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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Conversando sobre Design colaborativo e dispositivos móveis como meios de intervenção social no I Congresso de Extensão Universitária da Unifesp

Desde os tempos de estudante universitário que escuto falar que uma universidade de qualidade, pública e gratuita deveria ser feita de três eixos fundamentais: pesquisa, ensino e extensão. A pesquisa e o ensino são elementos que têm me sido bastante próximos nos últimos, mas a extensão universitária era algo que de fato nunca tinha me colocado para pensar sobre e analisar seus efeitos, impactos e possíveis modos de trabalho quando envolve de fato professores, alunos, trabalhadores em geral e a própria comunidade onde o objeto de extensão surge como desenho e contorno de prática.

Ocorre que desde o começo desse ano estamos numa boa parceria com o núcleo Educação, Tecnologia e Cultura da Universidade Federal de São Carlos no contexto do projeto +Telecentros. Uma preocupação central desse espaço é trabalhar a questão da extensão como um elemento de articulação entre o que é produzido na universidade e o que é experenciado na relação com a sociedade. Questões de fundo interessantes, mas, sobretudo, modos de envolver alunos de graduação e pós-graduação que fazem muito sentido quando pensamos que a Universidade poderia ser um amplo de espaço de debate e experiência de outros modos de produzir uma sociedade.

O envolvimento do aluno é algo que tem me surpreendido. O impacto que as reuniões trazem, as reflexões que eles se fazem entre o que rola na sala de aula e o que vivenciam no ambiente de implementação de um projeto em uma política pública federal, os efeitos que isso vai acarretando em seu modo de entender seu papel, de como questionar esse mesmo papel.

A convite dos professores de lá, preparamos um material para apresentar no I Congresso de Extensão Universitária promovido pela Unifesp aqui em São Paulo. Fui eu e Felipe Cabral apresentarmos o trabalho que estamos desenvolvendo na área de Web para o projeto na parte da manhã, Felipe e Gus Gannan apresentando a parte de dispositivos móveis na período da tarde.

Conversa boa por lá. O ponto em que nos posicionamos era olharmos para a forma como produzimos um site, seja ele uma rede, um ambiente de divulgação de informação, agregação ou o uso que quisermos dar, como um meio fundamental de discutirmos as próprias apostas de como entendemos que um projeto deve funcionar, como ele deve operar e que impactos a organização da informação desse projeto causa na maneira como entendemos o próprio projeto. Produzir um site é menos uma técnica ou o desenvolvimento de um produto, sendo muito mais, neste caso, uma oportunidade de abrirmos diálogos que nos organizem e facilitem refletirmos sobre o que fazemos, como fazemos e como nos vemos uns aos outros.  A conversa impactou algumas pessoas, trazendo questões interessantes sobre como articulamos esse trabalho em relação aos próprios caminhos de pesquisa da Universidade, suas formas de aprofundamento, documentação e efeitos em toda a comunidade acadêmica. Enfim, novos sentidos ganhando corpo para nós ali, em ato e presença.

Outro ponto forte da conversa, que nem sempre é um ponto trivial por aí afora, foi debatermos que não acreditamos numa cisão entre o que chamamos tradicionalmente de "equipe de tecnologia" e aqueles que operam os sentidos e caminhos de um projeto. Essa cisão tem a tendência de alienar investimentos emocionais e técnicos que poderiam estar a favor de uma melhor compreensão de como nos comunicamos e de como operamos enquanto grupo no espaço e na posição de gerir um projeto de forma coletiva. Conversa forte, abrindo espaços para questionarmos vários pontos de tensão que brotam em nossas relações de dia-a-dia: hierarquia, posições de poder, circulação de fluxos de informação e por aí vai.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

O valor e a escala de crescimento das redes: leis de Metcalfe e Reed

Lendo a revista Wired essa semana, na entrevista de Marc Andreensen, ele trouxe a tona duas "leis" que tentam dar conta de projetar o valor das redes e o modo como elas se organizam por comunidades. O ponto em comum dessas duas formas de olhar para redes é que elas falam de fenômenos ligados ao crescimento delas, ou seja, quando mais nós e mais links começam a fazer parte de uma estrutura algo ocorre.

Esse algo tem a ver com o modo de valorar redes e o modo de enxergar a formação de subgrupos.

A lei de Metcalfe

Metcalfe é um dos pioneiros da Internet, tendo sido o inventor do padrão Ethernet de comunicação de redes locais.
A sua ideia, extraído da Wikipedia, diz o seguinte:

"O valor de um sistema de comunicação cresce na razão do quadrado do número de usuários do sistema."



\frac{n(n-1)}{2}

Bem, isso pode significar muitas coisas sob vários pontos de vista. Porém, basicamente, pra mim significa que quanto mais gente conectada, quanto mais dispositivos articulados, maior o valor de uma estrutura de rede. Além disso, esse valor cresce no quadro do número de nós em articulação. O quadrado aqui tem um efeito de criar um escalonamento que é diferente do crescimento linear, mostrando que mais nós representa mais possibilidades de combinação que crescem proporcionalmente ao quadrado.

As redes geram valor. Isso é algo difícil de discordar. Geram troca de informação, geram articulação de pessoas, geram possibilidade de produção de conhecimento, geram capacidade de novos caminhos de conversa, geram muitos modos de combinação entre pessoas e dispositivos técnicos que têm servido de base para o que temos conhecido como as melhores e mais interessantes inovações que temos produzido nos últimos anos.

Isso vale e pode ser aplicado em muitos casos. Vale para projetos, para modos de articulação social, para modos de ativismo, para modos de relacionamento em geral. Geramos valor em nossas articulações. Como entendemos o que é valor, aí, vai depender do teu olhar, daquilo que lhe convoca, do que lhe chama atenção.

Valor nem sempre é $, nem sempre é poder de dominação. Qual a unidade de valor que poderíamos utilizar aqui? Reais, amigos, articulação, influência, apoio, colaboração, ajuda? Que mais?

O fato que me interessa aqui: redes geram valores e esse valor depende unicamente do contexto onde a rede opera como modo de organização da relação entre pessoas.


A lei de Reed

Já a lei de Reed diz do número possível de subgrupos que podem ser formados dentro de uma rede.  Reed, também um dos pioneiros da Internet, trabalhou na criação do TCP/IP e foi o designer do protocolo UDP.

Segundo ele, o número de subgrupos que surgem dentro de uma rede também depende do número de nós presentes na rede a uma escala que evolui exponencialmente com o número de nós: 2N − N − 1.


Pra mim, isso tem uma perspectiva bem interessante quando conseguimos observar que quanto mais gente atuando numa rede maior é a tendência dessas pessoas se organizarem em subgrupos que tenham e definam focos mais específicos de ação. Ao que tudo indica, parece esse um fenômeno bastante peculiar das redes sociais e do modo de organização que nos pautamos socialmente quando atuamos nessas redes.

Essas duas leis podem ser utilizadas de modo articulado para projetarmos análises, projetos, escalabilidade e funcionalidades em sistemas colaborativos. Estou falando de modos de fazer design de redes. Conhecer e estudar algumas das possibilidades de como as redes evoluem no tempo pode nos deixar mais atentos, mais conectados e ligados em condições de contorno que podem facilitar a conversa, facilitar o fluxo e liberar energia criativa para outros tantos meios de recombinação de imaginários.



segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

6 princípios de organização das redes complexas

Princípios de organização das redes complexas:


  1. scale-free: many small nodes held together by a few hubs;
  2. small-world: short paths between any two nodes;
  3. evolution: hubs emerge through growth and preferential attachment;
  4. competition: nodes with high fitness become hubs
  5. robustness: resilience against random errors, fragility to attacks;
  6. communities: groups form a hierarchical structure.
 Direto da Royal Society Web Science.

 Tá, e aí? Sem dúvida, são formas, ferramentas e técnicas de caracterizar sistemas.

 O mais interessante são as pistas que essas ferramentas fornecem para entender onde podemos intervir, criam uma linguagem minimamente comum para podermos conversar sobre o que ocorre e explicitam dimensões da interatividade humana que ultrapassam nossa capacidade de previsão e controle.

E como lidar com isso?
E o que isso tem a ver com nosso tipo de ação?
E o que isso tem a ver com a maneira como podemos intervir nas organizações que não nos interessam?

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Metadesign e tecnologias como domínios relacionais

Arquiteturas de participação, design colaborativo, estruturas de relação, enfim, vários termos que tenho lido e pesquisado em relação a um tema que me chama e convida a atenção já faz algum tempo.

A percepção que venho tendo, baseada em uma série de experiências pessoais, profissionais e reflexões durante uma série de experimentos em projetos é que as tecnologias, a Internet, os processos de formação, as maneiras de se pensar e construir redes ajudam, mas ainda não tocam no ponto X que sinto que precisa ser tocado. 

Obviamente, to falando aqui de algo que me encanta, que me convida a agir: como pensar em processos que possibilitem ampliação da autonomia, da capacidade de auto-análise e reflexão, processos que posicionem as questões centrais de seu modo de operação em como nos produzimos sujeitos mais livres, com maiores possibilidades de nos constituirmos como bem quisermos.

Como trabalhar isso? Como posicionar uma ação, um projeto de modo a abordar essas questões? Como construir estratégias de interação que sirvam como ativadoras desse tipo de questão?

No universo em que vivo, onde Internet, inclusão digital, redes sociais, apropriação de tecnologia, software livre e tantos outros conceitos, aparentemente deveria ser mais fácil encontrar meios de abordar isso.

Mas, nada é trivial nessa questão. E, na real, muita confusão surge misturado com todos esses conceitos e não é à toa. A maioria dos projetos e ações usa conceitos interessantes, aparentemente libertadores, mas enfocam maneiras de pensar, de agir que apenas se propõe a replicar a lógica de um mercado, focando em demandas de consumo, replicação de padrões econômicos, administrativos e políticos que apenas visam manter a lógica de disseminação e proliferação do capital intactas.

Nenhum problema em manter as relações do capital, mas a questão que me interessa é como ampliar as possibilidades de relacionamento entre nós, para além de uma relação mediada pela grana e pela lógica de competição (chame como quiser, reputação, branding, meritocracia, etc) em que objetiva acumular mais grana.


Humberto Maturana, o biólogo chileno, deu algumas excelentes dicas de como olhar para essas questões a partir de sua maneira de pensar a biologia, o que nos constitui humanos e como podemos pensar novas maneiras de entender tecnologia e processos de design de tecnologia.

Chamo a atenção para 3 distinções importantes, que podem mudar muita coisa em nosso fazer cotidiano:
  1. tecnologias podem ser vistas como domínios operacionais, por onde projetamos e podemos executar uma série de processos organizados de forma coerente com algum tipo de visão. Podem ser vistas como meios de nos relacionarmos, como propostas de domínios de relação entre nós, humanos;
  2. a forma como nos relacionamos envolve o entrelaçamento entre nossas emoções e a forma como nos expressamos pela linguagem. A razão surge como derivação disso, sendo que ela é constantemente modulada pelas nossas emoções. Usamos argumentos lógicos como uma forma de justificarmos, muitas das vezes, esse tipo específico de entrelaçamento que ocorre em nosso viver cotidiano;
  3. a cultura é conservada e se manifesta como produto de nossas redes de conversações, através de processos educacionais conservados ao longo de gerações. 
Aqui surge o ponto-chave de Matuana:

Se as redes de conversação são pautadas pelas nossas emoções, o uso de novas tecnologias, de novos programas de formação, de novas propostas de relação não tocará o ponto que precisa tocar, ou seja, não terá condições de atuar efetivamente como um processo profundo de transformação da cultura se não tocar as nossas emoções.

E tocar as emoções, ampliar nosso potencial de olhar para elas e perceber como se constituem em nosso viver é um ponto fundamental da própria construção de autonomia.

Sem dúvida, é possível fazer isso em processos de metadesign que se proponham a tocar esses pontos, que se propanham sobretudo a:
  1. desenhar os domínios relacionais em que iremos operar;
  2. permitir a discussão sobre aquilo que queremos conservar como grupo e aquilo que estamos prontos para abrirmos;
  3. usarmos a rede como espaço de interação e reflexão contínua sobre a coerência de nossas operações, sobre espaço de validação coletiva e, sobretudo, como espaço que reflita, em suas coerências operacionais, a maneira como nos colocamos em relação.
Se isso será mais ou menos produtivo, não creio que seja a questão.
Se isso poderá ser avaliado com as métricas que regulam competição e acúmulo de capital, acho pouco provável.

Se isso poderá criar ambientes mais interessantes, mais saudáveis, mais flexíveis, aí sim, tenho cá comigo que o trem segue nessa direção.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Bilhões de dados e um padrão

Fala de Nicholas King, secretário-executivo do Mecanismo Global de Informação em Biodiversidade em nota no site da Fapesp:

"Agência FAPESP – Quais são os principais desafios relacionados ao compartilhamento de dados sobre biodiversidade?
Nicholas King – Há um certo número de desafios para se compartilhar informações e conseguir uma interoperabilidade entre os bancos de dados. Eu diria que eles estão concentrados em três vertentes fundamentais da noção de compartilhamento: os dados propriamente ditos, o sistema e as pessoas. Todos são necessários, mas nenhum é suficiente.

Agência FAPESP – Quais são as dificuldades relacionadas aos dados?
King – Há conjuntos de dados ao redor de todo o mundo, com características muito distintas entre eles. O único ponto em comum é que nunca são captados com a intenção de serem compartilhados. Por isso, são capturados com diferentes formatos e técnicas. Muitas vezes em diferentes línguas. São obtidos, por vezes, sob diferentes sistemas de gerenciamento. Variam também os sistemas métricos – os registros podem ser feitos em polegadas e pés ou no sistema métrico decimal. Há também sistemas de georreferenciamento muito distintos. A linguagem muda, com diferentes nomes usados para diferentes lugares – eventualmente até mesmo nomes distintos para um mesmo país. Não podemos apenas pegar esses dados, colocá-los juntos e operá-los. Eles são totalmente incompatíveis. Eles simplesmente não se combinam.

 É a tal da tríade se manifestando mais uma vez, agora de outra forma.
Concordo totalmente e a ideia do que temos feito nos últimos anos, pesquisando sobre ativação de redes, metadados e processos de promoção de colaboração em rede tem a ver com isso, sem dúvida.

Acredito, cada vez, que propostas de projetos que considerem apenas um ou dois dos aspectos acima tem grandes chances de darem errado na vertente em que acabam deixando passar. Fundamental considerarmos em nossos processos de metadesign, de arranjos organizacionais de projetos, de pesquisas, de militância e ativismo essas 3 perspectivas:

  1. os dados: sem possibilidade de interoperabilidade, sem dados abertos, indexáveis de forma pública, o que criarmos é como uma espécie de caixa-preta. Estamos desenvolvendo silos de informação em várias áreas, impedindo em termos técnicos possibilidades de remixagem, geração de novas possibilidades de agregação, produzindo novas camadas operativas de visualização e produção de sentido do que estamos fazendo. Para isso, padrões de metadados, arquitetura pública de conteúdos (URIs), namespaces, transformações em XMLSchemas, enfim, são coisas fundamentais.
  2. os sistemas: sistemas de informação que suportem essa maneira de utilizarmos os dados e permitam ampla flexibilidade para desenhos e propostas de arquiteturas múltiplas de participação são fundamentais.
  3. as pessoas: as formas que se apropriam, as formas que constroem e promovem espaços coletivos de tomada de decisão, de interação são fundamentais. Apesar de parecer óbvio, não são questões nada triviais. Como tocar reuniões? Como construir acordos? Como documentar processos? Como tornar isso público? São muitas questões em aberto, com n possibilidades de soluções que só fazem sentido quando construídas pelo próprio grupo em questão. Mas, conhecer ofertas e atuar a partir delas é, sem dúvida, um bom avanço nas melhores práticas que podemos descobrir aí.

domingo, 14 de novembro de 2010

Sistemas de informações e relações: metadesign dissolvendo fronteiras e ativando redes

A idéia do que facilita e promove colaboração em grupo de pessoas tem sido um tema que tem me interessado e direcionado minha atenção nos últimos meses com muita intensidade. Várias leituras tem trazido isso a tona, boas conversas com amigos, companheiros de trabalho e experimentações nos projetos têm fornecido pistas do que está por trás disso.

Sem dúvida, é uma questão seminal dos tempos em que vivemos. Se a explosão informacional é uma tendência irreversível, a construção de relações humanas mais saudáveis e colaborativas é o melhor tipo de filtro de relevância que podemos pensar em ativar em nossas comunidades. Dedicar tempo ao design das relações, ou melhor dizendo, ao metadesign de nossos processos de interação e trabalho é uma condição fundamental para que isso possa ser melhorado ao longo do tempo de existência de um grupo.

Parto do princípio de que "os sistemas interpessoais - grupos de estranhos, pares conjugais, famílias, relações psicoterapêuticas ou até internacionais etc. - podem ser encarados como circuitos de retroalimentação, dado que o comportamento de cada pessoa afeta e é afetado pelo comportamento de cada uma das outras pessoas." (do livro Pragmática da Comunicação Humana, pág. 28).

Considerando, portanto, que as relações constituem posições dentro de um sistema (gerente, marido, coordenador, facilitador, tutor, etc...) e que essas relações são reforçadas mutuamente quando na interação com outra pessoa que opera a partir do mesmo padrão de relação, assim surgem os circuitos de retroalimentação. Até aí, tudo isso tem sido falado e estudado desde o final da década 40, a partir da construção da cibernética e do estudo dos sistemas que operam a partir da ideia do feedback.

Mas, o que me chamou atenção fortemente nos últimos dias foi a pergunta que me coloquei: O que acontece quando um novo sistema de informação é inserido dentro de um grupo? O que ocorre com a dinâmica desse grupo? Como isso pode ser potencializado ou pode ser um problema para esse grupo em relação ao seu sistema de relações?

Um sistema de informação nada mais é do que um conjunto de regras lógicas de funcionamento escrito numa linguagem de programação por alguém ou um grupo de pessoas. Quem escreve o sistema tem uma concepção de padrão de interatividade que está buscando viabilizar pelo sistema. É aí que surge o primeiro ponto que vale a pena explicitar: que padrão de interação é esse? Será que não seria necessário um trabalho do ponto de vista das relações de um grupo de pessoas quando ele se depara com um novo sistema de informação no qual não está preparado para lidar? Como facilitar um grupo a se dar conta disto?

Um exemplo que pode ilustrar o que estou querendo pontuar. Imaginemos um grupo de pesquisa universitária, formado por seu orientador, seus orientandos, bolsistas, estagiários, etc. O grupo construiu uma dinâmica de trabalho, construiu posições e um sistema interpessoal que se reforça mutuamente ao longo dos processos de trabalho deste grupo.

De repente, o grupo passa a participar de um novo projeto que se propõe colaborativo. Um projeto onde o grupo tenha de sair de sua dinâmica atual de trabalho e tenha de interagir com grupos de fora, outros grupos que ainda não conhece em torno de uma proposta que deve ser construída coletivamente.

A colaboração, se levada a sério, passa a servir como uma política regulatória das relações. A colaboração esta muito mais atrelada a uma posição de uma relação que precisa dissolver fronteiras para poder ocorrer e se manifestar na sua potência. A colaboração não pode ser imposta, é construída a partir da política de como um grupo se vê e de como ele regula suas relações.

Até aí, ok. Mas, vamos seguir um pouco mais no exemplo. Então, o grupo se vê conectado com uma outra proposta política de relações, que objetivam se pautar pela colaboração. Para isso, o grupo é inserido em novos sistemas de informação (listas de email, blog coletivo, wiki, etc.).

Aqui vale destacar que algo ocorre e fica visível nessa conexão entre sistemas de informação e a política de relações de um grupo: se não há acoplamento na concepção dessas duas coisas, surge tensão, surge incômodo, pois o sistema de informação e a nova política de relações não se adapta a como o grupo funciona. Há dor, sofrimento, tensão. Uma certa perda de referências surge. O que funcionava tão bem antes, passa a não dar conta e ficamos em vão procurando culpados pela não-operância daquilo que vemos a nossa frente.

De fato, não há culpados, há relações que precisam ser revistas, posições que precisam ser reorganizadas, fluxos de comunicação que precisam ser reprojetados. Estamos falando aqui de uma nova política de relações que irá regular o sistema interpessoal que precisa surgir. Sem isso, o sistema corre o risco de colapsar, pois ele está cego para sua própria dinâmica.

Para fazer isso, o grupo de pessoas precisa dar um passo atrás e conseguir explicitar a política de relações que construiu até então. Passo extremamente difícil, árduo, penoso, pois vai na veia das zonas de conforto, status social e aquilo que imaginamos que nos trás estabilidade. Feito isso, surge a colaboração, surge o ver o outro como legítimo outro, surge a possibilidade de reprojetar relações e se reinventar como grupo. Sim, fronteiras precisam ser dissolvidas para que possamos de fato colaborar. 

Pensando do ponto de vista de um processo de ativação de redes, se o sistema se propõe a fazer esse trabalho, um salto qualitativo e quantitativo pode ser dado. As relações têm menos travas, menos bloqueios, produzir fluxos, operações, alinhamentos, conexões se tornam mais simples e mais suaves. Trabalho de uma vida, sem dúvida.

Mas, considerar que podemos fazer esse metadesign, esse processo de construção dessa política de relação explicitando o que de fato queremos nas duas dimensões que falei acima, é um passo importante no desenvolvimento de projetos em torno da idéia da colaboração e da inovação:
  • o metadesign dos sistemas de informação;
  • o metadesign dos sistemas interpessoais.
 Uma coisa pode ser gancho para a outra. Podemos começar um projeto por qualquer uma delas e criar níveis de entrelaçamento que possam adensar o trabalho, liberando o sistema de fronteiras e travas que lhe são inúteis e lhe impedem de conseguir aquilo que mais desejam como bem comum: a colaboração entre si.