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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Apresentando no III Seminário do programa de pós em Ciência da Informação na ECA/USP

Ano bom, ano forte. Muita mudança, novos pontos de vista, novas possibilidades, muitos deslocamentos de lugares já consolidados abrindo espaço para novas formas de se ver para tantos lugares já conhecidos.

Enfim, caminhos. E esse foi um ano de muito trabalho de análise, de síntese, de reflexão, de se recolher mais para pensar, de falar menos. Ontem, num importante momento de síntese, todos os colegas e companheiros que estão fazendo pós no mesmo programa que eu, na Ciência da Informação - ECA/USP, e qualificaram no ano de 2011, se reuniram num seminário para apresentarem o andamento de seus trabalhos de pesquisa, seja de mestrado ou doutorado.

Conversa boa, revendo gente amiga, compartilhando as preocupações, as inquietações, os modos de pensar, os modos de escrever. Fui pra lá também apresentar o andamento da tese, os primeiros resultados que consegui gerar a partir das últimas semanas em que trabalhei bastante num script php para extrair e organizar os dados da base de modo que me permita os cruzamentos necessários. Processo extremamente divertido, relembrando de muitos caminhos da programação, dos tipos de raciocínio, dos meios de chegar a um ponto.

Fica o registro da apresentação, fechando mais esse ciclo.


sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Redes, redes, redes: modos de gerir e modos de formar

Tenho falado bastante nos últimos tempos sobre questões que facilitem e promovam processos colaborativos em rede. Tenho tido o costume de chamar isso de ativação de redes, um nome que me parece simples e que me ajuda a compreender o fazer redes como uma ação que pode ser proposta, construída e pensada na dimensão de um projeto.

Logo, refletir, pesquisar e documentar questões que sinto estarem relacionadas a princípios de ativação de redes tem sido uma constante nas caminhadas-ideantes por aí afora.

Uma das coisas que o projeto Telecentros.BR tem me trazido como campo experimental com muita intensidade nos últimos meses é a relação entre o quero chamar aqui de modos de formar e modos de gerir. Essa distinção tenho adotado a partir de um maravilhoso texto que li sobre processo de formação da turma da humanização da saúde.

Lá pelas tantas, eles citam algo a atenção e me fez colocar em perspectiva algumas tantas experiências dos últimos anos:

"O princípio que pretendemos discutir aqui se pauta na compreensão de que os processos de formação, os modos de cuidar e os modos de gerir são indissociáveis, ainda que sejam distintos." 

A primeira reflexão que me surge é:
  • O quanto o modo como fazemos a gestão de nossos processos de trabalho e relacionamento está pautando o tipo de formação (de qualquer tipo de processo educativo, seja uma oficina, palestras, cursos, etc.) que estamos ofertando ao outro?
E logo na sequência:
  • O quanto consideramos essa questão como espaço de conversa e reflexão em nossa produção cotidiana?
Em poucas ações que estive presente vi essa preocupação explícita, como pauta na mesa e prioridade do fazer do grupo, entendendo que se os modos de gerir do próprio grupo não estiverem sendo refletidos na formação que se objetiva construir, algo de uma profunda contradição começa a operar e isso vai ter reflexos na maneira em que nos propomos estabelecer conexão com comunidades, telecentros, pontos de cultura e tantos outros nomes que utilizamos em nossos projetos.

No entanto, esse fazer tem consequências, apresenta desafios de grande complexidade pois desloca a questão do produto que um grupo está se propondo a executar para o modo de gerir desse próprio grupo. Questão extremamente delicada pois atua diretamente nas relações de poder, de saberes e de papéis pelos quais este grupo se propõe a atuar.

E aí, chegamos num ponto fundamental que tem uma relação direta com a ideia de ativação de redes: o quão flexível é a proposta de atuação que temos para que de fato contemple a produção e construção coletiva de um modo de gerir ainda não previamente pensado, ou mesmo acordado?

Sinto que é nesse ponto que reside uma zona complexa de atuar, difícil mesmo de chegar, mas, que quando tratada como tema dos próprios processos formativos em que nos propomos atuar, o efeito é visceral. Abre dimensões fundamentais das relações humanas, ativa discussões de fundo que se relacionam com modos de ver o mundo, maneiras de compreender a própria vida e são disparadores de base de processos colaborativos, pois, sobretudo, quando novas propostas de modos gerir podem ser experimentadas, testadas e refletidas por um coletivo.

Há muito para se pesquisar nesse ponto, sem dúvida. Muitos problemas novos surgem, muitas questões ainda não colocadas vêm a tona e poucas respostas prontas são úteis nesse tipo de relação. Mas a aposta e, eu até ousaria dizer isso do que tenho vivido, é que essa é uma questão que facilita a produção de autonomia, a construção de redes e coletivos mais empoderados, com mais possibilidades e recursos para se auto-organizar, utilizando a rede como meio e modo de gerir. Aí, produzimos processos formativos que refletem suas questões de base e não apenas objetivos a serem atingidos estabelecidos por grupos que muito pouco têm a ver com a realidade daquele que idealizam em suas ações.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

por dentro dos olhos

O dar-se conta, o revelar-se é quase como um ato de dar um passo ao lado e observar como estávamos nos relacionando com algo coisificado que apenas existia dentro de nós.

Sim, a rede se faz permamente, é o próprio corpo, é a própria forma dinâmica de ser, fazer consciência do fluir do meu viver.

As necessidades do marketing criam objetos, coisas a partir das quais passamos a nos relacionar, a pensar e o foco de nossa atenção vai para isso. Ao coisificar é como se a rede de crenças e desejos fosse projetada em algo. Algo a partir do qual construímos nossas identidades.

E isso se torna objeto de manipulação pelo capital, pois o capital incorpora as projeções em seu fluxo financeiro ao conseguir precificar os aspectos mais sutis de nosso próprio pensamento.

A voz humana some na coisificação, pois passamos a não ver o outro como legítimo outro, apenas como uma estrutura, um valor que responde melhor ou não aos meus anseios.

Quando um mapeamento serve como uma espécie de enlace, como algo que dobra por dentro das conversações apenas como um instrumento que nos ajude a ampliar o espaço de conversa sobre nós mesmos, talvez possamos sair da coisificação. Talvez possamos nos dar conta dos rumos da linguagem, de como fazemos o que fazemos.

O mapeamento é apenas um dispositivo intermediário, não tem um fim em si mesmo.
Serve como instrumento de contato, para logo ser descartado.
É como uma charge dentro do Roda Viva, é como um quadro por dentro dos monstros: serve para conversar com eles, para dar o passo ao lado e dar-se conta.

A transformação ocorre quando se dissolve a coisificação.
Sim, estamos buscando alargar as brechas, as brechas da conversa, da reflexão...

quinta-feira, 1 de abril de 2010

pensando em colaboração

"Há várias maneiras de relacionar-se entre as pessoas. Algumas são de autoridade. Sou o chefe, os que me são subordinados me obedecem. Os subordinados estão subordinados aos desejos, às ordens, às aspirações dos chefes. O chefe diz “eu quero tal coisa”, e isso é uma ordem. E o subordinado, sem questionar, faz. Essa é uma forma. A outra forma é que várias pessoas se encontram em um lugar e se movem com independência umas das outras, o que um faz não afeta os outros. E outras formas são aquelas nas quais diferentes pessoas interagem entre si, não em uma relação de autoridade e subordinação, não em uma relação de completa separação, mas fazendo coisas juntos. Este fazer coisas juntos pode conservar-se no prazer de fazê-las juntos ou derivar à subordinação ou à dispersão. Quando se conserva o prazer de fazer as coisas junto, se conversa. O que um diz não é uma exigência para os outros. É um convite, uma reflexão para gerar um fazer conjunto. Não se vive como isso uma ordem nem como indiferença, se vive como participação, um fazer de todos eles, no qual o que cada um faz é coerente com o que fazem os outros desde a autonomia, por meio da compreensão do que se está fazendo junto. Isso é o que queremos dizer quando falamos de colaboração. Esse espaço acontece em uma conversação, em uma co-inspiração. Por exemplo, aqui estamos juntos conversando, como resultado de uma co-inspiração. Em algum momento se sugere a necessidade de uma reunião, e isso se converge no fato de que estamos juntos e nos escutamos. Não há uma relação de autoridade, não estamos dispersos, mas estamos fazendo algo juntos que é uma entrevista, uma conversação, e tem um caráter que vai depender da natureza do que se faz. Mas, que está associado com o momento de estar aqui, de querer estar aqui, de fazer coisas que vão surgindo desta interação que não é de autoridade, e que não é de dispersão."

Trecho de uma entrevista de Humberto Maturana e Ximena Davila ao Instituto Ethos. 


Construímos o nosso sentido de estar juntos a partir de nossa capacidade e vontade de querer conversar. Havendo isso, uma rede, um grupo de trabalho tem as condições necessárias para ser saudável aos que dela participam e criarem suas próprias formas de apropriarem e se acoplarem a mais esse domínio relacional que é criado.


Conversamos em rede porque assim o desejamos, porque assim faz sentido, porque assim encontramos motivação para continuar fluindo por aquele espaço. Conversamos em rede porque sentimos prazer nisso. É bastante simples, mas pontua uma forma de ver as coisas que pode nos ajudar a facilitar o nosso fazer nos projetos que atuamos. 


O foco de um processo de ativação é esse prazer de conversar, o prazer de estar em relação. Entendo que esse prazer resido na própria dinâmica da relação, o que é algo singular e diz de cada um que atua.


Se não é isso o que ocorre entre nossos possíveis contatos, iremos:
  • ou nos dispersar e habitar outros territórios;
  • ou nos subordinamos, por que assim nos é conveniente, e nos relacionarmos a partir de um ponto de vista que considera o "certo" e o "real" como algo objetivo e mediado por apenas um lado da relação. Certamente, estaremos vivendo algo outro que colaboração.