Começando a gerar alguns experimentos que facilitem visualizar e se dar conta de como as redes produzem movimentos de sincronia, movimentos de remix de posições ao colocarmos em movimento as relações como se estabelecem no tempo.
A experiência abaixo é a partir dos dados da rede Univerciencia.org, uma rede de co-autoria entre pesquisadore que publicam em revistas da área da Ciência da Comunicação.
Construindo uma história de links e caminhos, de conexões e conversas, de sentidos e contextos...
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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
sábado, 17 de dezembro de 2011
Desdobramentos de conversas sobre as análises da Rede Conversê.org
No meio desse ano, comecei a avançar em experimentos mais concretos sobre algumas hipóteses de como estudar redes a partir de suas bases de dados. Lá em Durban, em julho, comecei a brincar com a base de dados da rede Conversê.org, uma ação fundamental que foi executada no âmbito do projeto Cultura Digital por gente querida na busca por ampliar os espaços coletivos e de conversação que existiam nos projetos culturais até então.
Experiência rica, intensa, o que só me motivou mais a querer trabalhar com ela. Comecei a construir um artigo que buscasse sintetizar alguns modos interessantes que eu gostaria de mostrar sobre como essa rede se desenvolveu ao longo de seu tempo de existência. Escolhi o formato de artigo por ser uma estrutura formal o suficiente para meu desejo de organizar as informações necessárias para obter o efeito que eu estava buscando naquele momento: menos discurso aberto, mais síntese de movimentos.
O artigo foi publicado essa semana na revista Em Questão, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A primeira coisa que fiz foi apresentar o resultado do trabalho para as redes Estúdio Livre e Metareciclagem, por onde ainda circulam várias pessoas que participaram da concepção, implantação e desenvolvimento do projeto Conversê. Meu desejo: conversar, ouvir comentários, críticas, ampliar minha capacidade de olhar para aquilo que tem me interessado nos últimos tempos.
Começou uma conversa muito interessante, puxada pela Fabi Borges e que vale relatar por aqui:
"fabi,
tuas questões são um ponto chave...
de fato, são perguntas como essas que têm me movido a estudar as coisas desse modo.
escutei e escuto muitos discursos bonitos, floridos falando sobre redes, sobre projetos que eu participe e que, por experiência, eu sabia que o que aqueles discursos revelavam estava longe da minha percepção empírica das coisas.
mas, como demonstrar isso? com mais contra-discurso apenas, ficaria só mais uma versão da história. os gráficos e análise ajudam a embasar um pouco mais, apesar de não resolverem essas perguntas, como você bem colocou. dão um grau a mais para outras versões da história.
algumas hipóteses minhas:
bjs,
dalton"
E assim segue a conversa...
Experiência rica, intensa, o que só me motivou mais a querer trabalhar com ela. Comecei a construir um artigo que buscasse sintetizar alguns modos interessantes que eu gostaria de mostrar sobre como essa rede se desenvolveu ao longo de seu tempo de existência. Escolhi o formato de artigo por ser uma estrutura formal o suficiente para meu desejo de organizar as informações necessárias para obter o efeito que eu estava buscando naquele momento: menos discurso aberto, mais síntese de movimentos.
O artigo foi publicado essa semana na revista Em Questão, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A primeira coisa que fiz foi apresentar o resultado do trabalho para as redes Estúdio Livre e Metareciclagem, por onde ainda circulam várias pessoas que participaram da concepção, implantação e desenvolvimento do projeto Conversê. Meu desejo: conversar, ouvir comentários, críticas, ampliar minha capacidade de olhar para aquilo que tem me interessado nos últimos tempos.
Começou uma conversa muito interessante, puxada pela Fabi Borges e que vale relatar por aqui:
"fabi,
tuas questões são um ponto chave...
2011/12/17 fabi borges <catadores@gmail.com>:> horizontal de fato, que nao tinha poder de fato??--
> pq esses usuarios nao mantiveram interesse?
> entra ahi um problema de design?
> ou ainda, por falta de "cultura" de colaboracao?
> Seria pq estava atrelada ao ESTADO e isso dava sensacao de que nao era
de fato, são perguntas como essas que têm me movido a estudar as coisas desse modo.
escutei e escuto muitos discursos bonitos, floridos falando sobre redes, sobre projetos que eu participe e que, por experiência, eu sabia que o que aqueles discursos revelavam estava longe da minha percepção empírica das coisas.
mas, como demonstrar isso? com mais contra-discurso apenas, ficaria só mais uma versão da história. os gráficos e análise ajudam a embasar um pouco mais, apesar de não resolverem essas perguntas, como você bem colocou. dão um grau a mais para outras versões da história.
algumas hipóteses minhas:
- não acho que seja problema de design;
- não acho que seja falta de cultura de colaboração;
- não acho que é pelo papel do "estado";
- acho, e tenho buscado coletar, compilar, refletir sobre evidências mais fortes nesse sentido, que tem muito a ver com dois modos que podem se complementar de enxergar redes:
- as redes auto-organizadas que emergem por si só: metareciclagem,
é um exemplo disso. o contexto convoca, as pessoas se encontram pq que
querem, por que sentem que ali encontra a força de uma conversa que não
acontece em outro lugar. É como se uma certa vibra corresse no ar,
instigando em diferentes modos a vontade de fazer algo que acaba se
tornando num contexto de rede.
- as redes construídas por projetos ou ações que visam promover coletivos e ampliar o potencial de auto-organização de grupos: esses são bem mais complexos, pois envolvem uma questão crucial pra mim: cuidado e afeto. Se as pessoas encontrarem em redes gente disposta a recebê-las, acolher de fato, conversar, responder, cuidar, demonstrar interesse verdadeiro (não a vontade de vender e fazer o ritual canibal marketeiro número 2), coisas muito interessantes podem acontecer. Mas, investir num processo desse demanda tempo, demanda muita, mas muita energia na vontade e disposição de conversar. Poucas redes que eu conheço se propuseram e conseguiram executar isso bem feito. Alguns exemplos, como a Rede Humaniza SUS, a rede Telecentros.br (os monitores de telecentros) caminham nessa vertente e dão boas pistas de como investir energia e inspiração nesse sentido.
- Acho que a rede Conversê tentou ficar num misto disso, não fazendo nenhuma e nem outra. Mas, isso é só uma hipótese...
bjs,
dalton"
E assim segue a conversa...
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
Modelando a função apoio na Rede Humaniza SUS: explorando possibilidades com Drupal
A modelagem de sistemas complexos tem sido um assunto que tenho explorado por aqui nas últimas semanas. Um ponto que tenho buscado deixar evidente é que esses insights todos da complexidade não devem servir apenas para que possamos analisar sistemas, concluindo coisas interessantes, porém ficando muito restritas a domínios acadêmicos de pesquisa. Creio que podemos muito mais a partir disso, sendo que o ponto em que vejo uma avenida de possibilidades é o fato de levarmos em consideração alguns desses princípios na criação de sistemas, na modelagem de modos de promoção de redes, encontro de pessoas e situações do nosso cotidiano que poderiam simplesmente serem pensadas levando em consideração outros tipos de variáveis que ainda não estamos propriamente acostumados a levar.
Bem, saindo para caminhar na manhã de hoje comecei a lembrar da reunião que tive com o pessoal da Rede Humaniza SUS nessa semana. Um dia onde os editores se encontraram aqui em São Paulo para discutirem seus novos modos de se relacionar, dado que tudo indica que para o ano que vem esse grupo vai poder ser parcialmente remunerado pelo trabalho que faz. Ouvindo essas pessoas que atuam já a alguns anos, no caso de alguns, de modo voluntário no cuidado, acolhimento e gestão dessa rede falarem de sua paixão pelo SUS, pelos modos de fazer política, pelo jeito de continuamente se reencantar pelo trabalho que desenvolvem e, sobretudo, pelo jeito que pensam a saúde, fui ficando impactado por essas impressões... De pano de fundo, fui guardando uma vontade de usar esse efeito, o impacto das conversas, para pensar em como a modelagem de complexidade (o encanto do momento) estaria a serviço dessas coisas todas que ouvi...
E caminhando um pouco mais fui lembrando da importância que há na política de humanização para a função apoio (o tal do devir apoiador). Lendo alguns trechos da tese de doutorado do Gustavo Nunes, atual coordenador da PNH junto ao Ministério da Saúde, encontrei logo no começo, em seu resumo, um bom disparador para o pensamento:
"O apoio, tomado como uma função, inscrita em arranjos concretos que põe em relação sujeitos com diferentes desejos e interesses, com a missão de ativar objetos de investimento mais coletivos e de apoiar esses sujeitos na ampliação de sua capacidade de problematização, de invenção de problemas, de interferência com outros sujeitos e de transformação do mundo e de si, implica em uma tarefa
clínica-crítica-política."
A definição provocou pensar um pouco mais na relação que isso tem com o sistema Drupal, que usamos para o desenvolvimento da rede, que já está próxima de seus quase 4 anos de existência. Acontece que o Drupal é um sistema criado com uma arquitetura muito interessante enquanto modelo de software, permitindo criarmos processos que seriam muito mais difíceis em outros tipos de programa. Vou tentar resumir aqui essas características que podem servir como disparadores de ideias para futuros desenvolvimentos:
Foi então que me ocorreu a ideia de modelar o apoio como um node do Drupal, onde poderíamos associar funções, eventos e utilizar o gerenciador de Triggers para, conforme os tipos de eventos associados a função apoio, conectar pessoas, criar links, fazer pontes, estabelecer novas relações e fomentar a ativação desses objetos de investimento mais coletivos, como bem diz a descrição acima da funçaõ.
Brincando com isso, comecei a esboçar um infográfico para dar um pouco mais de corpo na ideia:
A ideia da brincadeira seria:
Agora, é avançar na modelagem, experimentação em DEV e analisar possíveis efeitos. vqv! :-)
Bem, saindo para caminhar na manhã de hoje comecei a lembrar da reunião que tive com o pessoal da Rede Humaniza SUS nessa semana. Um dia onde os editores se encontraram aqui em São Paulo para discutirem seus novos modos de se relacionar, dado que tudo indica que para o ano que vem esse grupo vai poder ser parcialmente remunerado pelo trabalho que faz. Ouvindo essas pessoas que atuam já a alguns anos, no caso de alguns, de modo voluntário no cuidado, acolhimento e gestão dessa rede falarem de sua paixão pelo SUS, pelos modos de fazer política, pelo jeito de continuamente se reencantar pelo trabalho que desenvolvem e, sobretudo, pelo jeito que pensam a saúde, fui ficando impactado por essas impressões... De pano de fundo, fui guardando uma vontade de usar esse efeito, o impacto das conversas, para pensar em como a modelagem de complexidade (o encanto do momento) estaria a serviço dessas coisas todas que ouvi...
E caminhando um pouco mais fui lembrando da importância que há na política de humanização para a função apoio (o tal do devir apoiador). Lendo alguns trechos da tese de doutorado do Gustavo Nunes, atual coordenador da PNH junto ao Ministério da Saúde, encontrei logo no começo, em seu resumo, um bom disparador para o pensamento:
"O apoio, tomado como uma função, inscrita em arranjos concretos que põe em relação sujeitos com diferentes desejos e interesses, com a missão de ativar objetos de investimento mais coletivos e de apoiar esses sujeitos na ampliação de sua capacidade de problematização, de invenção de problemas, de interferência com outros sujeitos e de transformação do mundo e de si, implica em uma tarefa
clínica-crítica-política."
A definição provocou pensar um pouco mais na relação que isso tem com o sistema Drupal, que usamos para o desenvolvimento da rede, que já está próxima de seus quase 4 anos de existência. Acontece que o Drupal é um sistema criado com uma arquitetura muito interessante enquanto modelo de software, permitindo criarmos processos que seriam muito mais difíceis em outros tipos de programa. Vou tentar resumir aqui essas características que podem servir como disparadores de ideias para futuros desenvolvimentos:
- qualquer elemento no Drupal pode ser modelado como um node, ou seja, pode virar uma espécie de nó do sistema, onde podemos conectar funções, ganchos (os famosos hooks do Drupal), eventos e fluxos específicos de execução (organizados em etapas, por exemplo);
- quando qualquer node é acessado, o Drupal usa um sistema chamado bootstrap, que pergunta a todos os módulos instalados se eles possuem algum hook relacionado a algum evento relacionado ao tipo do node. Por exemplo, quando um nó é visualizado, o Drupal percorre todos os módulos para verificar se eles possuem algum hook que irá afetar a visualização daquele tipo de node, seja modificanto visualmente, seja incorporando alguma nova funcionalidade;
- quando qualquer evento no Drupal acontece, ele permite identificarmos essa evento e relacionarmos alguma ação específica, naquilo que o Drupal chama de sistema de Triggers. Isso, por si só, é algo realmente muito interessante, permitindo que possamos modelar uma série enorme de funcionalidades quando os usuários do ambiente fizerem alguma ação que possa ter desdobramentos disparadores... Tá começando a ficar quente aqui!
Foi então que me ocorreu a ideia de modelar o apoio como um node do Drupal, onde poderíamos associar funções, eventos e utilizar o gerenciador de Triggers para, conforme os tipos de eventos associados a função apoio, conectar pessoas, criar links, fazer pontes, estabelecer novas relações e fomentar a ativação desses objetos de investimento mais coletivos, como bem diz a descrição acima da funçaõ.
Brincando com isso, comecei a esboçar um infográfico para dar um pouco mais de corpo na ideia:
A ideia da brincadeira seria:
- modelar um node em drupal para a função, permitindo que pessoas pudessem se inscrever oferecendo apoio em determinados tipos (categorias fixas e emergentes), por região, pelo karma que possuem na rede, pela disponibilidade de tempo online;
- permitir que pessoas que queiram solicitar apoio, pudessem também se inscrever nesse node, usando também critérios similares de seleção;
- assim que um node apoio fosse criado, algoritmos analisariam os filtros selecionados e disparariam um evento, se assim houver, de criação de um novo node chamado conversa, agrupando essas pessoas que queiram oferecer e solicitar apoio. Esse node de conversa poderia servir como uma região em tempo síncrono e não-síncrono, onde essas pessoas formariam uma espécie de grupo temporário de apoio naquela situação, naquele contexto, naquele tempo em que isso fizer sentido.
Agora, é avançar na modelagem, experimentação em DEV e analisar possíveis efeitos. vqv! :-)
domingo, 9 de outubro de 2011
Fatores que influenciam a ação coletiva
Depois de alguns bons anos vivendo e atuando por dentro de coletivos, redes auto-organizadas e projetos de políticas públicas relacionados a modos de replicar esses processos e vivências, venho nos últimos anos me questionando mais e refletindo quais são os principais fatores que de fato influenciam esse tipo de experiência.
Não acredito que redes livres, processos de produção coletiva e auto-organização simplesmente aconteçam, sem que mais se possa pensar do como, por quê e de que modo acontecem. Acredito que há fatores que podem facilitar e tantos outros que podem dificultar experiências nesse sentido. Digo pelas próprias que já vivenciei e vivencio: não há nada trivial nelas, sendo que muitas simplesmente ocorrem devido a uma complexa composição de elementos que deram condições para que algo ali surgisse e, sobretudo, pudesse se manter.
Também não acredito que entender esses fatores seja garantia de que eles possam ser replicados em ações posteriores, levando a uma reprodução dos mesmos resultados. Definitivamente, não. Esse seria um modo de pensar no ser humano como mais um servomecanismo atuando a partir de alguma teoria de controle que pudesse ser documentada, organizada, arrumada e replicada em alguma instância. Não, não somos assim.
Mas.... Apesar de sermos únicos e singulares, atuamos a partir de condições muitas vezes semelhantes e acabamos por criar em nossa linguagem, cultura e modo de viver determinados padrões que acabam por ser replicados e fundarem modos de subjetividade bastante visíveis, reconhecíveis em várias pessoas. Alguns chamam isso de mitos, outros de tendências, outros de arquétipos, outros simplesmente não acreditam que eles possam existir. Eu me considero um dos que acredita, por uma série de experiências, evidências e vivências que empiricamente acabam por me fortalecer nessa opinião.
Acontece que o desenvolvimento da tecnologia, da ciência, da Internet e, sobretudo, das experiências de auto-organização e produção de coletivos têm fornecido cada vez mais possibilidades de estudarmos esses padrões, buscando entender que condições nos auxiliam, nos expandem, facilitam nosso encontro com o outro, facilitam a promoção do contato, da possibilidade de entendimento, de construção de relações mais flexíveis, móveis, adaptáveis e fluídas. Também nos possibilitam entender que condições travam, emperram, criam barreiras e ampliam abismos culturais que levam a mais desentendimento, falta de sentido e perspectiva, seja ela qual for.
Há condições que, quando compreendidas, visualizadas e refletidas, podem ser incorporadas em nossos modos de atuar e que podem facilitar um tanto o modo como agimos e operamos nas relações que estabelecemos. Entender como isso opera tem sido uma busca importante pela qual tenho me proposto a caminhar nos últimos tempos. O modo que venho fazendo isso é ampliar o repertório de metodologias de análise e estudo que conheço, criando condições mais favoráveis para que eu possa descrever e conversar sobre o tipo de olhar que venho propondo a estabelecer. Nada fácil, nada trivial, mas um caminho repleto de sentidos, forças e conhecimento que tem se tornado, além de divertido, encantador.
Uma das coisas que me deparei nesse final de semana e que me motivou a relatar por aqui foi um livro que encontrei quase sem querer na biblioteca do Senac Sorocaba: Trabalho em parceria - ação coletiva, bens comuns e múltiplos métodos. O livro é conduzido por Elinor Ostrom, primeira mulher prêmio Nobel em Economia em 2009 por seu trabalho com análise de ações coletivas e bens comuns.
O livro me chamou atenção logo de cara por juntar teorias tradicionais das Ciências Socias, com meta-análise e modelos de ação coletiva baseados em teoria dos agentes, algo que estudei no mestrado em engenharia da computação a alguns anos atrás e que venho retomando de alguns meses pra cá.
Achei ainda mais interessante pela fase em que me encontro, fazendo doutorado nas Ciências da Informação, uma ciência social aplicada, tendo vindo de anos de experiências, vivências e estudos relacionados as exatas, engenharias e ciências da computação. O multidisciplinar acaba fazendo mais sentido, como algo que em prática apenas junta pontos que facilitam o modo de compreender fenômenos complexos.
O livro fala de várias metodologias que ela e outros pesquisadores têm utilizado para estudar fatores que influenciam a ação coletiva, seja no compartilhamento de recursos naturais por comunidades, seja no uso de recursos financeiros em mercados altamente competitivos. Algo muito próximo a teoria dos jogos, mais com enfoque mais descentralizado dos estudos dos fatores de competição que levam a algum tipo de sucesso em jogos comerciais. O foco é outro.
Lá pelas tantas, ela salta com 3 suposições centrais que parecem fundamentar a decisão dos seres humanos em ambientes dilemáticos (pág. 289):
Não acredito que redes livres, processos de produção coletiva e auto-organização simplesmente aconteçam, sem que mais se possa pensar do como, por quê e de que modo acontecem. Acredito que há fatores que podem facilitar e tantos outros que podem dificultar experiências nesse sentido. Digo pelas próprias que já vivenciei e vivencio: não há nada trivial nelas, sendo que muitas simplesmente ocorrem devido a uma complexa composição de elementos que deram condições para que algo ali surgisse e, sobretudo, pudesse se manter.
Também não acredito que entender esses fatores seja garantia de que eles possam ser replicados em ações posteriores, levando a uma reprodução dos mesmos resultados. Definitivamente, não. Esse seria um modo de pensar no ser humano como mais um servomecanismo atuando a partir de alguma teoria de controle que pudesse ser documentada, organizada, arrumada e replicada em alguma instância. Não, não somos assim.
Mas.... Apesar de sermos únicos e singulares, atuamos a partir de condições muitas vezes semelhantes e acabamos por criar em nossa linguagem, cultura e modo de viver determinados padrões que acabam por ser replicados e fundarem modos de subjetividade bastante visíveis, reconhecíveis em várias pessoas. Alguns chamam isso de mitos, outros de tendências, outros de arquétipos, outros simplesmente não acreditam que eles possam existir. Eu me considero um dos que acredita, por uma série de experiências, evidências e vivências que empiricamente acabam por me fortalecer nessa opinião.
Acontece que o desenvolvimento da tecnologia, da ciência, da Internet e, sobretudo, das experiências de auto-organização e produção de coletivos têm fornecido cada vez mais possibilidades de estudarmos esses padrões, buscando entender que condições nos auxiliam, nos expandem, facilitam nosso encontro com o outro, facilitam a promoção do contato, da possibilidade de entendimento, de construção de relações mais flexíveis, móveis, adaptáveis e fluídas. Também nos possibilitam entender que condições travam, emperram, criam barreiras e ampliam abismos culturais que levam a mais desentendimento, falta de sentido e perspectiva, seja ela qual for.
Há condições que, quando compreendidas, visualizadas e refletidas, podem ser incorporadas em nossos modos de atuar e que podem facilitar um tanto o modo como agimos e operamos nas relações que estabelecemos. Entender como isso opera tem sido uma busca importante pela qual tenho me proposto a caminhar nos últimos tempos. O modo que venho fazendo isso é ampliar o repertório de metodologias de análise e estudo que conheço, criando condições mais favoráveis para que eu possa descrever e conversar sobre o tipo de olhar que venho propondo a estabelecer. Nada fácil, nada trivial, mas um caminho repleto de sentidos, forças e conhecimento que tem se tornado, além de divertido, encantador.
Uma das coisas que me deparei nesse final de semana e que me motivou a relatar por aqui foi um livro que encontrei quase sem querer na biblioteca do Senac Sorocaba: Trabalho em parceria - ação coletiva, bens comuns e múltiplos métodos. O livro é conduzido por Elinor Ostrom, primeira mulher prêmio Nobel em Economia em 2009 por seu trabalho com análise de ações coletivas e bens comuns.
O livro me chamou atenção logo de cara por juntar teorias tradicionais das Ciências Socias, com meta-análise e modelos de ação coletiva baseados em teoria dos agentes, algo que estudei no mestrado em engenharia da computação a alguns anos atrás e que venho retomando de alguns meses pra cá.
Achei ainda mais interessante pela fase em que me encontro, fazendo doutorado nas Ciências da Informação, uma ciência social aplicada, tendo vindo de anos de experiências, vivências e estudos relacionados as exatas, engenharias e ciências da computação. O multidisciplinar acaba fazendo mais sentido, como algo que em prática apenas junta pontos que facilitam o modo de compreender fenômenos complexos.
O livro fala de várias metodologias que ela e outros pesquisadores têm utilizado para estudar fatores que influenciam a ação coletiva, seja no compartilhamento de recursos naturais por comunidades, seja no uso de recursos financeiros em mercados altamente competitivos. Algo muito próximo a teoria dos jogos, mais com enfoque mais descentralizado dos estudos dos fatores de competição que levam a algum tipo de sucesso em jogos comerciais. O foco é outro.
Lá pelas tantas, ela salta com 3 suposições centrais que parecem fundamentar a decisão dos seres humanos em ambientes dilemáticos (pág. 289):
- as pessoas têm informações incompletas sobre a estrutura da situação na qual interagem uns com os outros, mas podem adquirir informações mais completas e confiáveis com o tempo, especificamente em situações que são frequentemente repetidas e geram um feedback confiável para os envolvidos;
- as pessoas têm preferências relacionadas para atingir benefícios líquidos para si mesmos, mas esses são combinados em muitas situações com outras normas e preferências relacionadas aos outros sobre ações apropriadas e resultados que afetam suas decisões;
- as pessoas usam uma variedade de heurísticas na tomada de decisões diárias que podem levar à maximização de benefícios líquidos (para si e para os outros) em algumas situações competitivas, mas são altamente cooperativos em outras situações.
3 pontos interessantes e que abrem boas conversas.
3 pontos que falam a partir de uma perspectiva de como as redes se organizam, considerando que são estruturas de compartilhamento e produção de relações, influências e modos de ser.
3 pontos que podem ajudar a explicar uma série de experiências e como orientam determinadas ações coletivas.
Mas, o que mais chamou atenção não foram os fatores em específico, mas sim o fato de que esses fatores não são externos a esses pesquisadores, mas eles simplesmente começaram a "enxergar" por dentro do pensamento econômico que há outros elementos fundamentais para se considerar na modelagem de sistemas que ultrapassam a ideia de competição como fator central. Essa não é uma pequena passagem. É algo bastante avançado, considerando o local de onde vem, o modo como surge e a forma que pode pautar o desenvolvimento de pesquisas, ciência e inovações importantes em modos de se pensar arranjos organizacionais possíveis.
É criando e experimentando com esse tipo de modelagem, por mais que saibamos que são condições sempre limitadas, que expandimos os horizontes do modo antigo de pensar e criamos novos parâmetros por onde construir novos modos de fazer política, ciência, filosofia a partir de outros parâmetros éticos.
Há um embrião de algo maior por aí que vale a pena ser observado com atenção: é na junção da ética da colaboração, um modo "espiritual" de relação e a tecnologia do nosso tempo que temos mais condições de dar contorno a novas ontologias que vão pautar a forma como vemos e entendemos o mundo a nossa volta.
quarta-feira, 8 de junho de 2011
da estabilidade em um sistema social
E, mais uma vez, Maturana dá o tom, simples, preciso e direto no ponto:
"A estabilidade de um sistema social depende de que não se interfira com seu caráter conservador. Por isso, em todo sistema social humano, a busca pela estabilidade leva:
"A estabilidade de um sistema social depende de que não se interfira com seu caráter conservador. Por isso, em todo sistema social humano, a busca pela estabilidade leva:
- à estabilidade pela consciência social, ao ampliar as instâncias reflexivas que permitem a cada membro uma conduta social que envolve como legítima a presença do outro como um igual; ou
- à estabilidade na rigidez de condutas, por um lado, mediante a restrição das circunstâncias reflexivas, ao limitar os encontros fora do sistema social e reduzir a conversação e a crítica, e, por outro lado, mediante a negação do amor, ao substituir a ética (a aceitação do outro) pela hierarquia e a moralidade (a imposição de normas de conduta), ao institucionalizar relações contingentes de subordinação humana."
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