfora, em 2003, quando o projeto MetaReciclagem saiu na capa do caderno de informática do Estadão:

"A consequência direta do MetaReciclagem é a montagem do MemeLab, o
laboratório experimental do Projeto Metáfora. Idéias, experimentos,
projetos. Começa a surgir o momento em que a vanguarda de idéias passa
a repercutir em vanguarda de ações. Mas nenhuma ação pode adquirir um
caráter individualista nesse momento e deve ser o consenso de um
coletivo de inteligências disposto a pagar o preço de seus atos.
No fundo, o que quero dizer é: metam o dedo nisso tudo, invertam os
fluxos, mudem as cores, remexam no caos, pois ele foi lançado e o
Metáfora precisa digerí-lo e lançar dedos inquietos que respondam a
altura.
A hora de agir é agora. Vamo que vamo!!!"

É muito bom ver e sentir como essa busca por novas perguntas vai se transformando, transmutando, renovando, reinventando, mas continua mais viva do que nunca...
Momento lindo de ver isso, de refletir sobre isso, sobretudo pelas conversas que tenho tido nos últimos dias, a força de poder refletir nas ações e conceitos, os amadurecimentos nas conversações e na própria capacidade de produzir mundos.

Ha! Há muito mais disso por dentro da onda que balança, puxa e repuxa e ensina que a rede é antes de tudo um modo de pensar, uma maneira de ler e agir no mundo.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Debate Lixo Eletrônico - 9ª Oficina de Inclusão Digital

Hoje pela manhã rolou o debate sobre Lixo Eletrônico aqui na 9ª Oficina de Inclusão Digital.

Montamos essa apresentação com alguns pontos que queria destacar:
  • a importância da inclusão do tema lixo eletrônico nas formações e no planejamento de programas de inclusão digital;
  • o nosso posicionamento como política pública em rede, ou seja, como espaço de agenciamento de ações, de conversas e mapeamento de iniciativas via LixoEletronico.org;
  • a possibilidade de conectarmos Telecentros com espaços de Coleta e Reciclagem, para incentivar processos de apropriação de tecnologia, formação e articulação em rede.
O debate começou com o Mauro, do CEDIR, apresentando as iniciativas que a USP tem desenvolvido em São Paulo.
Depois apresentamos nosso papo.

As conversas giraram em torno de referências de informação, material de apoio e como apoiar iniciativas de estudo e formação na área.

Sem dúvida, o tema pareceu abrir uma conversa para muita gente.
Outros, em busca de soluções para seus telecentros e postos de acesso.
Pouco nível de articulação, mas uma vontade de encontrar caminhos para isso.

O lixoeletronico.org surge como espaço exatamente para buscar organizar informação e fomentar redes em torno disso.

Uma analista do Ministério do meio Ambiente se apresentou dizendo que não concordava com o estudo da ONU sobre o Brasil. A convidei para escrever no site e contar a história do Ministério dessa conversa. Estranhamente, ela não ficou para o final da conversa.

O mais importante do que foi conversado e que creio que podemos ter um avanço interessante a curto prazo é incluir o tema nos programas de formação dos projetos, além de começarmos a realizar alguns experimentos de conexão de Telecentros com espaços de apropriação de tecnologia para além do acesso básico.

E segue o trem...

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Dados, links e e o que podemos fazer com isso

Pense somente no que poderíamos fazer ao articular dados de programas de formação, de uso de telecentros e das redes sociais em torno dos projetos públicos que já foram desenvolvidos no Brasil?

Pense em processos de ativação dinâmicos, apoio nas respostas de comunidades locais, identificação de problemas e sugestões de soluções? Pense...

Podemos fazer algo sobre isso? Eu creio que sim... E acho que tem um chão enorme para se pensar aqui.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

algumas origens do toque do tambor


Alguns recortes da II Oficina de Inclusão Digital, quando estávamos começando a conversar sobre projetos, metareciclagem e ações no âmbito do Gov federal. Interessante perceber como há algumas questões que ainda são totalmente atuais.

terça-feira, 25 de maio de 2010

para onde foi o toque do tambor?

Para onde foi o toque do tambor?
A mão seca na pele esticada.
As cores de cordel,
Os 100 olhos estampados na tela,
As hashtagstalkings pontas de bits.
Para onde foi o toque do tambor?