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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Para além da inclusão sócio-digital: dos jogos de mercado como objetos de política pública



A palavra inclusão aparece como referência constante em diversas formas de descrição e apresentação de programas, projetos e experiências na política pública de forma praticamente unânime entre os mais diversos entendimentos e posicionamentos das chamadas políticas sociais. Aparecendo, de forma geral, com o sentido de incluir àqueles que não tem acesso a determinados bens materiais, serviços e identificação nas máquinas de governabilidade públicas e privadas, seja por falta de alcance dos mecanismos e possibilidades de articulação das estruturas políticas em ação ou seja pelo entendimento de que as estruturas que fornecem acesso não devem ser geridas pelo própria máquina pública, a inclusão serve como conceito que abre um campo de atuação e serve como critério de análise do que pode estar dentro ou fora.

Visto dessa forma, a inclusão se torna conceito operatório de produção e entendimento do que deveria balizar e sustentar as condições de aplicabilidade de uma política pública. Em outras palavras, se a política é inclusiva, ela dá acesso a determinados valores e modos de vida que entendemos serem necessários para sustentar a condição social ideal visualizada pela política em operação. Se a política não é inclusiva, ela segmenta, classifica, filtra, escolhe favorecer e empoderar aqueles que aparentemente já estão inseridos nas redes de circulação dos serviços e bens ofertados pelas máquinas da governabilidade. O critério que esse conceito operatório facilmente coloca à vista é qual o corte do que se entende por incluído e por excluído, que métodos de medição e análise são utilizados por uma política para operar essa divisão, entendendo que essa divisão explicita uma escolha, um campo de atuação e, sobretudo, intervenção que a política em questão se propõe a lidar. É a possibilidade de análise dessa segmentação e dos critérios atrelados a ela que nos permite reposicionar a questão sobre o conceito de inclusão e como ele vem sendo utilizado em nossas políticas públicas em vigência atualmente.
Vale aqui explicar, clareando algumas pré-condições como ponto de partida para a breve análise que aqui se estabelece, que o título desse artigo inclui a palavra “digital” na relação com inclusão social com uma intenção clara no que se refere a dimensão digital como mais um espaço, um universo e um campo de produção de diferentes formas e tipos de sociabilidade. Entende-se, desse modo, que essa dimensão é vista como um espaço de relacionamento humano que pode e é visto por determinadas políticas públicas como campo de intervenção e presença das máquinas de governabilidade que colocamos aqui em análise. A inclusão digital é vista aqui como o acesso a esse espaço de relacionamento humano, a esses canais e redes de interação, apenas acessíveis pelo uso de determinadas tecnologias, que constroem e pautam fluxos de comunicação, bens materiais e imateriais, serviços, formas de ativismo, atravessando e sendo atravessado pelas outras tantas dimensões de sociabilidade nas quais se percebem os espaços de relacionamento humano. O conceito, os critérios do que está dentro e do que está fora, além das formas de operação que a expressão “inclusão” fornece à ação de uma política pública permitem intervir também através do digital como espaço de governabilidade, sobretudo, daquilo que se entende como uma ação social proposta por uma política.
Mais do analisar a questão do digital, se pretende aqui analisar a questão da inclusão como modo de intervenção no social. Bruno Latour (2012) resgata a etimologia da palavra “social” explicitando com mais clareza sobre o quê incluir ou não incluir está se falando aqui.

A etimologia da palavra “social” em si é bastante instrutiva. A raiz é seq-, sequi, e a primeira acepção é “seguir”. O latim socius denota um companheiro, um associado. Nas diferentes línguas, a genealogia histórica da palavra “social” designa primeiro “seguir alguém” e depois “alistar” e “aliar-se a”, para finalmente exprimir “alguma coisa em comum”. (…) “Social” como em “problemas sociais” ou “questão social” é uma inovação do século 19. O vocábulo paralelo “sociável” alude à capacidade que tem o indivíduo de de viver polidamente em sociedade” (Latour, 2012, pag. 24).

Mas, que coisa em comum é essa e que nível de inserção é esse que permite viver polidamente em sociedade? Como surge a questão social como um espaço de intervenção que dá condições e sustenta o surgimento de um sem número de políticas públicas, logo, estratégias de governabilidade? De que modo incluir tem a ver com condicionar modos de vida e inserir em fluxos de operação da máquina governamental já conhecidos, sustentando e sendo sustentados por condições que mantém as ordens dominantes instauradas?
Há uma forma de pensamento que vale aqui explicitar, mesmo que de forma esquemática e reducionista, com a intenção de colocar de modo mais claro que relação é essa entre “inclusão”, “social” e “governo” que está posta nesse espaço de análise que se estabelece. Inclusão vem sendo aqui descrita como um conceito operatório que viabiliza determinadas políticas públicas, permitindo estabelecer critérios do que está incluído e do que deve ser objeto de atuação do governo para promoção da inclusão. Logo, o governo atua, de certa forma, intervindo nessa “questão social” com o objetivo de pautar determinadas condições de vida em sociedade. Que condições são essas?
Tendo estabelecido aqui alguns princípios de entendimento do conceito “inclusão” e “social”, vale aqui avançar um pouco mais conceituando como se pode entender o conceito de “governo” para tocarmos em algumas das questões que foram aqui levantadas.

... governo, aqui, é um modo de conceitualizar todos aqueles programas, estratégias e táticas para a condução da conduta, mais ou menos racionalizados, para agir sobre as ações dos outros de maneira a alcançar certos fins. Nesse sentido, pode-se falar em governo de um navio, de uma família, de uma prisão ou fábrica, de uma colônia e de uma nação, assim como de um governo de si” (ROSE, 2011, pag. 25).

Chega-se aqui a um ponto interessante de posicionamento desses conceitos. Governa-se para agir sobre os outros, para conduzir conduta. O sociável e a questão social torna-se campo de intervenção, modo de atuar para induzir e promover determinados tipos de conduta e modos de ação desejados. Incluir torna-se modo de produzir políticas públicas que tenham por intenção estabelecer critérios do que está dentro e do que está fora desses modos de sociabilidade polidos e desejados pelo governo das condutas.
No entanto, essa governança de conduta não acontece nos tempos em que vivemos de modo aleatório. Vive-se sob a influência de um tipo de racionalidade fundamentalmente influenciada por questões de fundo econômico e financeiro. Os parâmetros de renda e padrões de consumo servem de critérios de regulação de inúmeras formas do que condiciona os modos de vida e espaços de sociabilidade por onde os seres humanos interagem e se produzem mutuamente. O que serve de critério entre incluído e excluído se baseia diretamente nos indicadores econômicos que categorizam as diferentes classes, comunidades e formas de segregação.
Buscando entender como o jogo econômico pauta as formas de governo atuais, Foucault (2008b) deixa claro o que define esse critério do incluído/excluído que aqui se coloca em evidência.

Ora, essa ideia de que deve haver uma regra de não-exclusão e de que a função da regra social, da regulamentação social, da seguridade social no sentido amplo do termo deve ser a de garantir pura e simplesmente a não-exclusão de um jogo econômico que, fora disso, deve se desenrolar por si mesmo, é essa ideia que é aplicada, esboçada em todo caso, em toda uma série de medidas mais ou menos claras” (FOUCAULT, 2008b, pag. 278).

Logo, as políticas de inclusão, sejam elas a partir dos espaços do digital ou não, vistas dessa forma tornam-se estratégias de um governo visando a inserção das condutas por dentro desse jogo econômico, entendendo que uma vez inseridas no jogo o próprio jogo têm condições de se regular, operando a partir de estratégias que deixam de serem espaços de atuação do governo para serem espaços de atuação do mercado. Criar condições de consumo, criar condições de se posicionar em algum lugar no jogo econômico é, portanto, posicionar as bases dos modos de vida que essa governança de condutas pretende estabelecer. Garantir que o espaço de liberdade seja o espaço de liberdade do mercado, ou seja, que a liberdade se dê a partir das regras de funcionamento e dos contornos estabelecidos pelo mercado é garantir a eficácia e os critérios de sucesso das políticas de inclusão, melhorando níveis de renda e condições de inserção num jogo para o qual o próprio governo foi pensado e construído para manter.
É disso que se trata, em sua grande maioria, as políticas públicas de inclusão produzidas no âmbito de governos constituídos como neoliberais, sendo sustentados e mantidos como condições de existência e garantias da liberdade dos próprios mercados que os produzem. Se a possibilidade de livre comércio é o interesse maior no jogo de interesses do que está em disputa, o papel do governo é garantir que ele ocorra, produzindo condições para que se amplie nas esferas em que ainda não atua, incluindo no “social” os que estão fora do jogo.
Vale dizer que aqui não se coloca um juízo de valor explícito, afirmando que esse modo de entender os conceitos que analisamos defina essas políticas como negativas ou num sentido depreciativo qualquer. Ao contrário. O que aqui se objetiva é estabelecer alguns critérios de análise para que se perceba com um pouco mais de clareza o que de fato parece estar em jogo. É apenas entendendo como tem se produzido esses espaços de atuação que temos melhores condições de se ver dentro do próprio jogo, percebendo que papel ocupa, que discurso sustenta e se esse discurso parece operar políticas em direção ao que de fato desejamos ou a um jogo econômico que talvez ainda não se tenha percebido como o que tem regulado os modos de vida e fazer político atuais.
Logo, já encaminhando para algumas ainda breves conclusões que tiramos dessas relações estabelecidas, falar de questões como empoderamento coletivo, constituição de sujeitos autônomos e a possibilidade de produzir espaços de co-gestão é falar de outros jogos que parecem não dialogar e serem compatíveis com essa busca contínua da eficácia financeira e econômica desse modo de governar. Além disso, é falar de outras possibilidades que criem condições e funcionem como outros modos de operar política que não a visão da inclusão nos jogos de mercado.
É novamente Foucault (2008a) que parece dar pistas interessantes de posicionamento do olhar para além desse jogo:

Então, frente a essa política global do poder se fazem revides locais, contra-ataques, defesas ativas e às vezes preventivas. Nós não temos que totalizar o que apenas se totaliza do lado do poder e que só poderíamos totalizar restaurando formas representativas de centralismo e de hierarquia. Em contrapartida, o que temos de fazer é instaurar ligações laterais, todo um sistema de redes, de bases populares” (FOUCALT, 2008a, pag. 74).

É para além dos jogos de mercado, para além da economia como critério que determina modos de relacionamento e condiciona modos de vida que outros níveis de pensamento abrem espaço e permitem operar em estruturas de representatividade que não reproduzam essas formas de centralismo e hierarquia que são as condições de base da própria existência dos modos de governabilidade atuais. É por outro caminho que deslocamos essa racionalidade e abrimos espaço para outras formas. É por outras condições de relação, onde os posicionamentos se lateralizam, onde o coletivo opera como aquele que constrói contorno, que define seu espaço e se vê como agente de seu próprio modo de vida que outras redes são possíveis, que outros fluxos de interação podem ser pensados. E nisso, sem dúvida, a dimensão do digital pode colaborar na produção de outros jogos de relacionamento, não como condição de partida, mas como condição de apropriação de uma racionalidade que lhe antecede e opera por outros valores.

Referências
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Graal. 26ed. 2008a. 295p.
FOUCAULT, Michel. Nascimento da biopolítica. Martins Fontes. 2008b. 474p.
LATOUR, Bruno. Reagregando o social: uma introdução à teoria do Ator-Rede. Edufba/Edusc. 2012. 399p.
ROSE, Nikolas. Inventando nossos selfs: psicologia, poder e subjetividade. Vozes. 2011. 308p.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Anotações sobre o papel da mediação nos movimentos de rede

       Movimentos que se propõe a formar redes podem ser vistos como movimentos que instauram e fazem girar o que vamos chamar aqui de zonas de intencionalidades. De que intencionalidades estamos falando?  Sem dúvida, de várias, múltiplas, ora congruentes, ora difusas, divergentes, sintéticas e em contínuo movimento enquanto surgirem novos enlaces e novos nós em conexão. Vejamos algumas.
    Há uma intencionalidade fundamental e que vai influenciar de forma determinante, porém não excludente, o contexto, a borda, o campo daquilo que se propõe a colocar em rede, ou seja, daquilo que se pretende que a rede gire e produza em seus enlaces de conectividade. Intencionalidade essa que, muitas vezes, é pouca clara, pouco falada, pouco visível mesmo para aqueles que se propõe a operá-la e acreditam que a determinam. Essa intencionalidade instaura, mesmo que em casos extremos e de um modo difuso a partir de um explícito não-lugar, um convite de relação. Vemos nesse convite que constrói a intencionalidade a conexão por temas de interesse, desejos de agrupamento, articulação, movimentos de rede que se propõe a algo.
    Mas há outras inúmeras intencionalidades que atuam e entrecruzam esse convite inicial. Falamos aqui das intencionalidades de quem responde a esse convite e se sente impelido a se tornar um nó na malha de conexões, buscando deslocá-las segundo seus próprios interesses, sejam eles congruentes ou divergentes entre si em determinados momentos, em determinadas instâncias de existência da própria rede.
    É essa zona de intencionalidades definida pelos movimentos de rede que, ao mesmo tempo, define a própria rede. Logo, observando desse lugar em que nos propomos a olhar, essa zona é um campo de cuidado e de atenção. Cuidado no sentido de que é nesse campo que podem surgir a explicitação de pressupostos, modos de ver o mundo, entendimentos senso-comum pelos quais nos definimos, valores a serem defendidos, disputados, desejados, rejeitados, definições, variabilidades de discurso que podem mesmo chegar a redefinir as próprias bordas da rede, levando a outros níveis de entendimento de nossas próprias intencionalidades. Atenção no sentido de que nesse campo surge uma possibilidade de atuação, de um espaço de trabalho que se permite a operar a partir das múltiplas intencionalidades como um elemento que instaura uma nova intencionalidade: ser caminho de passagem, elemento de reflexão e conexão das diferenças e semelhanças. É a partir desse cuidado e dessa atenção que nos propomos a construir o lugar do mediador e a função da mediação em movimentos de rede.
   
“A mediação seria o processo de criação de elos entre dois agentes constituindo um composto híbrido que não existia antes e que desloca os objetivos, funções e intenções previamente estabelecidos” (Bruno, 2010). 

“Um mediador não é uma causa, nem um efeito ou mero intermediário entre dois pólos definidos de antemão. Ele é um operador de diferenças, de desvios, de deslocamentos que redefine os termos postos em relação – o indivíduo e a tarefa, o sujeito e o seu mundo interno ou externo” (Bruno, 2010).

“O mediador de relações sociais pressupõe, além de afinidade ideológica com a proposta de intervenção, que ele tenha sensibilidade e disponibilidade interior para aguçar a escuta, e maturidade suficiente para extrair da experiência vivencial o material de que precisa para problematizar os temas da vida social que nos grupos se estampam. Desempenhar bem essa função exige também que essa pessoa esteja mobilizada para entender e querer transformar as relações que, na sociedade competitiva em que vivemos, aprendemos a estabelecer com diferentes tipos de autoridade” (Lima, 2009).

“Orientados pelo princípio da co-gestão, os indivíduos que assumem a função de mediadores das relações sociais dos grupos sabem disso (referindo-se ao papel dos líderes e hierarquia). Por isso não ocupam o papel burocrático de apaziguar as tensões cotidianas, como forma disfarçada de salvaguardar as hierarquias. Não são conciliadores, nem fazem acordos para evitar conflitos que venham desestabilizar o controle da situação” (Lima, 2009).

    No movimento por dentro da zona das intencionalidades, o mediador atua favorecendo a visibilidade as diferenças e semelhanças, acirrando contradições e produção de comum, tornando o híbrido método e forma de passagem por entre a diversidade de discursos e enunciados em circulação. É desse lugar que o mediador não se preocupa se há muita ou pouca conversa, se a conversa é tensa ou apenas “adequada”. O mediador opera a partir do que brota, ele opera a partir do desejo de conversa alheio e não com a intencionalidade de produzir apenas mais conversa, imaginando aqui que a quantidade define a qualidade do movimento. Mas, há um outro ponto ainda no campo das intencionalidades que surge nas anotações acima e que demanda um pouco mais de atenção: a afinidade ideológica com a proposta de intervenção.
    O mediador não é um animador, um mero provocador de conversas que tenta falar de um lugar neutro, residindo na inconsistência da completa falta de intencionalidade. Não. O mediador age e age de algum lugar. Que lugar é esse? Voltamos aqui a intencionalidade do próprio movimento que se propõe a produzir redes. Que movimento é esse? Que características possui? Que associações estabelece? Que perspectivas de sociedade, de mundo e de modos de relação lhe definem? Saber disso e, acima de tudo, se posicionar em relação a isso é condição de base do trabalho do mediador que se pensa do lugar do cuidado e da atenção a zona das intencionalidades. Afinal de contas, o mediador está serviço exatamente do quê mesmo?
                   
Referências:
   1. Teoria ator-rede e psicologia. Prefácio. Fabiana Bruno, 2010.
   2. Educação pelos meios de comunicação ou produção coletiva de comunicação na perspectiva da educomunicação. Grácia Lopes Lima. 2009.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

A Internet que queremos ou dos processos de concepção de um site


A Internet é uma rede de múltiplas camadas, de múltiplos níveis de tecnologias que dialogam entre si e criam um cenário de interoperabilidade de sistemas que permite possibilidades de comunicação e interação entre pessoas como nenhuma outra tecnologia antes sequer imaginou realizar. Ao permitir múltiplas camadas, a rede cria condições para que muitos modos de entender e produzir redes possam conviver. O comércio com suas necessidades de novas estruturas de venda e circulação de produtos, a indústria com sua necessidade de novos modos de produzir gestão ágil e descentralizada sem perder o controle de seus meios de produção, o governo com suas demandas de presença e manifestação em diversos territórios, sejam eles físicos ou imateriais, por onde sua regulação exerce efeitos e determina as regras dos jogos de convivência burocrática, os movimentos ativistas com a necessidade de divulgação de suas causas e de articulação de pessoas.

A Internet é rede de redes, é tecnologia que viabiliza circulação e dispersão de fluxos e, ao mesmo tempo, controle desses mesmos fluxos. É campo de apropriação e exercício de produzir formas de relação que façam sentido às demandas e necessidades de diferentes modos de organização social que podem ser produzidas pelas pessoas. É campo de influência, tecido de escritas de diferentes versões dos fatos, disputando espaços, colaborando em ações, dissolvendo fronteiras e produzindo limites. É massa de moldar zonas de interferência e produzir espaços que auxiliem na construção de sentidos restritos ou coletivos, sempre dependendo do olhar de quem vê e do modo como se relaciona.
Partindo dessa visão, a produção de um site, assim como seu próprio processo de concepção, é um ato de escrita, um ato de afirmação de valores que ultrapassam os limites dos dizeres técnicos e tecnicistas. A produção de um site é um evento político, entendendo por política a arte ou ciência da organização que pretende reger e regulamentar as formas de relação possíveis e imagináveis no contexto onde esse site irá operar. Por isso, ato de escrita, ato de atestação de valores, parâmetros e princípios de um grupo. Nesse caminho, a construção do site envolve necessariamente discutirmos a rede que queremos, a internet que desejamos refletir e os modos de organização que ampliem, sistematizem e facilitem as formas de relação que desejamos aqui constituir.
Sendo, portanto, o site o reflexo de um conjunto de princípios que ditam modos de fazermos redes, gostaríamos de aqui descrever esses modos e como eles têm influenciado em nosso processo de concepção do site do programa +Telecentros.

  1. A rede é espaço de encontro:
    A rede é espaço de aproximação entre pessoas, é local de encontro, é espaço onde o imaginário habita quando o contexto convoca e a presença é possível. É local onde encontrar a presença alheia amplia possibilidades de interação.
  1. A rede é espaço de conversa:
    A rede é espaço de conversação, de trocas de impressões, de compartilhamento de sentidos, de construção em andamento contínuo, do inacabado que se torna elemento de diálogo, de troca de impressões e de produção coletiva. A rede é ambiente e caminho onde as impressões se recombinam e dissolvem, entremeadas de links, pontos de contato e divergência.
  1. A rede é espaço de versões:
    A rede é espaço de diferentes visões e versões do que se encontra em produção. Como dissemos acima, é espaço do inacabado, é espaço de anotações, de retalhos de ideias e possibilidades de ideias. É local para documentar o que convoca a escrita, o que mobiliza o sentido sem a necessária preocupação de apresentar sentidos acabados. Sendo espaço de infinitas possibilidades de combinação, disponibilizar versões na rede é aumentar as chances de encontro com o outro quando um filtro de busca cria os enlaces e viabiliza novos vínculos.
  1. A rede é espaço de conflito:
    A rede é também espaço de desencontros. É espaço de explicitação de valores, de definição de campos que desejam criar marcas, que desejam dizer de limites, que desejam expressar discordâncias e mostrar que outros modos são possíveis. A rede é também máquina de articulação de opostos, de força vibratória que tensiona e distende nós de sentido.
  1. A rede chega até você:
    A rede não é feita de computadores, mas sim de pessoas. As máquinas, os protocolos e programas de computadores criam o campo de interconectividade e interoperabilidade de sistemas, permitindo que diversas tendências da indústria em termos de tecnologia e modos de produção econômica possam trocar informações e compartilharem dados. No entanto, a rede estabelece links pelos desejos das pessoas, a rede expressa em seus nós, em seus movimentos de centralidade e descentralização os modos como as pessoas se recombinam em grupos, comunidades e movimentos de expressão. A rede é articulada pelos e-mails, pelos links das redes sociais, pelos sms de telefones móveis, pelos encontros em espaços de formação, pelas vozes em seus múltiplos meios de expressão.
  1. A rede é livre:
    A rede não pode ser condicionada por nenhuma estrutura organizacional que pretenda definir seus rumos dado que ela é composta de pessoas. A hierarquia organizacional influencia a forma das redes, mas estas lhe escapam, criando novos vínculos, se apropriando de novos espaços de conversa onde sejam menos vigiadas. A hierarquia nas redes livres é nó de influência, mas não define centro e o tom dos fluxos em circulação. A hierarquia dialoga, circula e opera a partir de novas condições de conversa que se viabilizam na construção de sentido coletiva. A velha hierarquia sufoca as redes livres, eliminando o que a rede possui como condição fundamental de ser rede: as novas condições de possibilidades e combinações que sua estrutura permite.
  1. A rede é espaço político:
    A rede guia e é guiada, a rede influencia e é influenciada, a rede promove e é promovida. A rede, enquanto modo de organização de pessoas, define um campo político, define regras, condições, formas de relação que buscam viabilizar condições de relacionamento entre pessoas. A forma como a rede opera explicita suas escolhas como política relacional, o que lhe é permitido e o que lhe é negado.
Esses sete princípios definem desejos e condições que influenciam o modo como um pode ser concebido. Porém, são princípios que extrapolam os limites do próprio site, apontando para modos de produção de redes que buscam construir redes livres, abrindo brechas de expressão, espaços de conversa e novos caminhos que só podem surgir quando as regras do campo surgem da inteligência coletiva, bem ali onde a multidão forma bando e os burburinhos tecem diálogos em meio a produção de um novo modo comum. 

segunda-feira, 23 de maio de 2011

a dança da linguagem

Uma pergunta vem me provocando movimentos interessantes já alguns semanas que, por sinal, tem sido bastante inquietantes exatamente por isso. Pense num sistema de informação projetado com a intenção de conectar pessoas e não somente automatizar determinados processos por dentro de um conjunto de regras e interações previamente desenhadas, um blog por exemplo. O quanto o sistema influencia, limita as condições de apropriação e invenção de usos desse sistema e o quanto isso se torna uma questão menor quando consideramos que é o contexto, o sentido de uso que convoca a uma maior ou menor utilização de um ambiente informacional?

Ora entendo que a usabilidade, o design gráfico, a linguagem visual, estética tem uma força de atração, de comunicação criando um campo por onde meu pensamento percorre dialogando com formas, objetos, espaços, relações que podem ser estabelecidas, caminhos a serem percorridos, entradas, saídas, pontos de parada. Sem dúvida, esses objetos não são neutros, influenciam de alguma maneira minha experiência, talvez tanto quanto posso dizer que gosto menos ou mais de uma determinada forma, de uma pintura na parede, de uma escultura ou os traços de uma pessoa que se move em pleno campo do meu imaginário.

Ora entendo que, quando se trata de estabelecer uma boa conversa, importa muito pouco se estamos num boteco da esquina, numa passagem repentina por entre os corredores do trem urbano, num esbarrão em meio a Avenida Paulista ou sentados num toco com chão de terra batida e um copinho de café mareando no canto de na boca como tira gosto. A sensação que tenho é que faz pouca diferença quando minha intenção é estar com alguém, é encontrar algo que não se expressa pelo ambiente ao meu entorno, mas sim pela relação que desejo estabelecer com algo ou alguém.

Há uma diferença entre a tal usabilidade e a boa conversa. A primeira presume uma certa experiência que se quer compartilhar, um certo movimento intencional que se deseja comunicar com o máximo de eficiência possível, pois se trata de um caso de sucesso quando as pessoas de fato percorrem os fluxos informacionais da maneira que imaginávamos e realizam suas tarefas com alto grau de eficiência. É um ponto a se considerar. A segunda, a tal da boa conversa, me parece que inverte muito dessa lógica, pois ela cria caminhos por dentro do fluxo informacional, ela cria o próprio fluxo informacional em busca de atender a um chamado que me convoca. A força do querer estar presente muda tudo.

Acontece que esse jogo entre motivação, informação e apropriação de espaços se expressa no campo informacional através da linguagem, criando uma dança interessante de se dar conta quando paramos algum tempo para analisar esses tais sistemas informacionais. Ocorre que é a linguagem que entrega as muitas das estratégias.....

Mas, como perceber e visualizar isso? Como usar isso como um recurso disparador de conversas entre nós?
É aí que tem alguns aspectos bem interessantes para refletir sobre essa relação de redes sociais, estrutura, dinâmica, controle e liberdade.

Mas, o lance que me interesse aqui é como dar forma, ontologia móvel, para conversarmos sobre. É?