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domingo, 4 de setembro de 2011

De grupo-assujeitado para grupo-sujeito: formação como projeto de intervenção

"Mais do que isso, se entendemos que um dos papéis de uma política pública de inclusão digital é facilitar a promoção de redes, é facilitar essa promoção a partir de uma perspectiva que entenda que uma rede só emerge livre quando seus membros se colocam não como um grupo-assujeitado, mas sim como um grupo-sujeito não submetido a regras externas, com poder de fala irruptiva em uma ação transgressora dos significantes sociais dominantes e das regras de
assujeitamento (Passos, 2007)."

"Vemos o espaço de telecentro como um espaço de relações, um espaço ocupado por papéis que vão ser exercidos e mutuamente realimentados: o monitor e os usuários. Formar, capacitar, no entendimento dessa visão, é criar um contexto, um espaço reflexivo que permita visualizar esses papéis apenas como transitoriedade momentânea do nosso fazer coletivo, é auxiliar a transpor esses papéis para um campo de escuta e conversa que se manifeste como possibilidade de aprendizagem
consciente em nosso cotidiano."

 ... e um pouco mais das reflexões que temos feito no exercício de documentação que fiz junto com a companheira Isis.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Analisando a formação de redes na ferramenta Fórum do Moodle

Sempre considerei o Moodle uma plataforma bastante dura, engessada e pouco sedutora para a promoção de um espaço de conversa online em relação a outras possibilidades, como o Drupal e Wordpress.

O fato é que tenho trabalho, nem tanto por opção mas por uma questão demanda do edital, com o Moodle na Rede de Formação do projeto Telecentros.BR. Tenho documentado por aqui alguns movimentos que temos feito de análise da formação de redes de conversas entre os monitores que estão participando desse processo. Já são mais de 1300 nesse momento e os primeiros estudos que comecei a fazer me mostraram algo que de fato eu pouco esperava: um uso muito intenso dos módulos de comunicação, acima de qualquer outra coisa que eu já tinha visto em um projeto como esse.

Continuando nessa pesquisa/estudo/experiência comecei ontem a noite a estudar como analisar a formação dessas redes entre os monitores a partir de suas conversas nos fóruns disponíveis pelos diversos tópicos do curso. O Gus havia me dado um toque de que estava ocorrendo um tipo de conversa interessante/intensa por ali, dado a percepção que ele estava tendo nos encontros de formação presencial com os monitores, pelos papos que estava ouvindo na reunião com as equipes de cada polo. Deu um tempo, resolvi investigar isso.

O fato é que o modo que o Moodle dificulta muito as coisas pela maneira com que ele guarda os dados na na sua tabela de fórum. A tabela onde conseguimos extrair as conversas é chamada de mdl_forum_posts, que organiza as mensagens em colunas chamadas: "discussion", "parent", "user", "created", "subject" e "message", entre outras que importam menos para o que queria fazer por aqui. A coluna discussion guarda o número de uma thread de conversas, ou seja, o número de um tópico qualquer criado dentro de um fórum. A coluna "parent" guarda o número do fórum onde ocorreu a conversa. A coluna user guarda o usuário que postou naquela discussão, repetindo a discussão e o usuário caso haja repetição de qualquer um deles. A coluna created guarda o timestamp (horário em formato Unix) de quando a postagem foi feita e as colunas subject e message guardam o título e o conteúdo da postagem.

A complicação é que, diferente das tabelas de mensagens online, não temos diretamente do Moodle uma listagem de relacione quem conversou diretamente com quem. Dado isso, montei um script em PHP que monta essa correlação de quem conversou com quem. A ideia básica desse script considerar que todo mundo que postou numa discussão conversou com todo mundo nessa discussão, formando um grupo que interage entre si a partir dessa discussão. Sem dúvida, podemos montar isso de outra forma, considerando o tempo de postagem ou outros critérios para como relacionar as pessoas. É algo que pretendo explorar a partir desse estudo inicial. O script lê os dados de um arquivo que contêm basicamente duas colunas: número da discussão e id do usuário que postou na discussão. Ele monta para cada discussão um array e depois faz uma combinação entre todos os usuários desse array, exibindo na tela para uso posterior.

Segue aqui o script:


function possibilities ($input) {
 
  for ($contador=0;$contador<=count($input);$contador++){
    $elementoatual = array_shift($input);
    foreach ($input AS $current) {
        if (!empty($input)) {
        printf("%d,%d
",$elementoatual,$current);
            }
        }       
    }
 }

    $fh=fopen('c:\xampp\htdocs\arquivos\forum.csv','r');
    $dados = array ();
   
    while (list($discussao,$pai,$usuario,$timestamp) = fgetcsv($fh,1024,',')){
       
        // cria um array temporário com as duas variáveis coletadas
        $arraytemp = array($discussao,$usuario);
       
        // acrescenta o array temporário num array que vai agregar todos os dados do arquivo.
        array_push($dados,$arraytemp);       
    }
   
    //indexa o array pela primeira dimensão, no caso, pelo campo da discussão
    sort($dados);
   
    $contador=0;      
    $discussaoux=9999999;
    $acumulaarray = array();
    foreach ($dados AS $dado){
   
        if ($dados[$contador][0]!=$discussao) {         
            $discussao=$dados[$contador][0];
            possibilities($acumulaarray);
            $acumulaarray = array();
        }    

        array_push($acumulaarray,$dados[$contador][1]);
        $contador++;

    }
   
    fclose($fh);
    ?>;
       

Só para ilustrar os primeiros utilizando esse script para montar um arquivo no formato Pajek, segue a primeira imagem da rede que gerei ontem a noite:





Alguns dados interessantes sobre ela, limpando loops e múltiplas conexões entre pares:
  • grau médio de conexão: 27,44
  • diâmetro da rede: 13 (maior distância entre dois pontos).
O próximo passo é começar a detalhar essa análise, buscando descobrir como o fórum tem sido apropriado pelos monitores, pelos tutores e equipes de polos, analisando as possíveis diferenças regionais que podem se desdobrar em diferentes estratégias de como cada polo tem utilizado/ocupado esse ambiente.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Tabelas do Moodle que facilitam analisar as formações de redes de conversação

Fiz um experimento por aqui de como analisar a formação de uma rede de conversação por dentro do Moodle, na semana passada.

Utilizei diretamente as tabelas do Moodle para poder extrair os dados necessários e brincar um pouco com isso. Acontece que o Moodle tem um esquema um pouco confuso para registrar esse envio e leitura em seu sistema de mensagens instantâneas. Ele cria duas tabelas para registrar as mensagens enviadas e as lidas e respondidas. Achei um link interessante que conta isso:

As mensagens do Moodle são organizadas em duas tabelas:

  • mdl_message – Tabela que registra as mensagens enviadas
  • mdl_message_read - Tabela que registra as mensagens lidas. Armazena o histórico das mensagens.

    Quando uma mensagem é enviada, é armazenada na tabela mdl_message. Quando o destinatário recebe, ou seja, visualiza  na tela, a mensagem é transferida para a tabela mdl_message_read. Na tabela    mdl_message  só ficam  as mensagens que ainda não foram lidas. Já a  tabela mdl_message_read  só ficam as mensagens que já foram lidas.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Experimentando a leitura de estratégias de conectividade

Fiz um post alguns dias atrás mostrando os primeiros movimentos da rede Telecentros.BR, tentando descrever um pouco do que tava ocorrendo por dentro do Moodle por onde tá rolando as principais ações atualmente.

No post, apontava 3 movimentos inicias que estavam mais evidentes quando comecei a analisar a base de dados do projeto:
  1. a formação de uma rede envolvendo a relação entre os polos regionais (tutores, supervisores e coordenadores) e os monitores de cada região;
  2. a formação de uma rede envolvendo os polos regionais;
  3. a formação de uma rede envolvendo os monitores.
Fiz uma pequena distinção entre esses três níveis de composição para evidenciar o que acredito ser um movimento/construção de uma estratégia de conectividade que mostra alguns indícios das primeiras características que estão ficando visíveis do que estamos fazendo em termos de projeto.
O fato é que disponibilizamos a ferramenta de conversação online do Moodle para os monitores e polos pudessem utilizar como um recurso de conversa por dentro da plataforma. O que quero descrever agora é como vejo que estão se apropriando desse recurso como um determinado tipo de estratégia de conectividade entre eles.

Antes de mais nada, é fundamental ter em mente que estamos falando de um projeto ainda em fase de implantação, com apenas 3 meses de contato direto com a ponta do programa. A forma como essa rede começa diz muito do discurso inicial, da proposta que está sendo estabelecida entre quem está trabalhando diretamente no projeto e quem está chegando com a expectativa de receber um curso à distância. Há uma certa proposta de relação que está colocada e, a partir dessa proposta, uma dinâmica e uma estrutura de rede começa a surgir delineando movimentos e dando algumas pistas de para onde esse projeto está indo.

A proposta de relação inicial do projeto é, resumidamente:
  1. oferecer um curso de 480 horas, dividido em dois módulos, sendo um de 80 horas e outro de 400 com foco específico no desenvolvimento de projetos dentro do Telecentro;
  2. formar grupos de 30 monitores com apoio de 1 tutor para criar um acompanhamento durante esse curso.
O convite a se relacionar, a partir do que está colocado acima, diz muito de uma forma de se fazer e produzir um curso à distância. Pode ser visto como estratégia de formação ou como um jeito de começar uma rede, como uma estrutura intermediária para estabelecimento de relações que pode ser derivada para outras formas de conversa, para outros convites de relação, para outras maneiras de atuar em rede. Parte grande da energia que temos colocado no projeto é acreditar nesse convite, entendendo que o que está começando é o início de um movimento, uma maneira de nos encontrarmos dentro da sala de aula para pensarmos vôos para outros lugares.

Utilizando indicadores de centralidade e diâmetro da rede, é possível descrever um pouco melhor como esse movimento tem acontecido dentro da plataforma Moodle. Coloco aqui embaixo uma tabela com os principais dados que coletei dos 3 movimentos iniciais de rede que mencionei acima:


Indicadores Polos+Monitores Polos Monitores
Densidade 0,028955 0,0671242 0,010443




Grau médio 61,2109745 40,5430464 15,7480106
Grau mais baixo 1 0 0
Grau mais alto 2049 766 380




Proximidade média 0,2847 0,2737 0,1646
Proximidade mais baixa 0,0019 0 0
Proximidade mais alta 0,4162 0,3952 0,2558




Intermediação média 0,0001 0 0
Intermediação mais baixa 0 0 0
Intermediação mais alta 0,0858 0,1521 0,0415




Distância média no maior cluster 3,69087 3,82219 4,17026
Maior distância entre dois vértices 10 11 11
Tabela dos dados absolutos



Variações Polos+Monitores Variação na rede só dos Polos (%) Variação na rede só dos Monitores (%)
Densidade 0,028955 131,82 -63,93
Grau médio 61,2109745 -33,77 -74,27
Grau mais baixo 1 -100,00 -100,00
Grau mais alto 2049 -62,62 -81,45
Proximidade média 0,2847 -3,86 -42,18
Proximidade mais baixa 0,0019 -100,00 -100,00
Proximidade mais alta 0,4162 -5,05 -38,54
Intermediação média 0,0001 -100,00 -100,00
Intermediação mais baixa 0 0,00 0,00
Intermediação mais alta 0,0858 77,27 -51,63
Distância média no maior cluster 3,69087 3,56 12,99
Maior distância entre dois vértices 10 10,00 10,00
Tabela das variações

Há muitas possibilidades de leitura desses dados e a ideia é experimentar um pouco por aqui aquilo que me faz sentido, os movimentos que percebo e como acredito que esses instrumentos auxiliam a ler sistemas mais complexos para além daqueles que estamos acostumados no dia-a-dia. Algumas interpretações:
  1. a rede formada pelos polos é 131,82% mais densa do que a rede formada apenas pelos polos+monitores. Os polos vêm se encontrando de forma sistemática desde junho de 2010, para produzirem juntos os conteúdos, as diretrizes e os alinhamentos necessários para a construção dessa formação. O fato de sua densidade de conexões apresentar esse nível indica uma proximidade muito maior entre polos do que entre os monitores entre si e com os polos. Quando vemos a rede de monitores, a densidade cai -63,93%, mostrando o quanto dispersos se tornam os monitores entre si quando os polos saem da relação nesse momento. Os monitores estão espalhados por todo o Brasil e estão começando a formar grupo nessa conexão com o Moodle. Isso leva tempo e depende muito da aposta de relação que a formação fizer para conectar monitores de diferentes regiões, depende da vontade de conversa, da vontade de encontro que esse processo todo gerar e criar caminhos para ocorrer. Nesse momento, o que esse nível de densidade me mostra, bem como as imagens das redes linkadas acima, é o quanto, a partir dessa proposta de formação, o trabalho dos polos é fundamental nesse momento. São eles que adensam a rede, ampliando sua capilaridade.
  2. sobre o Grau mais alto, dá para perceber também um movimento interessante. Ele cai -62% na rede de polos e -81% na rede de monitores. Isso aponta uma tendência interessante, mostrando que o grau mais alto na rede de polos+monitores ocorre quando esses dois níveis estão conversando entre si, ou seja, mostra um movimento de polos contactando monitores e vice-versa. A relação do polo na formação é central, pois é ele que apresenta o tutor na formação, aquele que tem por papel acolher os monitores, tirar suas dúvidas e acompanhar sua formação.
  3. os indicadores de proximidade e intermediação apresentam o mesmo movimento, apenas mais intenso no caso da intermediação. Esses indicadores servem para mostrar o nível de proximidade médio entre os nós de uma rede e o grau de articulação entre esses nós. O que fica mais evidente a partir dos dados dessas tabelas, considerando apenas os valores mais altos, é o quanto essa rede de formação depende dessa relação dos polos com os monitores para se articular. A rede só de polos fica 77% mais articulada sem os monitores e a rede só de monitores -51% menos articulada, considerando os nós com maior potencial de articulação na rede. A rede sem os tutores perde muito da sua intensidade, do papel de intermediador que os tutores acabam exercendo na relação com suas turmas de monitores. Esse papel pode ser construído pelos próprios monitores quando avançam na construção de estratégias em comum, na articulação de movimentos próprios, desintermediados da relação direta com os polos, quando começam a utilizar a plataforma de conectividade mais como um canal de encontro do que propriamente um canal para realizarem um curso. Acredito ser possível levar os movimentos da rede de formação para esse âmbito, mas isso é algo a ser experimentado ao longo desse processo todo que estamos vivenciando. 
  4. a distância média entre nós na rede também sofre um impacto, apesar de menor, quando da saída dos polos da rede de monitores. Há um espalhamento na rede, aumentando as distâncias entre monitores. Um dos papéis dos tutores é, nesse momento, realizar parte dessa intermediação, conectando monitores, apresentando pessoas, divulgando suas ideias e links e criando campo para promoção de conexões e articulações em rede.
 São ainda movimentos muito iniciais, pouco conclusivos. Acredito que mais do que concluir, a ideia por aqui é experimentar o descrever e entender melhor como muitos desses recursos podem ser úteis em ações de intervenção, de leitura de movimentos complexos para pensar nas nossas próprias estratégias em projetos, como promovemos ações e os efeitos que elas geram nas redes que buscamos auxiliar a ativar. 

terça-feira, 19 de abril de 2011

Ainda pensando na produção coletiva: da ideia a operação dos grupos

Tenho visto e lido bastante coisa nos últimos tempos sobre a ideia de grupos. O que me atrai nessa discussão é a possibilidade de pensarmos e experimentarmos uma infinidade de modos de nos relacionarmos, podendo analisar com cuidado como esses modos são modelados em cada situação, os resultados que são produzidos e o quanto cada um nos impacta de formas diferentes, em momentos diferentes.

Trabalho de uma vida a pesquisa e a vivência de tantos caminhos que se abrem. Mas, as experiências que facilitam a conversa, que permitem explicitar mais as coisas, que se propõem a se revisitarem continuamente me interessam ainda mais. A questão de fundo é: conseguimos gerar maneiras interessantes de nos relacionarmos como um grupo, de produzirmos coletivamente, de sermos eficientes segundo nossos próprios parâmetros e darmos conta de que esse processo não seja apenas uma utopia de um final de semana?

A ideia de grupos, de comunidades, de redes não tem nada de novo. Temos revisitado isso nas últimas décadas de várias formas diferentes, seja passando pelas experiências dos psicodélicos, seja passando pelas "novas" formas de massificação pelo consumo da ideia de rede.

Existem características similares nas experiências mais interessantes, considerando por interessante o próprio fato das pessoas se sentirem mais felizes, mais empoderadas e mais autônomas ao se relacionarem em grupo?

Depois de caminhar por várias abordagens diferentes, considerando o pessoal da aprendizagem organizacional, psicologia social, emergência, biologia cultural, cultura digital, software livre, movimento hacker, metareciclagem e por aí.... Um elemento me sobressai: quase todos eles mencionam um momento em que as pessoas que atuam como um grupo constroem algum tipo de referencial comum, algum tipo de base de pensamento, algum tipo de objetivo compartilhado que permite que o grupo entenda e se relacione de alguma forma a partir desse elemento que facilita e promove contexto para sua união.


Sem dúvida, esse "esquema de refencial comum" que une o grupo é tão móvel, mutante quanto o próprio grupo. As pessoas mudam, têm compreensões diferentes, atualizam conceitos na mesma velocidade em que atualizam a sua dinâmica corporal e assim o movimento coletivo vão sendo moldado e vai moldando a dimensão onde opera a relação entre as pessoas. 

Muitas experiências não se dão conta disso e esquecem que um dos trabalhos mais fundamentais para o bem-estar do grupo é a contínua atualização desse referencial. Falar dele, ampliar discussões, checar compreensões, explicitar divergências, dúvidas, discordâncias é atuar diretamente nesse invisível que se torna o esquema, mas que mesmo invisível é presente diariamente em nossas conversas, nossos pressupostos e interfere diretamente em nossa capacidade de produzirmos algo em conjunto.

Logo, me parece necessário e fundamental refletir e investir nessa construção e atualização contínua no desenvolvimento de nossos projetos, sejam eles quais forem, desde uma "simples" relação de colaboração entre duas pessoas a uma unidade de governo em nível federal. 

Mas, como fazer isso? Não acredito numa resposta única, nem mesmo numa solução que não parta da integração de muitas formas de operar que busquem revelar e dar visibilidade a diferentes aspectos de um processo coletivo. É um problema complexo, logo, exige uma abordagem complementar, onde conceitos de diferentes áreas, de diferentes práticas possam se encontrar. 

De tudo o que já experimentei em relação a isso, fiz uma pequena síntese daquilo que estou chamando por aqui de dispositivos de produção coletiva ou dispositivos de ativação de redes:

- criação de alguma forma de um Comitê Gestor deliberativo
 Diz da produção de alguma espaço que sirva como um conselho, um comitê, uma roda de decisão onde as questões mais complexas possam ser colocadas, debatidas e encaminhadas.

- realização contínua de reuniões, encontros e seminários
 A organização sistemática de conversas, encontros e seminários onde as pessoas possam trabalhar juntas, rever conceitos e encaminhamento anteriores, tendo oportunidades reais de modificarem os rumos de um processo de trabalho me parece que oxigena e aproveita melhor a inteligência coletiva de um grupo.

- organização dos processos por Grupos de Trabalho
Mas, como subdividir as pessoas, dado que há grupos que podem ser compostos por muita gente? A construção de grupos de trabalho que deveriam surgir de uma demanda de organização de trabalho do próprio grupo e não de um gestor tentando impor sua forma de divisão do trabalho. Grupos de trabalho podem se tornar mais focados em assuntos que são de maior interesse das pessoas que ali se encontram, sabendo que ainda existe um espaço mais geral onde possuem garantidas suas possibilidades de minimamente opinarem no todo.

- construção e documentação coletiva da política de sustentação do grupo
É importante que esse grupo possa produzir periodicamente alguns documentos orientadores que possam servir como um marco referencial de seu estágio de articulação coletiva. Essa documentação pode servir como uma maneira de explicitar a política de regulação do grupo e uma forma mais fácil de introduzir novas pessoas na dinâmica de relação que ali está sendo proposta.

- utilização de tecnologias de conversação presenciais
Nos reunirmos em grupo nem sempre é o mais difícil, mas aproveitar bem nosso tempo com dinâmicas de conversa que possam respeitar o tempo de todos e garantir espaços de participação é um desafio contínuo a nossas tecnologias de conversação. Experiências como Open Space, World Café, Aquário, entre outras técnicas facilitam muito processos de interação dependendo do contexto em que as pessoas se encontram.

- utilização de tecnologias de conversação digitais
Sem dúvida, a web e as infinitas possibilidades de interação que temos no campo digital são elementos que podem facilitar de muitas formas a construção de um grupo. O ponto-chave aqui não está necessariamente no domínio da tecnologia, mas em compreender quais são os recursos em potenciais que temos a nossa disposição e quais são aqueles que podem ser mais úteis em um dado contexto. Não é uma resposta fácil de se chegar, nem tampouco simples de operar. Nos deixamos facilmente seduzir pelas novas tecnologias, novas versões, novas funcionalidades e esquecemos do fundamental: o que queremos é apenas que pessoas conversem com pessoas e possam ter mais elementos para melhor poderem operar em conjunto.

- ativação de comunidades/subgrupos que surjam do refinamento das relações
Para além dos grupos de trabalho, dentro de um grupo podemos nos identificar com mais clareza com determinadas pessoas que executam coisas/processos/áreas/saberes muito semelhantes aos que nós executamos. Dar condições para que essas pessoas se reunam, discutam seus modos de fazer, compartilhem práticas, saberes e dificuldades é uma forma de facilitar a própria circulação do grupo. Comunidades podem surgir, podem se organizar, ganhar espaço, articular necessidades, mudarem rumos e necessidades das práticas, reorientando caminhos.

- construção contínua de analisadores: resultados e métricas de processo
Uma das coisas que tenho pesquisa e experimentado com bastante intensidade nos últimos 2 anos são os analisadores e meios de dar visibilidade ao que está sendo feito, produzido e construído pelo próprio grupo. A ideia aqui é o oposto do controle, mas é criar caminhos para que as pessoas possam se ver e analisar os padrões que elas mesmos têm construído em relação a sua própria produção.

É um leque vasto de opções, de possibilidades. Minha ideia por aqui é começar a detalhar as experiências que tenho tido mais o bando de malucos que topam conversar e experimentar essas coisas juntos. E segue o trem, que as pistas são boas.

domingo, 10 de abril de 2011

Produção coletiva: empoderando a rede através da apropriação de tecnologia

Há várias formas de se pensar no desenvolvimento de um projeto e na forma que pretendemos desenvolver um processo produtivo, seja lá do que for.

Há escolhas que buscam preservar o rigor do conhecimento técnico, a padronização e, para isso, criam instâncias de especialistas que determinam procedimentos, normas, padrões e formas de como um projeto deve ser desenvolvido.



Há outras escolhas que buscam potencializar a produção coletiva, criando e garantindo que espaços de diálogo possam estar sempre abertos para discutir as normas, os procedimentos e as soluções que terão impacto direto na vida do conjunto de pessoas que se relacionam no âmbito de um projeto.



Não acredito que sejam necessariamente dois processos que se oponham. Acredito que o bom desenvolvimento técnico de um projeto se dê quando conseguimos garantir estabilidade, escalabilidade e um processo de apropriação coletiva dos meios e modos de construir a produção.

Sem dúvida, há riscos. Mas, os riscos são bem menos técnicos e muito mais de acreditar e apostar num meio de relação onde a conversa se faz necessária, fundamental e meio pelo qual a técnica se expressa e auxilia a produzir sentido.

Sem dúvida, há riscos. Mas, os ganhos de visão que obtemos quando compartilhamos nossas escolhas, quando escolhemos juntos criam um campo em potencial que impacta muitas outras coisas para além daquilo que podemos visualizar no desenvolvimento de um projeto. Criamos redes ao sentarmos juntos e nos propormos a fazer o mesmo trabalho, a enfrentar as mesmas dificuldades e, juntos, pararmos e refletirmos sobre quais são as nosssa reais possibilidades mediante as nossas reais restrições.

Enxergamos o que enxergamos quando vamos juntos. Esse é o grande ponto a ser pensado em qualquer processo, sobretudo aqueles que lidam diretamente com produção imaterial, com a criatividade e que afetam a forma que as pessoas se expressam, a maneira como entendem e enxergam o mundo.

A experiência que temos tido e fomentado ao longo do projeto Telecentros.BR é exatamente essa. Mais do que focar numa excelência técnica da formação, estamos buscando empoderar e criar meios de relação para a emergência da Rede de Formação do programa.



A rede só surge quando se apropria de seus processos, quando sente que seu poder de voz é real, não intermediado, que suas decisões têm efeitos práticos, imediatos. A rede só surge quando as pessoas se dão conta que sua voz muda os rumos, define processos e que ela reverbera em pessoas que de fato têm interesse, tempo e vontade de escutar. A rede é inteligente para perceber quando esse processo não é real. Os links se organizam, se recriam e se rearticulam em torno daquilo que os motiva: exercer sua própria autonomia.

Para isso, criar encontros, eventos, seminários e reuniões presenciais são fundamentais. Não só para apresentar resultados, mas para definir a política de nosso meio. Nesses espaços, temos a oportunidade de nos colocarmos numa posição semelhante, descentralizando identidades anteriores e percebendo que nossas opiniões podem afetar a de outros e construir o novo.

Mais do que construindo uma formação, estamos nos construindo como grupo, como relação e como príncipio de produção coletiva. É outro efeito que se obtém, é outro campo que se abre e é outro projeto que se desdobra.

terça-feira, 22 de março de 2011

Utilizando a web para fazer ciências sociais

Telecentros como plataformas de articulação de redes

Há diversas "verdades" que têm sido ditas a respeito de projetos sociais que envolvem, de uma forma ou de outra, o uso de tecnologias que promovam maior conectividade entre as pessoas. Algumas acabam se tornando quase um mantra de várias conversas sendo que acabamos por perder o panorama mais global de como essas ideias têm sido articuladas e, sobretudo, colocadas em prática nos projetos em geral.

Uma delas é a questão da formação em rede, da promoção da redes, das redes sociais de maneira geral. É dito com muita frequência que o objetivo do projeto é promover redes, trabalhar a inteligência coletiva, facilitar a colaboração, utilizar as tecnologias para promover um tipo de interatividade que tem se tornado a moeda nº 1 quando ouvimos expressões como "mídias sociais" e tal.

A pergunta que me coloco aqui é: para que promover redes? para que trabalhar a inteligência coletiva? A rede pela rede promove conectividade daí a achar que isso é algo que deve ser buscado ou não, depende muito de como se responde ao objetivo disso tudo.

Não sou partidário das opiniões que acreditam que a rede é uma panacéia que pode melhorar a forma como nos relacionamos e nos articulamos para o desenvolvimento de objetivos em comum. Na mesma proporção que a rede amplia, ela também limita, também seleciona, filtra, reduz e sintetiza. Na mesma proporção que a rede conecta, ela desloca, atrai a atenção para pontos específicos, reduzindo níveis possíveis de outros tipos de conexão.

A rede surge como paradigma de controle e gestão de um estado burguês em desenvolvimento: rede elétrica, rede de esgosto, rede de televisão, rede de água, entre tantas outras. Logo, a rede pela rede, estamos discutindo o abstrato pelo abstrato. Não se trata disso e acredito que esse momento, apesar de parecer óbvio em certos momentos, merece alguma reflexão um pouco mais detalhada.

Acredito que há algo mais que me interessa na ideia de rede: a ideia de organização. A possibilidade de utilização de uma plataforma ampla e intensa de conectividade, como podemos entender os muitos projetos e programas que implantaram telecentros pelo Brasil na última década, como plataforma de articulação de redes que podem demandar outros níveis de organização, aí sim, algo surge que me interessa profundamente.


A infra-estrutura é fundamental, a banda larga é fundamental, a formação é fundamental. São aspectos de base, quase como condições de possibilidade para algo possa surgir a partir da intensa possibilidade de interação que pode ser criada a partir da livre apropriação dessas camadas de base. 


Entendo por outros níveis organizacionais alguns pontos importantes que podem ser experimentados de várias maneiras:

  • a consciência de si na relação com o outro. Me percebo, me conheço, me descubro um pouco mais quando me coloco em relação;
  • a capacidade de mobilização social, quando me dou conta de que minhas questões são mais amplas do que meus próprios interesses. Encontro semelhanças e diferenças que promovem deslocamentos em meu pensamento, ampliando possibilidades e perspectivas de interpretação daquilo que vivo. As semelhanças e diferenças tornam-se movimentos que disparam ações de conectividade, que promovem interação, debate e, eventualmente, colaboração. Causas, bandeiras, objetivos são descobertos, organizados e promovidos de maneiras supreendentes;
  • a descoberta do novo. As diferentes "verdades" se encontram e podem se remixar criando novas formas, novas possibilidades emergentes e que podem ser utilizadas de muitas maneiras por aqueles que se dão conta de algo novo surgiu;
  • novas formas de "institucionalização". A rede opera novas interfaces de sentido, novas maneiras de formar bando, grupos que se articulam, se autodenominam e se reconhecem de alguma que produz algum tipo de identidade coletiva. É um novo nível organizacional que surge como resposta a uma necessidade latente de interação. 



 A rede passa a operar efeitos que rearticulam territórios, mobilizam recursos e operam aberturas de diálogo que podem fazer toda a diferença no dia-a-dia de um telecentro, de uma comunidade, um laboratório, uma empresa, seja qualquer tipo ou forma de agrupamento humano. 

Nesse sentido, sinto que podemos ampliar a compreensão de nossa ação ativista nos sistemas dinâmicos complexos em que atuamos. Somos, de alguma maneira, promotores de interatividade pelos projetos em que atuamos. Refletimos de alguma e apoiamos a emergência de novos níveis organizacionais? Estamos prontos para mudar escopo, objetivos e nos adaptarmos ao que surge em meio ao fluxo que fazemos parte? Estamos prontos para construir novas verdades? 

quarta-feira, 16 de março de 2011

Modelando o invisível

Trabalhamos com o invisível.
Trabalhamos com a modelagem do invisível.

A palavra símbolo apenas aparece como disparador dos próprios sentidos.
Daí, a pensar que a relação símbolo-sentido foi compartilhada tem uma grande distância.

A arte das redes se dá nessa passagem.
Não se compartilha sentido, se compartilha movimento de sentir,
Quando me importa de fato o outro.

Desafio não é linkar, é manter o foco no movimento da atenção do outro.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Dinâmica humana, padrões e variáveis aleatórias: novos métodos para velhas buscas

A busca pela percepção da recorrência de ações e a produção de uma forma de explicar essa recorrência que permita conversarmos sobre ela, reproduzirmos, experimentarmos, encontrarmos outras formas é a base do pensamento científico, seja ele de que "ciência" for.

Sem dúvida, o uso das recorrências pode ser tanto no sentido de aprendermos a nos planejar melhor no compartilhamento de recursos, no uso de bens escassos, bem como na maneira como interagimos em relação a determinados assuntos. O mesmo vale para a tentativa de controle, de manipulação e exercício do poder sobre a pretensa falta de informação daquele a quem pretendemos controlar.

A histórias dos padrões e das recorrências é tão antiga quanto a própria linguagem humana e pode ser rastreada até os limites dos primeiros registros da história escrita. Recursos como astrologia, eneagrama, numerologia podem também ser compreendidas dessa forma.

Os métodos de física-estatística, de processos estocásticos, de dinâmica e complexidade de sistemas têm sido intensamente utilizados nos últimos 10 anos para se encontrar recorrências, padrões e possibilidades mais amplas de compreensão como interagimos como sistemas humanos.

A diferença é que agora temos cada vez mais a nossa disposição bases de dados que registram interações humanas: blogs, artigos em co-autoria, listas de email, fóruns, chats, logs de sistemas, logs de servidores de internet, etc...

Estudar isso tem sido meu foco nos últimos anos e vem ficando cada vez mais interessante, conforme algumas ferramentas vão ficando mais simples, cada vez mais dados organizados para trabalhar, cada vez mais possibilidades de encontrar recorrências que acabam por me dar pistas de como ler o próprio trabalho que venho desenvolvendo com as pessoas/equipes com quem tenho trabalhado.

Exemplo interessante do projeto Telecentros.BR. Pegamos o log de acessos do Moodle do primeiro curso de tutores que realizamos do meio de novembro até final de dezembro de 2010. Mais de 40.000 linhas de log, com vários dados brutos que podem ser correlacionados até o limite da criatividade humana.

A pergunta que me fiz essa manhã, vindo para o laboratório era: Como será que eles se organizam em termos de horários de acesso ao ambiente? Será que fazem isso apenas em horário "comercial", será que invadem madrugada? Será que os tutores fazem isso durante o momento em que estão navegando na web, fazendo outras coisas? Que tipo de pistas de como podemos interagir com eles essa informação poderia me dar?

Bem, pego o log de dados. Brinca daqui, transforma horários picados em horas cheias, encontra agregação de faixas de horário, manipula daqui, joga pra lá e brota algo que me mostra como mais de 100 tutores se organizaram em termos de horários de acesso/interação no Moodle ao longo de um mês e meio.



Algumas surpresas pra mim:
  • os caras vão bem além do tal horário comercial. As 01:00h tem o mesmo que as 11:00h da manhã ao longo de um mês e meio de acessos;
  • a manhã começa em torno das 10:00, tem queda no horário do almoço e o pico de acessos ocorre em torno das 17:00;
  • o pico não indica queda, mas sim um pequeno recesso para uma nova leva de acessos que atinge um novo pico as 21:00h;
  • muitos tutores devem ter computador e banda larga em casa, para poderem se organizar em horários que ultrapassam funcionamento de telecentros e postos públicos de acesso.
Algumas pistas interessantes de como podemos nos organizar, preparar atividades e propor ações que possam acoplar da melhor forma possível com essa distribuição.

Novas perguntas:
  • como será a distribuição das outras turmas de tutores em outros estados?
  • como será com os monitores?

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Metadesign e tecnologias como domínios relacionais

Arquiteturas de participação, design colaborativo, estruturas de relação, enfim, vários termos que tenho lido e pesquisado em relação a um tema que me chama e convida a atenção já faz algum tempo.

A percepção que venho tendo, baseada em uma série de experiências pessoais, profissionais e reflexões durante uma série de experimentos em projetos é que as tecnologias, a Internet, os processos de formação, as maneiras de se pensar e construir redes ajudam, mas ainda não tocam no ponto X que sinto que precisa ser tocado. 

Obviamente, to falando aqui de algo que me encanta, que me convida a agir: como pensar em processos que possibilitem ampliação da autonomia, da capacidade de auto-análise e reflexão, processos que posicionem as questões centrais de seu modo de operação em como nos produzimos sujeitos mais livres, com maiores possibilidades de nos constituirmos como bem quisermos.

Como trabalhar isso? Como posicionar uma ação, um projeto de modo a abordar essas questões? Como construir estratégias de interação que sirvam como ativadoras desse tipo de questão?

No universo em que vivo, onde Internet, inclusão digital, redes sociais, apropriação de tecnologia, software livre e tantos outros conceitos, aparentemente deveria ser mais fácil encontrar meios de abordar isso.

Mas, nada é trivial nessa questão. E, na real, muita confusão surge misturado com todos esses conceitos e não é à toa. A maioria dos projetos e ações usa conceitos interessantes, aparentemente libertadores, mas enfocam maneiras de pensar, de agir que apenas se propõe a replicar a lógica de um mercado, focando em demandas de consumo, replicação de padrões econômicos, administrativos e políticos que apenas visam manter a lógica de disseminação e proliferação do capital intactas.

Nenhum problema em manter as relações do capital, mas a questão que me interessa é como ampliar as possibilidades de relacionamento entre nós, para além de uma relação mediada pela grana e pela lógica de competição (chame como quiser, reputação, branding, meritocracia, etc) em que objetiva acumular mais grana.


Humberto Maturana, o biólogo chileno, deu algumas excelentes dicas de como olhar para essas questões a partir de sua maneira de pensar a biologia, o que nos constitui humanos e como podemos pensar novas maneiras de entender tecnologia e processos de design de tecnologia.

Chamo a atenção para 3 distinções importantes, que podem mudar muita coisa em nosso fazer cotidiano:
  1. tecnologias podem ser vistas como domínios operacionais, por onde projetamos e podemos executar uma série de processos organizados de forma coerente com algum tipo de visão. Podem ser vistas como meios de nos relacionarmos, como propostas de domínios de relação entre nós, humanos;
  2. a forma como nos relacionamos envolve o entrelaçamento entre nossas emoções e a forma como nos expressamos pela linguagem. A razão surge como derivação disso, sendo que ela é constantemente modulada pelas nossas emoções. Usamos argumentos lógicos como uma forma de justificarmos, muitas das vezes, esse tipo específico de entrelaçamento que ocorre em nosso viver cotidiano;
  3. a cultura é conservada e se manifesta como produto de nossas redes de conversações, através de processos educacionais conservados ao longo de gerações. 
Aqui surge o ponto-chave de Matuana:

Se as redes de conversação são pautadas pelas nossas emoções, o uso de novas tecnologias, de novos programas de formação, de novas propostas de relação não tocará o ponto que precisa tocar, ou seja, não terá condições de atuar efetivamente como um processo profundo de transformação da cultura se não tocar as nossas emoções.

E tocar as emoções, ampliar nosso potencial de olhar para elas e perceber como se constituem em nosso viver é um ponto fundamental da própria construção de autonomia.

Sem dúvida, é possível fazer isso em processos de metadesign que se proponham a tocar esses pontos, que se propanham sobretudo a:
  1. desenhar os domínios relacionais em que iremos operar;
  2. permitir a discussão sobre aquilo que queremos conservar como grupo e aquilo que estamos prontos para abrirmos;
  3. usarmos a rede como espaço de interação e reflexão contínua sobre a coerência de nossas operações, sobre espaço de validação coletiva e, sobretudo, como espaço que reflita, em suas coerências operacionais, a maneira como nos colocamos em relação.
Se isso será mais ou menos produtivo, não creio que seja a questão.
Se isso poderá ser avaliado com as métricas que regulam competição e acúmulo de capital, acho pouco provável.

Se isso poderá criar ambientes mais interessantes, mais saudáveis, mais flexíveis, aí sim, tenho cá comigo que o trem segue nessa direção.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Redes, redes, redes: modos de gerir e modos de formar

Tenho falado bastante nos últimos tempos sobre questões que facilitem e promovam processos colaborativos em rede. Tenho tido o costume de chamar isso de ativação de redes, um nome que me parece simples e que me ajuda a compreender o fazer redes como uma ação que pode ser proposta, construída e pensada na dimensão de um projeto.

Logo, refletir, pesquisar e documentar questões que sinto estarem relacionadas a princípios de ativação de redes tem sido uma constante nas caminhadas-ideantes por aí afora.

Uma das coisas que o projeto Telecentros.BR tem me trazido como campo experimental com muita intensidade nos últimos meses é a relação entre o quero chamar aqui de modos de formar e modos de gerir. Essa distinção tenho adotado a partir de um maravilhoso texto que li sobre processo de formação da turma da humanização da saúde.

Lá pelas tantas, eles citam algo a atenção e me fez colocar em perspectiva algumas tantas experiências dos últimos anos:

"O princípio que pretendemos discutir aqui se pauta na compreensão de que os processos de formação, os modos de cuidar e os modos de gerir são indissociáveis, ainda que sejam distintos." 

A primeira reflexão que me surge é:
  • O quanto o modo como fazemos a gestão de nossos processos de trabalho e relacionamento está pautando o tipo de formação (de qualquer tipo de processo educativo, seja uma oficina, palestras, cursos, etc.) que estamos ofertando ao outro?
E logo na sequência:
  • O quanto consideramos essa questão como espaço de conversa e reflexão em nossa produção cotidiana?
Em poucas ações que estive presente vi essa preocupação explícita, como pauta na mesa e prioridade do fazer do grupo, entendendo que se os modos de gerir do próprio grupo não estiverem sendo refletidos na formação que se objetiva construir, algo de uma profunda contradição começa a operar e isso vai ter reflexos na maneira em que nos propomos estabelecer conexão com comunidades, telecentros, pontos de cultura e tantos outros nomes que utilizamos em nossos projetos.

No entanto, esse fazer tem consequências, apresenta desafios de grande complexidade pois desloca a questão do produto que um grupo está se propondo a executar para o modo de gerir desse próprio grupo. Questão extremamente delicada pois atua diretamente nas relações de poder, de saberes e de papéis pelos quais este grupo se propõe a atuar.

E aí, chegamos num ponto fundamental que tem uma relação direta com a ideia de ativação de redes: o quão flexível é a proposta de atuação que temos para que de fato contemple a produção e construção coletiva de um modo de gerir ainda não previamente pensado, ou mesmo acordado?

Sinto que é nesse ponto que reside uma zona complexa de atuar, difícil mesmo de chegar, mas, que quando tratada como tema dos próprios processos formativos em que nos propomos atuar, o efeito é visceral. Abre dimensões fundamentais das relações humanas, ativa discussões de fundo que se relacionam com modos de ver o mundo, maneiras de compreender a própria vida e são disparadores de base de processos colaborativos, pois, sobretudo, quando novas propostas de modos gerir podem ser experimentadas, testadas e refletidas por um coletivo.

Há muito para se pesquisar nesse ponto, sem dúvida. Muitos problemas novos surgem, muitas questões ainda não colocadas vêm a tona e poucas respostas prontas são úteis nesse tipo de relação. Mas a aposta e, eu até ousaria dizer isso do que tenho vivido, é que essa é uma questão que facilita a produção de autonomia, a construção de redes e coletivos mais empoderados, com mais possibilidades e recursos para se auto-organizar, utilizando a rede como meio e modo de gerir. Aí, produzimos processos formativos que refletem suas questões de base e não apenas objetivos a serem atingidos estabelecidos por grupos que muito pouco têm a ver com a realidade daquele que idealizam em suas ações.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O Do-in Antropológico da aprendizagem em rede

Dia 01 de dezembro, estive com a Drica na Dobra para uma conversa sobre Redes Sociais e Aprendizagem.


Conversa boa, umas 20 pessoas presentes e algumas reflexões que ficaram na paralela até hoje, momento que encontrei um tempinho para poder refletir e documentar um pouco as ideias por aqui.

Muito se tem falado de aprendizagem em rede, comunidades de prática, redes de inovação, inteligência coletiva e um tanto de expressões que buscam tentar descrever coisas que me parecem muito semelhantes.

Hoje, aqui numa formação em Fortaleza, refletindo sobre isso com alguns companheiros, estávamos falando que, as vezes, a gente se esquece que toda essa conversa sobre Internet, redes e colaboração foi uma das melhores formas que encontramos de continuar tentando encontrar a própria autonomia, liberdade e capacidade de auto-organização.

Vejo que tem uma pista valiosa sobre muito dos tempos que vivemos nessa reflexão. A Internet encarna os paradoxos da liberdade e controle, sendo tanto uma coisa quanto a outra, apenas dependendo da mão de quem conecta. Aprendizagem, por si só, também pode estar relacionada a diferentes caminhos, a múltiplas formas de se ver o mundo, tanto libertárias quando controladoras, sendo eficazes o mesmo tanto, mais uma vez apenas dependendo do olhar de quem educa.

Mas, se quisermos usar a rede, apenas uma de suas possibilidades, para trabalharmos os desafiarmos de nos tornarmos mais autônomos e conseguirmos enfrentar para valer as dificuldades de produção de novas formas organizacionais, meu ponto é que aí avançamos para algo ainda em formação. 


Não tem nada dado nesse caminho. Poucas experiências que realmente conseguiram sair das próprias questões de controle excessivo, das formas tradicionais/culturais de impor valores e da abertura de um poder centralizado. Mas, as que estão tentando, documentando, compartilhando, tirando muito da mística que se constrói em torno disso, tem produzido avanços muito interessantes no pensamento e na prática da produção de coletivos autônomos.

Acredito que o Do-in Antropológico tem muito a ver com isso, localizar o ponto de pressão da política de formação de grupos, localizar como aquela política busca se regular, quais são seus valores, suas práticas e, a partir disso, poder entender que tipo de ação em rede poderia de fato ocorrer, que tipo de coletivo se objetiva criar e que tipo de respaldo social temos para bancar os desafios dessa construção.


Muitos caminhos e projetos são possíveis, mas não ser ingênuo nesse momento e conseguir graduar o próprio olhar é um passo fundamental para regular expectativa e as próprias condições de possibilidade da ação.

Sim, sem dúvida podemos mudar formas e visões de como se fazem as coisas. Mas localizar esforços, saber quando entrar e quando sair e, sobretudo, se perguntar a quem mesmo estamos a serviço, me parece uma etapa fundamental no design de redes e de processos de aprendizagem.

Da série: meu tempo é quando

Foto linda.
reunião do conselho da rede de formação, telecentros.br, semana passada em brasília.

A forma como tudo tem acontecido, a maneira em que estamos nos propondo refletir juntos e criar um caminho próprio, tá muito refletido no tom dessa imagem, na entrega e confiança de algo que só é sendo.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Conversando sobre apropriação de tecnologia e ecossistemas culturais

Hoje, tive presente, a convite da Drica Veloso, num seminário sobre novos desafios da educação na era digital, no Núcleo Amigo do Professor, aqui em Belo Horizonte.

Conversa boa, só entre professores. Presente também o prof. José Moran, da ECA-USP.

A ideia do papo era tentar localizar um pouco melhor as discussões em torno do que de fato se torna um desafio nessa relação educação e tecnologia, se é que dá para colocar a questão desse jeito. Muitas conversas girando em vários locais, em várias publicações, livros, discussões em torno do tema, nem tão novo e nem tão discutido o suficiente.

De fato, ouvindo os professores, a questão de fundo que repercute é o que fazer com tudo isso. Como se organizar, como se preparar, como se relacionar com tudo isso sendo que o sistema formal educacional simplesmente deixa pouco espaço para propostas de relação mais flexíveis.

Há um contra-senso de fundo que gira em torno da questão: os sistemas de informação, a rede, tem um design de relações mais flexíveis, móveis, remotos, voltados para a promoção da colaboração e fluidez da informação. Os sistemas educacionais estão voltados para a disciplina e o controle, a garantia de validação de processos, a paranóia da prestação de contas e a tal da rede da educação se torna umbigada, conversando apenas consigo mesma nos meandros burocráticos dos seus processos.

Logo, o nó não é tecnológico, nem tampouco de acesso a tecnologia. O nó tá na proposta de relações que não se conversam, que não fazem sentido. Quando professores usam a rede em suas práticas educacionais, duas coisas, em geral, tendem a acontecer:
  1. nada acontece e os alunos não se apropriam, pois aquele espaço não é reconhecido por eles como sendo um legítimo espaço de apropriação;
  2. ocorre uma explosão informacional, com muito mais fluxo e apropriação do que o professor pode lidar, gerando a impressão de que há um caos no processo, atulhando o pouco tempo livre que temos para lidar com isso.

O que ocorre, ao meu ver, é uma falta de reflexão e preparo sobre como lidar com nossos sistemas relacionais e com os sistemas de informação em rede, que acreditamos que devemos nos apropriar como um próximo paradigma necessário para a educação. Mas, e a reflexão sobre que tipo de relação na educação propomos? E as aberturas necessárias e flexíveis para ativar um fluxo livre de conversa em rede? E a plasticidade de posições que precisamos ter para dar conta disso? E? E? E?

Há muito para se pensar nos projetos nessa área. As respostas não são fáceis, não prontas e nem tampouco modelos a serem seguidos. Uma das melhores alternativa é nos debruçarmos sobre cada caso, refletir, compreender, envolver o máximo de pessoas possíveis e se propor a construir um design emergente das relações e sistemas de informação que pretendemos utilizar.

E segue o trem....


quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Emergência e ativação: a rede como alternativa e a rede como meio

Tenho feito algumas reflexões e análises de alguns projetos que venho participando ao longo dos últimos em como as propostas de rede foram construídas com discursos, intenções e processos bastante diferentes.

Me dei conta disso indo ao Fórum de Cultura Digital, conversando com algumas pessoas e refletindo sobre o que tem sido meu interesse nos últimos meses.

A intenção por trás de muitos projetos que participei, me parece, ser muito semelhante: ampliar o potencial de conexão entre pessoas e facilitar com que possam criar um espaço-bem comum que amplie o potencial de ação de cada um.
Intenções semelhantes, meios e caminhos para se fazer isso muito diferentes, baseados em princípios e crenças muito distintas.

A diferença sem dúvida é bem-vinda, aliás, inerente a própria de rede deve ser a forma como pensamos em processos para construir e facilitar o surgimento de redes. Longe de imaginar que possa haver uma forma melhor, forma correta ou mais efetiva, penso que a reflexão que toca é mais da ordem de poder descrever as minhas próprias apostas e caminhos.

Colocando dessa forma, vejo duas grandes divisões, em nível macro, na forma de atuar nos projetos que enxergo sobre rede:
  1. Atuação focada na aposta da emergência: são processos que, em geral, acreditam que um projeto de rede deve criar espaços coletivos fortemente baseados em sistemas de informação, conectar pessoas e criar um nível de abertura suficiente para que as pessoas possam se organizar, criar demandas e a forma de se articularem. Normalmente, são projetos que investem pouco no acompanhamento e na produção sínteses de informação, criando algum tipo de movimento que se proponha a trazer o maior grupo possível de pessoas junto.  São caracterizados por apostas mais focadas em eventos, intervenções midíaticas do que processos formativos, a longo prazo.
  2. Atuação focada na aposta da ativação: são processos que, em geral, acreditam que um projeto de rede deve criar uma estrutura de circulação da informação, produzindo instâncias gradativas de rede, com papéis desenhados para apoio, acompanhamento e intervenção crítica como possibilidade de síntese do processo em andamento. Normalmente, são projetos que investem fortemente em encontros presenciais de médio a longo prazo, cuidando da ambiência do encontro, dos espaços de conversa e, sobretudo, da criação de espaços de tomada de decisão coletiva que possam dar diretrizes e consensuar decisões de encaminhamento da rede. São caracterizados por apostas em processos formativos como elementos de ativação de rede, como elementos que criam estruturas cognitivas mínimas para facilitar a construção da participação e a produção de adesão por temas de relevância que surgem da conversação coletiva. 
Não creio que haja uma atuação melhor do que outra. Acho uma polaridade desnecessária. Creio que são formas e princípios que mostram diferentes formas, onde as apostas de ação são colocadas. As características de quem participa dessas duas formas de abordagem também me parecem muito diferentes, sendo a abordagem por emergência mais efetiva em grupos já "iniciados" na relação em rede, e a aposta na "ativação" mais efetiva em grupos que estão "sendo iniciados" na relação em rede.

Formas diferentes, logo, tipos de ação diferentes. A ativação prima por operar a partir do acolhimento, do afeto, da dimensão da linguagem e da dimensão da facilitação que produz intervenção e reorientação na ordem do discurso. Investimos na descrição e redescrição de si enquanto agente em rede. O investimento tá na composição, mais do que na própria produção da rede. A emergência versa melhor com o evento, o fato, o meme, demarca território, agencia uma visão e promove o embate, a disputa de idéias no território onde a maior força surge quando o Eu se destaca no coletivo, perante o próprio coletivo.

A rede pode ser vista como uma alternativa de organização, como uma maneira de promover ideias, princípios e ações. Ou, a rede pode ser vista como meio de diálogo, como princípio de dissolução da própria ideia do eu, sabendo que somos muitos e que o surge não tem autoria, a não ser a autoria da trama, da conexão, da multiplicidade que fala e se manifesta em diferentes sínteses, a partir de diferentes vozes, sem sequer haver a possibilidade de dizermos que alguma delas carrega qualquer hipótese de verdade.

A versão também é link. ;-)

domingo, 14 de novembro de 2010

Sistemas de informações e relações: metadesign dissolvendo fronteiras e ativando redes

A idéia do que facilita e promove colaboração em grupo de pessoas tem sido um tema que tem me interessado e direcionado minha atenção nos últimos meses com muita intensidade. Várias leituras tem trazido isso a tona, boas conversas com amigos, companheiros de trabalho e experimentações nos projetos têm fornecido pistas do que está por trás disso.

Sem dúvida, é uma questão seminal dos tempos em que vivemos. Se a explosão informacional é uma tendência irreversível, a construção de relações humanas mais saudáveis e colaborativas é o melhor tipo de filtro de relevância que podemos pensar em ativar em nossas comunidades. Dedicar tempo ao design das relações, ou melhor dizendo, ao metadesign de nossos processos de interação e trabalho é uma condição fundamental para que isso possa ser melhorado ao longo do tempo de existência de um grupo.

Parto do princípio de que "os sistemas interpessoais - grupos de estranhos, pares conjugais, famílias, relações psicoterapêuticas ou até internacionais etc. - podem ser encarados como circuitos de retroalimentação, dado que o comportamento de cada pessoa afeta e é afetado pelo comportamento de cada uma das outras pessoas." (do livro Pragmática da Comunicação Humana, pág. 28).

Considerando, portanto, que as relações constituem posições dentro de um sistema (gerente, marido, coordenador, facilitador, tutor, etc...) e que essas relações são reforçadas mutuamente quando na interação com outra pessoa que opera a partir do mesmo padrão de relação, assim surgem os circuitos de retroalimentação. Até aí, tudo isso tem sido falado e estudado desde o final da década 40, a partir da construção da cibernética e do estudo dos sistemas que operam a partir da ideia do feedback.

Mas, o que me chamou atenção fortemente nos últimos dias foi a pergunta que me coloquei: O que acontece quando um novo sistema de informação é inserido dentro de um grupo? O que ocorre com a dinâmica desse grupo? Como isso pode ser potencializado ou pode ser um problema para esse grupo em relação ao seu sistema de relações?

Um sistema de informação nada mais é do que um conjunto de regras lógicas de funcionamento escrito numa linguagem de programação por alguém ou um grupo de pessoas. Quem escreve o sistema tem uma concepção de padrão de interatividade que está buscando viabilizar pelo sistema. É aí que surge o primeiro ponto que vale a pena explicitar: que padrão de interação é esse? Será que não seria necessário um trabalho do ponto de vista das relações de um grupo de pessoas quando ele se depara com um novo sistema de informação no qual não está preparado para lidar? Como facilitar um grupo a se dar conta disto?

Um exemplo que pode ilustrar o que estou querendo pontuar. Imaginemos um grupo de pesquisa universitária, formado por seu orientador, seus orientandos, bolsistas, estagiários, etc. O grupo construiu uma dinâmica de trabalho, construiu posições e um sistema interpessoal que se reforça mutuamente ao longo dos processos de trabalho deste grupo.

De repente, o grupo passa a participar de um novo projeto que se propõe colaborativo. Um projeto onde o grupo tenha de sair de sua dinâmica atual de trabalho e tenha de interagir com grupos de fora, outros grupos que ainda não conhece em torno de uma proposta que deve ser construída coletivamente.

A colaboração, se levada a sério, passa a servir como uma política regulatória das relações. A colaboração esta muito mais atrelada a uma posição de uma relação que precisa dissolver fronteiras para poder ocorrer e se manifestar na sua potência. A colaboração não pode ser imposta, é construída a partir da política de como um grupo se vê e de como ele regula suas relações.

Até aí, ok. Mas, vamos seguir um pouco mais no exemplo. Então, o grupo se vê conectado com uma outra proposta política de relações, que objetivam se pautar pela colaboração. Para isso, o grupo é inserido em novos sistemas de informação (listas de email, blog coletivo, wiki, etc.).

Aqui vale destacar que algo ocorre e fica visível nessa conexão entre sistemas de informação e a política de relações de um grupo: se não há acoplamento na concepção dessas duas coisas, surge tensão, surge incômodo, pois o sistema de informação e a nova política de relações não se adapta a como o grupo funciona. Há dor, sofrimento, tensão. Uma certa perda de referências surge. O que funcionava tão bem antes, passa a não dar conta e ficamos em vão procurando culpados pela não-operância daquilo que vemos a nossa frente.

De fato, não há culpados, há relações que precisam ser revistas, posições que precisam ser reorganizadas, fluxos de comunicação que precisam ser reprojetados. Estamos falando aqui de uma nova política de relações que irá regular o sistema interpessoal que precisa surgir. Sem isso, o sistema corre o risco de colapsar, pois ele está cego para sua própria dinâmica.

Para fazer isso, o grupo de pessoas precisa dar um passo atrás e conseguir explicitar a política de relações que construiu até então. Passo extremamente difícil, árduo, penoso, pois vai na veia das zonas de conforto, status social e aquilo que imaginamos que nos trás estabilidade. Feito isso, surge a colaboração, surge o ver o outro como legítimo outro, surge a possibilidade de reprojetar relações e se reinventar como grupo. Sim, fronteiras precisam ser dissolvidas para que possamos de fato colaborar. 

Pensando do ponto de vista de um processo de ativação de redes, se o sistema se propõe a fazer esse trabalho, um salto qualitativo e quantitativo pode ser dado. As relações têm menos travas, menos bloqueios, produzir fluxos, operações, alinhamentos, conexões se tornam mais simples e mais suaves. Trabalho de uma vida, sem dúvida.

Mas, considerar que podemos fazer esse metadesign, esse processo de construção dessa política de relação explicitando o que de fato queremos nas duas dimensões que falei acima, é um passo importante no desenvolvimento de projetos em torno da idéia da colaboração e da inovação:
  • o metadesign dos sistemas de informação;
  • o metadesign dos sistemas interpessoais.
 Uma coisa pode ser gancho para a outra. Podemos começar um projeto por qualquer uma delas e criar níveis de entrelaçamento que possam adensar o trabalho, liberando o sistema de fronteiras e travas que lhe são inúteis e lhe impedem de conseguir aquilo que mais desejam como bem comum: a colaboração entre si.