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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

De cara nova...

Retomar esse espaço é muito mais do que apenas atualizar as informações e retomar o velho hábito de documentar o que tenho feito, pensado e experimentado por esse mundão.

Retomar esse espaço nesse ano significa um tanto a mais.
Significa se dispor a ocupar este blog de uma forma um pouco mais crítica e com um desejo maior de não apenas relatar, mas de detalhar e explicitar o que tenho feito e os modos como tenho feito.

Abrir o espaço para contar das pesquisas, dos seus objetivos, do que tem me motivado e como tenho lidado com isso.  Abrir o espaço para contar o que tenho lido, como tenho lido e o que pretendo fazer com isso. Abrir o espaço para dizer do que me impacta na relação com o mundo, com as notícias e com as possibilidades que vejo de reinterpretar e criticar o que leio.

Enfim, em 2014 experimentar, em muitos sentidos, uma outra relação consigo mesmo que se expressa por aqui numa outra relação com a própria informação.

Que o corpo tenha fôlego, que os olhos tenham brilho e que a alma se permita a mais esse passo. Que assim seja. ;-)

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Para além da inclusão sócio-digital: dos jogos de mercado como objetos de política pública



A palavra inclusão aparece como referência constante em diversas formas de descrição e apresentação de programas, projetos e experiências na política pública de forma praticamente unânime entre os mais diversos entendimentos e posicionamentos das chamadas políticas sociais. Aparecendo, de forma geral, com o sentido de incluir àqueles que não tem acesso a determinados bens materiais, serviços e identificação nas máquinas de governabilidade públicas e privadas, seja por falta de alcance dos mecanismos e possibilidades de articulação das estruturas políticas em ação ou seja pelo entendimento de que as estruturas que fornecem acesso não devem ser geridas pelo própria máquina pública, a inclusão serve como conceito que abre um campo de atuação e serve como critério de análise do que pode estar dentro ou fora.

Visto dessa forma, a inclusão se torna conceito operatório de produção e entendimento do que deveria balizar e sustentar as condições de aplicabilidade de uma política pública. Em outras palavras, se a política é inclusiva, ela dá acesso a determinados valores e modos de vida que entendemos serem necessários para sustentar a condição social ideal visualizada pela política em operação. Se a política não é inclusiva, ela segmenta, classifica, filtra, escolhe favorecer e empoderar aqueles que aparentemente já estão inseridos nas redes de circulação dos serviços e bens ofertados pelas máquinas da governabilidade. O critério que esse conceito operatório facilmente coloca à vista é qual o corte do que se entende por incluído e por excluído, que métodos de medição e análise são utilizados por uma política para operar essa divisão, entendendo que essa divisão explicita uma escolha, um campo de atuação e, sobretudo, intervenção que a política em questão se propõe a lidar. É a possibilidade de análise dessa segmentação e dos critérios atrelados a ela que nos permite reposicionar a questão sobre o conceito de inclusão e como ele vem sendo utilizado em nossas políticas públicas em vigência atualmente.
Vale aqui explicar, clareando algumas pré-condições como ponto de partida para a breve análise que aqui se estabelece, que o título desse artigo inclui a palavra “digital” na relação com inclusão social com uma intenção clara no que se refere a dimensão digital como mais um espaço, um universo e um campo de produção de diferentes formas e tipos de sociabilidade. Entende-se, desse modo, que essa dimensão é vista como um espaço de relacionamento humano que pode e é visto por determinadas políticas públicas como campo de intervenção e presença das máquinas de governabilidade que colocamos aqui em análise. A inclusão digital é vista aqui como o acesso a esse espaço de relacionamento humano, a esses canais e redes de interação, apenas acessíveis pelo uso de determinadas tecnologias, que constroem e pautam fluxos de comunicação, bens materiais e imateriais, serviços, formas de ativismo, atravessando e sendo atravessado pelas outras tantas dimensões de sociabilidade nas quais se percebem os espaços de relacionamento humano. O conceito, os critérios do que está dentro e do que está fora, além das formas de operação que a expressão “inclusão” fornece à ação de uma política pública permitem intervir também através do digital como espaço de governabilidade, sobretudo, daquilo que se entende como uma ação social proposta por uma política.
Mais do analisar a questão do digital, se pretende aqui analisar a questão da inclusão como modo de intervenção no social. Bruno Latour (2012) resgata a etimologia da palavra “social” explicitando com mais clareza sobre o quê incluir ou não incluir está se falando aqui.

A etimologia da palavra “social” em si é bastante instrutiva. A raiz é seq-, sequi, e a primeira acepção é “seguir”. O latim socius denota um companheiro, um associado. Nas diferentes línguas, a genealogia histórica da palavra “social” designa primeiro “seguir alguém” e depois “alistar” e “aliar-se a”, para finalmente exprimir “alguma coisa em comum”. (…) “Social” como em “problemas sociais” ou “questão social” é uma inovação do século 19. O vocábulo paralelo “sociável” alude à capacidade que tem o indivíduo de de viver polidamente em sociedade” (Latour, 2012, pag. 24).

Mas, que coisa em comum é essa e que nível de inserção é esse que permite viver polidamente em sociedade? Como surge a questão social como um espaço de intervenção que dá condições e sustenta o surgimento de um sem número de políticas públicas, logo, estratégias de governabilidade? De que modo incluir tem a ver com condicionar modos de vida e inserir em fluxos de operação da máquina governamental já conhecidos, sustentando e sendo sustentados por condições que mantém as ordens dominantes instauradas?
Há uma forma de pensamento que vale aqui explicitar, mesmo que de forma esquemática e reducionista, com a intenção de colocar de modo mais claro que relação é essa entre “inclusão”, “social” e “governo” que está posta nesse espaço de análise que se estabelece. Inclusão vem sendo aqui descrita como um conceito operatório que viabiliza determinadas políticas públicas, permitindo estabelecer critérios do que está incluído e do que deve ser objeto de atuação do governo para promoção da inclusão. Logo, o governo atua, de certa forma, intervindo nessa “questão social” com o objetivo de pautar determinadas condições de vida em sociedade. Que condições são essas?
Tendo estabelecido aqui alguns princípios de entendimento do conceito “inclusão” e “social”, vale aqui avançar um pouco mais conceituando como se pode entender o conceito de “governo” para tocarmos em algumas das questões que foram aqui levantadas.

... governo, aqui, é um modo de conceitualizar todos aqueles programas, estratégias e táticas para a condução da conduta, mais ou menos racionalizados, para agir sobre as ações dos outros de maneira a alcançar certos fins. Nesse sentido, pode-se falar em governo de um navio, de uma família, de uma prisão ou fábrica, de uma colônia e de uma nação, assim como de um governo de si” (ROSE, 2011, pag. 25).

Chega-se aqui a um ponto interessante de posicionamento desses conceitos. Governa-se para agir sobre os outros, para conduzir conduta. O sociável e a questão social torna-se campo de intervenção, modo de atuar para induzir e promover determinados tipos de conduta e modos de ação desejados. Incluir torna-se modo de produzir políticas públicas que tenham por intenção estabelecer critérios do que está dentro e do que está fora desses modos de sociabilidade polidos e desejados pelo governo das condutas.
No entanto, essa governança de conduta não acontece nos tempos em que vivemos de modo aleatório. Vive-se sob a influência de um tipo de racionalidade fundamentalmente influenciada por questões de fundo econômico e financeiro. Os parâmetros de renda e padrões de consumo servem de critérios de regulação de inúmeras formas do que condiciona os modos de vida e espaços de sociabilidade por onde os seres humanos interagem e se produzem mutuamente. O que serve de critério entre incluído e excluído se baseia diretamente nos indicadores econômicos que categorizam as diferentes classes, comunidades e formas de segregação.
Buscando entender como o jogo econômico pauta as formas de governo atuais, Foucault (2008b) deixa claro o que define esse critério do incluído/excluído que aqui se coloca em evidência.

Ora, essa ideia de que deve haver uma regra de não-exclusão e de que a função da regra social, da regulamentação social, da seguridade social no sentido amplo do termo deve ser a de garantir pura e simplesmente a não-exclusão de um jogo econômico que, fora disso, deve se desenrolar por si mesmo, é essa ideia que é aplicada, esboçada em todo caso, em toda uma série de medidas mais ou menos claras” (FOUCAULT, 2008b, pag. 278).

Logo, as políticas de inclusão, sejam elas a partir dos espaços do digital ou não, vistas dessa forma tornam-se estratégias de um governo visando a inserção das condutas por dentro desse jogo econômico, entendendo que uma vez inseridas no jogo o próprio jogo têm condições de se regular, operando a partir de estratégias que deixam de serem espaços de atuação do governo para serem espaços de atuação do mercado. Criar condições de consumo, criar condições de se posicionar em algum lugar no jogo econômico é, portanto, posicionar as bases dos modos de vida que essa governança de condutas pretende estabelecer. Garantir que o espaço de liberdade seja o espaço de liberdade do mercado, ou seja, que a liberdade se dê a partir das regras de funcionamento e dos contornos estabelecidos pelo mercado é garantir a eficácia e os critérios de sucesso das políticas de inclusão, melhorando níveis de renda e condições de inserção num jogo para o qual o próprio governo foi pensado e construído para manter.
É disso que se trata, em sua grande maioria, as políticas públicas de inclusão produzidas no âmbito de governos constituídos como neoliberais, sendo sustentados e mantidos como condições de existência e garantias da liberdade dos próprios mercados que os produzem. Se a possibilidade de livre comércio é o interesse maior no jogo de interesses do que está em disputa, o papel do governo é garantir que ele ocorra, produzindo condições para que se amplie nas esferas em que ainda não atua, incluindo no “social” os que estão fora do jogo.
Vale dizer que aqui não se coloca um juízo de valor explícito, afirmando que esse modo de entender os conceitos que analisamos defina essas políticas como negativas ou num sentido depreciativo qualquer. Ao contrário. O que aqui se objetiva é estabelecer alguns critérios de análise para que se perceba com um pouco mais de clareza o que de fato parece estar em jogo. É apenas entendendo como tem se produzido esses espaços de atuação que temos melhores condições de se ver dentro do próprio jogo, percebendo que papel ocupa, que discurso sustenta e se esse discurso parece operar políticas em direção ao que de fato desejamos ou a um jogo econômico que talvez ainda não se tenha percebido como o que tem regulado os modos de vida e fazer político atuais.
Logo, já encaminhando para algumas ainda breves conclusões que tiramos dessas relações estabelecidas, falar de questões como empoderamento coletivo, constituição de sujeitos autônomos e a possibilidade de produzir espaços de co-gestão é falar de outros jogos que parecem não dialogar e serem compatíveis com essa busca contínua da eficácia financeira e econômica desse modo de governar. Além disso, é falar de outras possibilidades que criem condições e funcionem como outros modos de operar política que não a visão da inclusão nos jogos de mercado.
É novamente Foucault (2008a) que parece dar pistas interessantes de posicionamento do olhar para além desse jogo:

Então, frente a essa política global do poder se fazem revides locais, contra-ataques, defesas ativas e às vezes preventivas. Nós não temos que totalizar o que apenas se totaliza do lado do poder e que só poderíamos totalizar restaurando formas representativas de centralismo e de hierarquia. Em contrapartida, o que temos de fazer é instaurar ligações laterais, todo um sistema de redes, de bases populares” (FOUCALT, 2008a, pag. 74).

É para além dos jogos de mercado, para além da economia como critério que determina modos de relacionamento e condiciona modos de vida que outros níveis de pensamento abrem espaço e permitem operar em estruturas de representatividade que não reproduzam essas formas de centralismo e hierarquia que são as condições de base da própria existência dos modos de governabilidade atuais. É por outro caminho que deslocamos essa racionalidade e abrimos espaço para outras formas. É por outras condições de relação, onde os posicionamentos se lateralizam, onde o coletivo opera como aquele que constrói contorno, que define seu espaço e se vê como agente de seu próprio modo de vida que outras redes são possíveis, que outros fluxos de interação podem ser pensados. E nisso, sem dúvida, a dimensão do digital pode colaborar na produção de outros jogos de relacionamento, não como condição de partida, mas como condição de apropriação de uma racionalidade que lhe antecede e opera por outros valores.

Referências
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Graal. 26ed. 2008a. 295p.
FOUCAULT, Michel. Nascimento da biopolítica. Martins Fontes. 2008b. 474p.
LATOUR, Bruno. Reagregando o social: uma introdução à teoria do Ator-Rede. Edufba/Edusc. 2012. 399p.
ROSE, Nikolas. Inventando nossos selfs: psicologia, poder e subjetividade. Vozes. 2011. 308p.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O olhar adulto


Excelente dica da Pat, na lista de editores da Rede Humaniza SUS:

Foi ele mesmo que me contou, como confissão de cegueira, dando depois permissão para que eu relatasse o milagre desde que não revelasse o santo. Médico, chegou a seu consultório com seus olhos perfeitos e a cabeça cheia de pensamentos. Eram pensamentos graves, cirurgias, hospitais, e os doentes o aguardavam na sala de espera.
Entrou o primeiro paciente que se submeteu mansamente à apalpação médica. Terminada a consulta, escrita a receita, no ato da despedida ele fez um elogio: “Doutor, que lindas são as orquídeas na sua sala de espera!”
Meu amigo sorriu embaraçado, com vergonha de dizer que não havia notado orquídea alguma na sala de espera e que, portanto, não sabia da beleza que o doente notara. Teve vergonha de revelar a sua cegueira. Entrou o segundo paciente. Ao final da consulta, sem conseguir conter o que sentia, observou: “São maravilhosas as orquídeas na sua sala de espera, doutor!” Novamente o sorriso amarelo, sem poder dizer o que não sabia sobre as orquídeas que não havia visto.
Veio o terceiro paciente e a coisa se repetiu do mesmo jeito. Aí o doutor deu uma desculpa, saiu da sala, e foi ver as orquídeas que o jardineiro colocara na sala de espera. Eram, de fato, lindas. Mas aí veio o agravante, pois o paciente, não satisfeito com a humilhação imposta ao doutor cego, observou que, na semana anterior, a árvore dentro da sala de consulta, plantada num vaso imenso, num canto, não era a mesma que ali estava, naquele dia. Mas o doutor cego de olhos perfeitos não notara a presença de árvore naquele dia nem a presença da árvore na semana anterior...
Ah! Você espera que tal cegueira possa existir! Mas eu lhe garanto que é assim que funcionam os olhos dos adultos em geral.
Lá vão pelo caminho a mãe e a criança, que vai sendo arrastada pelo braço – segurar pelo braço é mais eficiente que segurar pela mão. Vão os dois pelo mesmo caminho, mas não vão pelo mesmo caminho. Blake dizia que a árvore que o tolo vê não é a mesma árvore que o sábio vê. Pois eu digo que o caminho por que a mãe anda não é o mesmo caminho por que anda a criança.
Os olhos da criança vão como borboletas, pulando de coisa em coisa, para cima, para baixo, para os lados, é uma casca de cigarra num tronco de árvore, quer parar para pegar, a mãe lhe dá um puxão, a criança continua, logo adiante vê o curiosíssimo espetáculo de dois cachorros num estranho brinquedo, um cavalgando o outro, quer que a mãe também veja, com certeza ela vai achar divertido, mas ela, ao invés de rir, fica brava e dá um puxão mais forte, aí a criança vê uma mosca azul flutuando inexplicavelmente no ar, que coisa mais estranha, que cor mais bonita, tenta pegar a mosca, mas ela foge, seus olhos batem então numa amêndoa no chão e a criança vira jogador de futebol, vai chutando a amêndoa, depois é uma vagem seca de flamboyant pedindo pra ser chacoalhada, assim vai a criança, à procura dos que moram em todos os caminhos, que divertido é andar, pena que a mãe não saiba andar por não ter os olhos que saibam brincar, ela tem é muita pressa, é preciso chegar, há coisas urgentes a fazer, seu pensamento está nas obrigações de dona de casa, por isso vai dando safanões nervosos na criança, se ela conseguisse ver e brincar com os brinquedos que moram no caminho, ela não precisaria fazer análise...
A mãe caminha com passos resolutos, adultos, de quem sabe o que quer, olhando pra frente e para o chão. Olhando para o chão ela procura as pedras no meio do caminho, não por amor a Drummond, mas para não dar topadas, e procura também as poças d’água, não porque tenha se comovido com o lindo desenho do Escher de nome Poça D’água, uma poça de água suja na qual se refletem o céu azul e os ramos verdes dos pinheiros, ela procura as poças para não sujar o sapato. A pedra do Drummond e a poça de água suja do Escher os adultos não vêem, só as crianças e os artistas...
A mãe não nasceu assim. Pequenina, seus olhos eram iguais aos do filho que ela arrasta agora. Eram olhos vagabundos, brincalhões, que olhavam as coisas para brincar com elas. As coisas vistas são gostosas, para ser brincadas. E é por isso que os nenezinhos têm esse estranho costume de botar na boca tudo o que vêem, dizendo que tudo é gostoso, tudo é para ser comido, tudo é para ser colocado dentro do corpo. O que os olhos desejam, realmente, é comer o que vêem. Assim dizia Neruda, que confessava ser capaz de comer as montanhas e beber os mares. Os olhos nascem brincalhões e vagabundos – vêem pelo puro prazer de ver, coisa que, vez por outra, aparece ainda nos adultos no prazer de ver figuras. Mas aí a mãe foi sendo educada, numa caminhada igual a essa, sua mãe também a arrastava pelo braço e, quando ela tropeçava numa pedra ou pisava numa poça d’água, porque seus olhos estavam vagabundeando por moscas azuis e cachorros sem-vergonha, sua mãe lhe dava um safanão e dizia: “Olha pra frente, menina!”
“Olha pra frente!” Assim são os olhos adultos. Olhos não são brinquedos, são limpa-trilhos. Servem para abrir caminhos na direção do que se deve fazer. Assim eram os olhos daquela minha amiga que os usava para cortar cebola sem cortar o dedo, até que, um dia, o olho que morava dentro dos seus olhos se abriu e ela viu a beleza maravilhosa do vitral translúcido que mora nas rodelas de todas as cebolas, e ela tanto se espantou com o que via que pensou que estava ficando louca.
Coitados dos adultos. Arrancam os olhos vagabundos e brincalhões de crianças e os substituem por olhos ferramentas de trabalho, limpa-trilhos. Asssim eram os olhos daquele meu amigo médico: não viam nem as orquídeas nem as árvores que estavam dentro do seu consultório. Seus olhos eram escravos do dever. E ele não percebia que as coisas ao seu redor eram brinquedos que pediam aos seus olhos: “Brinquem comigo! É tão divertido! Se vocês brincarem comigo, eu ficarei feliz, e vocês ficarão felizes...”

Rubem Alves

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Ouvi dizer que me acusaram



Ouvi dizer que me acusaram de tentar destruir instituições;

Mas, de fato, não sou favorável nem contrário as instituições,

(Que tenho em comum com elas? ou com a sua destruição?);

Desejo apenas estabelecer em Manhattan e em todas as cidades destes Estados, no interior, no litoral,

E nos campos e nos bosques, e nas quilhas pequenas ou grandes que chanfram as águas,

Sem edifícios, ou regras, ou curadores, ou qualquer argumento,

A preciosa instituição do amor entre camaradas.
 
Walt Whitman

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Algumas razões pelas quais a modelagem de sistemas complexos ainda vai nos levar a um outro nível de compreensão do mundo

Buscando na web por esses dias achei um texto fantástico, bem escrito e de fácil compreensão sobre as mútiplas portas no conhecimento e na visão de mundo que a modelagem de sistemas complexos abre para os imaginários humanos.

De tão bom, resolvi reproduzir aqui um bom trecho desse documento, que veio do documento que institui o programa de pós-graduação em modelagem de sistemas complexos da Usp Leste.

" Embora não exista uma definição ampla consensual, Sistemas Complexos são identificáveis por exibir comportamentos que têm sido sistematicamente enumerados pela literatura nos últimos vinte anos1, detalhados na lista não-exaustiva apresentada a seguir: emergência, transições de fase, universalidade, adaptabilidade, auto-referência, auto-organização, imprevisibilidade, padrões de interação com regularidades não-triviais, causas múltiplas com efeitos não-lineares e invariância em escala.

1. Emergência: Um fenômeno é emergente quando surge como resultado da interação dos elementos constituintes do sistema e não pode ser descrito somente em função das características isoladas de tais constituintes. O estado de agregação de moléculas de água, por exemplo, é uma propriedade emergente: uma molécula de água não pode ser definida como sólida, líquida ou gasosa, pois são propriedades que podem caracterizar somente agregados de moléculas de água, dada a interação. O sistema de preços de uma economia constitui outro fenômeno emergente, pois é resultado da interação entre agentes de mercado. Da mesma maneira, uma comunidade com suas instituições, língua e cultura é um fenômeno emergente, sendo resultado da interação de indivíduos e grupos de indivíduos.

2. Transições de fase: Mudanças nas estatísticas de um sistema, dadas mudanças em parâmetros de controle, são denominadas transições de fase, que podem ser contínuas ou descontínuas. Assim, por exemplo, as propriedades coletivas (estatísticas) da água mudam abruptamente de acordo com temperatura e pressão. Outro exemplo é a mudança observável em estatísticas de violência de acordo com parâmetros controláveis por meio de políticas públicas.

3. Universalidade: Detalhes do comportamento dos constituintes de um Sistema  Complexo freqüentemente não são importantes para o comportamento agregado (médio). A densidade de gases diferentes, por exemplo, como oxigênio, metano, argônio, neônio e monóxido de carbono, variam; exceto por fatores de escala, de forma idêntica com a temperatura. O mesmo ocorre com a distribuição de alturas, pesos e pressão arterial em uma população, ou a distribuição de votos entre candidatos em eleições. Observa-se, também, que a distribuição de tamanhos de firmas ou flutuações no mercado financeiro possuem um padrão comum, que pode ser, então, considerado universal.

4. Adaptatividade: A capacidade de modificar o próprio comportamento de acordo com mudanças no ambiente é uma característica comum em sistemas biológicos e socioeconômicos. Assim, firmas respondem às mudanças no mercado, indivíduos aprendem com a experiência, ou células sintetizam proteínas de acordo com a concentração citoplasmática de reguladores.

5. Auto-referência:
Sistemas Complexos, em particular sistemas socioeconômicos, respondem aos resultados de suas próprias ações. Por exemplo, previsões econômicas podem produzir comportamentos que, conseqüentemente, resultam justamente na concretização das previsões. Por exemplo, se os agentes esperam que o nível geral de preços aumente, podem desejar proteger-se antecipando os efeitos da ocorrência da inflação, corrigindo os preços para cima.

6. Auto-organização: Interações locais produzem ordem em escala global. Exemplos típicos são o comportamento de pedestres e a cadeia produtiva em uma economia de mercado.

7. Imprevisibilidade:
Mesmo quando regido por equações inteiramente determinísticas, o comportamento de um sistema complexo pode ser imprevisível. Alguns exemplos clássicos são o clima, a dinâmica de populações e as séries temporais biológicas. O mesmo tipo de fenômeno pode ser observado em sistemas socioeconômicos, na forma, por exemplo, de choques de oferta no mercado mundial, como ocorreu no caso do petróleo nos anos de 1973 e 1979.

8. Redes complexas:
Sistemas Complexos apresentam padrões de interação que não são inteiramente regulares (como casas de um tabuleiro de xadrez), nem inteiramente irregulares (como traços aleatórios). Em geral, redes de relações se auto-organizam localmente, de maneira aparentemente aleatória; no entanto, apresentam uma ordenação global. Redes complexas apresentam alguns poucos nós com muitas conexões e diversos outros nós com poucas conexões, apresentam distâncias médias entre nós reduzidas, que redundam em uma capacidade de influência maior do que aparentam. Exemplos de redes complexas são relações sociais, interesses acadêmicos, cadeias alimentares, rotas aéreas, cidades conectadas por estradas, links em páginas da internet, relações comerciais e proteoma celular.

9. Causas múltiplas e efeitos não-lineares: Em fenômenos socioeconômicos e biológicos, as causas dos fenômenos são, em geral, múltiplas e interativas entre si. Uma pequena variação em uma ou mais das causas pode redundar em uma grande mudança nos efeitos observados. Técnicas estatísticas que suponham comportamentos lineares dos sistemas não são capazes de lidar corretamente com algumas ou ambas características.

10.Invariância em escala: Padrões complexos podem ser obtidos pela aplicação repetida de regras simples em escalas diferentes (temporais ou espaciais). Os exemplos de invariância em escala são alvéolos pulmonares, distribuição de rendas altas, tamanho de cidades e população de cidades."






Olhar para os sistemas, pensar em possibilidades de análise e mesmo de produção de novos modos de relação e conversação que levem esses 10 elementos em consideração me parece uma forma bastante interessante de experimentar o novo em si. :-)

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Várias faces de uma rede: espaços coletivos como elemento de produção de liberdade

Conversando com uma grande amiga nessa semana ela me perguntou por quê eu achava tão importante promover redes livres nos projetos em que tenho atuado, na maneira de se relacionar e de pensar os modos de atuar.

A conversa foi provocando elementos e me fez revistar algumas apostas dos últimos anos, podendo refinar um pouco a minha própria maneira de dizer isso.

Um resumo de um ponto fundamental da conversa segue aqui, quando estávamos falando sobre como tinha sido a atuação dos Metáforas em relação ao que tínhamos tentado fazer dentro do Ministério da Cultura:

então, aí voltamos para a nossa conversa de ontem
16:34 percebi que eu tenho uma coisa mal expicada, fundamentada, uma espécie de "fé na rede"
  acredito que a ação colaborativa pode fazer emergir coisas novas
  e, aí o truísmo, boas
  a rede, por si só, não faz nada bom ou ruim
 eu: sim, total
16:35  tem que ter um complemento nessa "fé na rede'
  qual é?
 eu: a rede é apenas a manifestação de uma possibilidade de contato
  heheheheheh
  nova igreja dos pastores da conexão!
  mas, é mais fundo sim
  total
  a rede pela rede num diz nada
  mas, ela é uma das condições para se trabalhar agenciamentos coletivos
16:36 que são pautados por uma maneira de ver/entender/praticar política
  no caso do minc, a nossa bandeira era redistribuir grana para potencializar as ações na ponta
  com o menor número de intermediários possível
  quebrando a ideia clássica de centros-culturais como intermediários do $ do gov investido em cultura
16:37 então, a ação hacker era entrar no MinC para abrir esse espaço, conectar o máximo possível as pessoas para compartilharem suas possibilidades criativas, buscando empoderar e fortalecer os movimentos culturais a partir de sua articulação em rede
  propondo que: se encontrando, a gente entende melhor os problemas que tem e pode se articular melhor para conseguir encaminhar nossas demandas
16:38 sejam elas criativas, sejam elas políticas
  se é que a separação nisso....  O ponto forte disso é perceber que as redes são pré-condições para ampliarmos o potencial de articulações, agenciamentos políticos e, sobre tudo, ter um espaço onde a ideia que faço das coisas é enlaçada por tantas outras e meu efeito de acreditar em minhas próprias verdades pode ser atenuado, criando espaço para que entre em contato com outras formas de pensar e me produzir no mundo.  Não deixa de ser isso a experiência que temos buscado desenvolver nos projetos por onde temos passado...  E só para ilustrar, segue abaixo algumas das faces de uma dessas redes em construção, a Telecentros.BR:    

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Artefatos, místicas e formas de pensar

Não creio que seja muita novidade entendermos que não fomos "treinados" na nossa cultura, no sistema educional, político, familiar bla bla bla para pensar diferente de formas lineares de entender as coisas. É praticamente "natural" analisarmos as coisas buscando relações de causa e efeito: se isso aconteceu, aquilo deve ter acontecido; se está desse jeito, é por culpa de tal coisa; se fizermos isso, vai rolar aquilo.

Criticar essa forma também não é algo novo. Muitos livros têm sido escritos, experiências, projetos, filosofias. De fato, no meu entender, estamos ainda no início da desconstrução: o novo tá visível como potencial, como possibilidade, ainda longe de se transformar em modo "natural" de pensar, pautando a maneira que nos organizamos e nos relacionamos. Ainda estamos longe disso.

Até aí, tudo bem. Há pouco a se fazer, a não ser aprofundar a crítica, analisar as possibilidades, experimentar, buscando sinalizar o novo na crença/aposta de que novas e novas gerações vão chegar, constituindo uma nova cultura, deslocando o velho e produzindo o novo. A vida que muitos de nós gostaríamos de viver, ao menos aqueles que estão se dando conta disso e percebendo os próprios limites no modo de fazer as coisas, não será experenciada em plena potência-contágio-coletivo nos tempos atuais. Somos o povo da romaria, somos o povo da migração, somos o povo que levanta poeira e busca construir um caminho por onde passar.



Lidar com isso é apenas uma condição de contorno, todavia. Há tantas brechas a serem exploradas, há tanto por se pensar e experimentar a cada dia, que a mente chega a não dar conta de tanta coisa que poderíamos tentar. Começar é um bom começo... ;-)

Tudo para isso para compartilhar uma reflexão que tem ganhado força dentro de mim nas últimas semanas. Algumas pessoas tem me perguntado por quê tenho dedicado tanta atenção, tempo e esforço estudando novos modelos matemáticos de análise de redes, dinâmica de sistemas e sistemas complexos. Acabei me dando conta que falei pouco sobre o que de fato tem ressoado aqui dentro, não na superfície, mas naquele âmago que te faz acordar as 3:00h da manhã e começar a rabiscar no velho caderno antes que a ideia-imagem-forma se esvaia nos abismos de si.

O fato, já eternizado por Einstein, é que para novos problemas precisamos de novos métodos. A vivência dos últimos 10 anos, somada a toda a experiência cultural-religiosa que vivencei nos últimos 7 anos, foi deixando isso gradativamente mais claro.

A dimensão da rede, do se relacionar em rede, da produção coletiva, da comunidade é um campo que ainda estamos de fato apenas começando a entender. Não há nada trivial nisso. Tenho explorado diversos pensadores/experimentadores que têm falado sobre isso e pautado a fronteira do que ainda conseguimos pensar. Gente como Fritojf Capra, Humberto Maturana, Gregory Bateson, Edgar Morin, Weiner Heisenberg, Ilya Prigogine, Pierre Levy, David Bohm, Barabasi, Duncan Watts, Mark Newman, Castells, Foucault, Deleuze, Guattari, Regina Benevides, Edu Passos, Nietzsche, Francisco Varela, sem falar nos aliados do dia-a-dia, Susana Maiani, Regiane, Renata Pudo, Paulinho, Felipe Fonseca, Daniel Pádua, Hernani Dimantas, Ricardo Teixeira, Rogério da Costa, Luiz Algarra, Lu Annunziata, Drica Guzzi, André Benedito, Glauco, Guima, Gus, Naty, Isis, Mari, Moura e por aí vai, são pessoas que têm, de uma forma ou de outra, me dado pistas, dicas e apontado caminhos, sobretudo aquelas que estão se predispondo a vivenciar isso em suas próprias relações.

Mas.... Tem um algo na minha forma de ver as coisas que estrutura a experiência a partir de algum tipo de método. Tenho me dado conta disso nos últimos anos, mas é algo que entendo estar presente desde sempre. O método, para mim, é o princípio, a energia motriz de organização daquilo que com que me relaciono.




Ocorre que o método que tenho utilizado desde sempre é o mesmo método linear que aprendi nos meus anos de estudo formal/convivência com tantas outras pessoas que pensaram assim. Seria pedir que de repente, ao entrar em contato com novas ideias, tudo subitamente mudasse. Não, as coisas são, em geral, um pouco mais complexas que isso.

Tem sido necessário construir um novo modo de pensar, uma nova forma de estruturas as coisas. Essa nova forma precisa incluir muitas dimensões, precisa ser flexível, móvel, dinâmica, ágil, adaptável. Precisa criar espaço para que outros pontos possam ser conectados, permitindo não apenas somar efeitos, mas emergir sensações e sínteses que não seriam possíveis antes.

O ferramental matemático da Teoria dos Grafos, o que de fato fundamenta a análise de redes e parte expressiva do que temos utilizado para o estudo dos sistemas dinâmicos traz essa perspectiva, ao meu modo de entender.

Simplificando ao máximo: é uma das formas modernas de entrar nos fluxos, de se deixar tocar pelas multiplicidades, de entrar no caos das interações, das relações emergentes e voltar de lá com um artefato, um objeto místico-síntese-atrator que tão simplesmente quanto a sua própria existência simbolize um movimento.

Não, não há nada de muito diferente do xamã que entra nos sonhos, nos fluxos da tribo e volta de lá com os totens-tabús produtores de sentido de seu coletivo. Uma nova forma de dar contorno e lidar com a amplitude daquilo que me ultrapassa.

Essa tem sido a motivação dos contornos de um novo modo e, posso garantir, estou ainda bem no começo, mas já começando a esboçar formas um pouco mais interessantes....

domingo, 3 de julho de 2011

Capitão da minha alma

Um bom começo de África do Sul:

"Dentro da noite que me rodeia
Negra como um poço de lado a lado
Eu agradeço aos deuses que existem
Por minha alma indomável.

Nas garras cruéis das circunstâncias
Eu não tremo ou desespero
Sob os duros golpes da sorte
Minha cabeça sangra mas não se curva.

Além deste lugar de raiva e choro
Paira somente o horror da sombra
E ainda assim
A ameaça do tempo vai me encontrar
E deve me achar destemido
Não importa se o portão é estreito
Não importa o tamanho do castigo
Eu sou dono do meu destino
Eu sou capitão da minha alma."

Poema que inspirou e ajudou Mandela a ultrapassar os 27 anos de sua prisão.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Ainda pensando na produção coletiva: da ideia a operação dos grupos

Tenho visto e lido bastante coisa nos últimos tempos sobre a ideia de grupos. O que me atrai nessa discussão é a possibilidade de pensarmos e experimentarmos uma infinidade de modos de nos relacionarmos, podendo analisar com cuidado como esses modos são modelados em cada situação, os resultados que são produzidos e o quanto cada um nos impacta de formas diferentes, em momentos diferentes.

Trabalho de uma vida a pesquisa e a vivência de tantos caminhos que se abrem. Mas, as experiências que facilitam a conversa, que permitem explicitar mais as coisas, que se propõem a se revisitarem continuamente me interessam ainda mais. A questão de fundo é: conseguimos gerar maneiras interessantes de nos relacionarmos como um grupo, de produzirmos coletivamente, de sermos eficientes segundo nossos próprios parâmetros e darmos conta de que esse processo não seja apenas uma utopia de um final de semana?

A ideia de grupos, de comunidades, de redes não tem nada de novo. Temos revisitado isso nas últimas décadas de várias formas diferentes, seja passando pelas experiências dos psicodélicos, seja passando pelas "novas" formas de massificação pelo consumo da ideia de rede.

Existem características similares nas experiências mais interessantes, considerando por interessante o próprio fato das pessoas se sentirem mais felizes, mais empoderadas e mais autônomas ao se relacionarem em grupo?

Depois de caminhar por várias abordagens diferentes, considerando o pessoal da aprendizagem organizacional, psicologia social, emergência, biologia cultural, cultura digital, software livre, movimento hacker, metareciclagem e por aí.... Um elemento me sobressai: quase todos eles mencionam um momento em que as pessoas que atuam como um grupo constroem algum tipo de referencial comum, algum tipo de base de pensamento, algum tipo de objetivo compartilhado que permite que o grupo entenda e se relacione de alguma forma a partir desse elemento que facilita e promove contexto para sua união.


Sem dúvida, esse "esquema de refencial comum" que une o grupo é tão móvel, mutante quanto o próprio grupo. As pessoas mudam, têm compreensões diferentes, atualizam conceitos na mesma velocidade em que atualizam a sua dinâmica corporal e assim o movimento coletivo vão sendo moldado e vai moldando a dimensão onde opera a relação entre as pessoas. 

Muitas experiências não se dão conta disso e esquecem que um dos trabalhos mais fundamentais para o bem-estar do grupo é a contínua atualização desse referencial. Falar dele, ampliar discussões, checar compreensões, explicitar divergências, dúvidas, discordâncias é atuar diretamente nesse invisível que se torna o esquema, mas que mesmo invisível é presente diariamente em nossas conversas, nossos pressupostos e interfere diretamente em nossa capacidade de produzirmos algo em conjunto.

Logo, me parece necessário e fundamental refletir e investir nessa construção e atualização contínua no desenvolvimento de nossos projetos, sejam eles quais forem, desde uma "simples" relação de colaboração entre duas pessoas a uma unidade de governo em nível federal. 

Mas, como fazer isso? Não acredito numa resposta única, nem mesmo numa solução que não parta da integração de muitas formas de operar que busquem revelar e dar visibilidade a diferentes aspectos de um processo coletivo. É um problema complexo, logo, exige uma abordagem complementar, onde conceitos de diferentes áreas, de diferentes práticas possam se encontrar. 

De tudo o que já experimentei em relação a isso, fiz uma pequena síntese daquilo que estou chamando por aqui de dispositivos de produção coletiva ou dispositivos de ativação de redes:

- criação de alguma forma de um Comitê Gestor deliberativo
 Diz da produção de alguma espaço que sirva como um conselho, um comitê, uma roda de decisão onde as questões mais complexas possam ser colocadas, debatidas e encaminhadas.

- realização contínua de reuniões, encontros e seminários
 A organização sistemática de conversas, encontros e seminários onde as pessoas possam trabalhar juntas, rever conceitos e encaminhamento anteriores, tendo oportunidades reais de modificarem os rumos de um processo de trabalho me parece que oxigena e aproveita melhor a inteligência coletiva de um grupo.

- organização dos processos por Grupos de Trabalho
Mas, como subdividir as pessoas, dado que há grupos que podem ser compostos por muita gente? A construção de grupos de trabalho que deveriam surgir de uma demanda de organização de trabalho do próprio grupo e não de um gestor tentando impor sua forma de divisão do trabalho. Grupos de trabalho podem se tornar mais focados em assuntos que são de maior interesse das pessoas que ali se encontram, sabendo que ainda existe um espaço mais geral onde possuem garantidas suas possibilidades de minimamente opinarem no todo.

- construção e documentação coletiva da política de sustentação do grupo
É importante que esse grupo possa produzir periodicamente alguns documentos orientadores que possam servir como um marco referencial de seu estágio de articulação coletiva. Essa documentação pode servir como uma maneira de explicitar a política de regulação do grupo e uma forma mais fácil de introduzir novas pessoas na dinâmica de relação que ali está sendo proposta.

- utilização de tecnologias de conversação presenciais
Nos reunirmos em grupo nem sempre é o mais difícil, mas aproveitar bem nosso tempo com dinâmicas de conversa que possam respeitar o tempo de todos e garantir espaços de participação é um desafio contínuo a nossas tecnologias de conversação. Experiências como Open Space, World Café, Aquário, entre outras técnicas facilitam muito processos de interação dependendo do contexto em que as pessoas se encontram.

- utilização de tecnologias de conversação digitais
Sem dúvida, a web e as infinitas possibilidades de interação que temos no campo digital são elementos que podem facilitar de muitas formas a construção de um grupo. O ponto-chave aqui não está necessariamente no domínio da tecnologia, mas em compreender quais são os recursos em potenciais que temos a nossa disposição e quais são aqueles que podem ser mais úteis em um dado contexto. Não é uma resposta fácil de se chegar, nem tampouco simples de operar. Nos deixamos facilmente seduzir pelas novas tecnologias, novas versões, novas funcionalidades e esquecemos do fundamental: o que queremos é apenas que pessoas conversem com pessoas e possam ter mais elementos para melhor poderem operar em conjunto.

- ativação de comunidades/subgrupos que surjam do refinamento das relações
Para além dos grupos de trabalho, dentro de um grupo podemos nos identificar com mais clareza com determinadas pessoas que executam coisas/processos/áreas/saberes muito semelhantes aos que nós executamos. Dar condições para que essas pessoas se reunam, discutam seus modos de fazer, compartilhem práticas, saberes e dificuldades é uma forma de facilitar a própria circulação do grupo. Comunidades podem surgir, podem se organizar, ganhar espaço, articular necessidades, mudarem rumos e necessidades das práticas, reorientando caminhos.

- construção contínua de analisadores: resultados e métricas de processo
Uma das coisas que tenho pesquisa e experimentado com bastante intensidade nos últimos 2 anos são os analisadores e meios de dar visibilidade ao que está sendo feito, produzido e construído pelo próprio grupo. A ideia aqui é o oposto do controle, mas é criar caminhos para que as pessoas possam se ver e analisar os padrões que elas mesmos têm construído em relação a sua própria produção.

É um leque vasto de opções, de possibilidades. Minha ideia por aqui é começar a detalhar as experiências que tenho tido mais o bando de malucos que topam conversar e experimentar essas coisas juntos. E segue o trem, que as pistas são boas.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Modelando o invisível

Trabalhamos com o invisível.
Trabalhamos com a modelagem do invisível.

A palavra símbolo apenas aparece como disparador dos próprios sentidos.
Daí, a pensar que a relação símbolo-sentido foi compartilhada tem uma grande distância.

A arte das redes se dá nessa passagem.
Não se compartilha sentido, se compartilha movimento de sentir,
Quando me importa de fato o outro.

Desafio não é linkar, é manter o foco no movimento da atenção do outro.

sábado, 2 de outubro de 2010

Algumas anotações sobre uma possível Teoria de Campo Social

21 proposições de uma Teoria do Campo Social

1. Os sistemas sociais são “colocados em prática” ou “encenados” pelos seus membros em um contexto. (As demais proposições resultam destas)

2. O ponto cego das ciências sociais, dos sistemas sociais e da teoria de campo hoje em dia diz respeito às fontes nas quais os sistemas sociais têm origem.

3. Há quatro fontes de atenção na qual pode emergir a ação social:
a. Eu em mim;
b. Eu no objeto;
c. Eu em você;
d. Eu no agora.

4. As quatro fontes e estruturas de atenção dão origem a quatro diferentes fluxos ou campos de emergência. “Vejo dessa maneira, portanto, ele emerge daquela maneira”;

5. Os quatro campos de encenação da realidade social aplicam-se a todas as esferas de criação da realidade social:
a. Burocracias de máquinas centralizadas;
b. Estruturas divisionais descentralizadas;
c. Estruturas organizacionais em rede;
d. Estruturas de ecossistemas de inovação.

6. Os pontos de inflexão movendo-se de um campo para outro são idênticos em todos os níveis. Esses pontos constituem uma gramática social:
a. Abertura e suspensão (mente aberta);
b. Mergulho profundo e redirecionamento (coração aberto);
c. Deixe ir e deixe vir (vontade aberta).

7. Quanto maior a hipercomplexidade de um sistema, mais crítica é a capacidade para operar a partir dos campos mais profundos da emergência social;

8. A inovação profunda que trata os três tipos de complexidade exige um processo que integre três movimentos: abrir-se para contextos que importam (cossentir), conectar-se à fonte de quietude (copresencing) e prototipar o novo (cocriação);

9. Para acessar e ativar as fontes mais profundas dos campos sociais, três instrumentos devem ser ajustados ou “afinados”: a mente aberta, o coração aberto e a vontade aberta;

10. Abrir esses níveis mais profundos exige a superação de três barreiras: a voz do julgamento, a voz do cinismo e a voz do medo;

11. Cocriar exige um compromisso de servir o todo e a capacidade de reintegrar a inteligência da cabeça, do coração e das mãos;

12. Quanto maior o intervalo entre a complexidade sistêmica exterior e a capacidade interior de acessar os fluxos mais profundos de emergência, é mais provável que um sistema sairá dos trilhos e reverterá para um espaço destrutivo de anti-emergência;

13. O espaço social da anti-emergência é manifestado em um movimento reacionário conhecido como fundamentalismo;

14. O campo social é um todo em desenvolvimento que pode ser observado e experimentado pelas cinco dimensões. São elas: espaço social, tempo social, o coletivo, o eu e o espaço envolvente (terra);

15. À medida que um campo social se desenvolve e começa a incluir os mais profundos níveis e fluxos da emergência, a experiência de tempo, espaço, eu, coletivo e Terra funde-se por meio de um processo cultural de inversão;

16. A abertura das fontes e dos fluxos de emergência mais profundos inverte a relação entre o indivíduo e o coletivo;

17. A abertura das fontes mais profundas e dos campos de emergência transformam a relação entre o conhecedor e o conhecido;

18. O campo social é uma escultura de tempo na criação;

19. O desenvolvimento do campo social é uma função da ressonância mórfica sem escala;

20. O futuro de um sistema é uma função do campo a partir do qual escolhemos operar;

21. A força revolucionária neste século é o despertar de uma capacidade humana geradora profunda – o “eu no agora”.

Anotações da Teoria U, de Otto Scharmer.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

quando tenho medo

"Atrás da dureza há medo,
E se v. tocar o coração do medo,
encontrará tristeza ( que se torna mais e mais suave).
E se tocar a tristeza, encontrará o vasto céu azul."

Rick Fields

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

a razão de hackear!!!

Hackear é sentido, forma e fluir.
Mais do que experimentar, é a capacidade de se descrever.

Hackear na fórmula, no gráfico, na tabela, no software, no código, no dígito.
Hackear no sentido da dinâmica, na entrada da fala, no vídeo e no desenho que descreve.
Hackear como estilo, como dança, ritmo e síntese.

Dispersão de caos e caordem emergente de risos, madrugadas, gambiarras de estilo e de visões.

Não fazemos isso por falta de conhecimento.
Não fazemos isso por displicência.
Não fazemos isso por medo.
Não fazemos isso por pressa.

Fazemos isso por que nos produzimos ao fazer.

Apenas o descrever a si mesmo.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

inadequação

de um artigo sobre bibliotecas digitais...

"E o sentimento de inadequação acaba constituindo o motor do movimento em direção a uma nova consciência que integra e articula saberes complementares na direção de um objetivo comum."

quinta-feira, 29 de julho de 2010

3 questões fundamentais do nosso tempo: referências, informação e ordem

Sinais interessantes podem ser lidos em várias instâncias de que as coisas estão mudando.
Até aí, que há de novo? Tudo tá sempre mudando, a vida nunca é estática e nos fluxos e refluxos nos reinventamos a cada dia.

Mas, parece que a mudança dos tempos que vivemos apontam vetores interessantes quando começamos a relacionar redes, problemas de conversação, explosão de informação, necessidade de encontrar ordem, angústia, o caos por simplesmente perceber que as formas tradicionais de se organizar o trabalho não funcionam mais e nada que conheçamos parece dar conta de oferecer novas perspectivas.

Que o trabalho e a forma como nos comunicamos vem mudando, também não tem nada de novo e isso tem sido dito de múltiplas maneiras a bons anos. Acredito que 3 questões fundamentais vêm pautando esses processos de mudanças:

  • medo, angústia da perder as referências, as certezas dos métodos e das formas que tradicionalmente sempre funcionaram. Toda a leva de metodologias rápidas e prontas, PMI, CRM, ERP, SAP, enfim... tudo o que criamos e desenvolvemos anos a fio para firmar certezas e ampliar nossa capacidade de previsão e organização da informação num mundo linear;
  • aumento exponencial de produção e acesso a informação, capacidade de estabelecer relações em rede, redefinições de identidade, de perfis que simplesmente não são possíveis de serem tratadas pelas lógicas tradicionais de organização. Hierarquias de tomadas de decisão, maneiras tradicionais de se pensar divisão de recursos, distribuição de poder e responsabilidades. Isso está mudando, queiramos ou não, e as lógicas tradicionais de gestão que tentam organizar isso colapsam em suas tentativas centralizadas, fechadas e lineares.
  • falta de conhecimento de outras possibilidades de se operar em meio ao caos e encontrar ordem. Dificuldade de operar sem um sentido de grupo, de coletivo e enorme dificuldade de saber como isso pode ser construído. Antigas referências de participação não dão conta. As pessoas mudaram, suas necessidades de participação são geracionais, suas visões do que é atuar em rede mudaram, suas necessidades de instâncias de distribuição de poder se agenciam em rede, querendo ou não. Não sabemos criar fluxos de organização disso.
 As organizações, as pessoas, grupos de trabalho, comunidades acabam dispersando e tendo enormes dificuldades para encontrarem sentido coletivo.

Se isso é um problema ou não, enfim, não creio que seja essa a questão. Acho que isso vai depender do olhar de quem observa ou não assim.

A questão que fica é, para onde José? Parece que fica a sensação de que temos a chave da porta, mas a porta já não há.

Alguns sinais interessantes parecem indicar traços de novas portas que podem ser construídas no fazer fazendo:
  • Novas tecnologias de conversação de grupos: Open Space, World Cafe, Investigação Apreciativa, etc...
  • Novas possibilidades de encontrar ordem nos fluxos da informação: Scale Free Networks, Power laws, Sistemas não-lineares, sistemas adaptativos, etc...
  • Novas possibilidades de organização em rede: a rede não como metáfora, mas como tendência de fluxo de informação. Abertura e disponibilização da informação em instâncias coletivas de decisão e conversação. Orçamentos abertos, decisões compartilhadas, alinhamentos coletivos. 
 São questões que parecem ainda de maneira dispersa, isoladas em muitos estudos e análises.
 Um desafio interessante e instigante é trabalhar a partir dessas 3 dimensões que, talvez, possam ser extremamente úteis quando se trata de encontrarmos novos caminhos e novas maneiras de estarmos juntos, não reduzindo e diminuindo a complexidade das tendências que vivemos, mas inventando novas formas de potencializá-las e reintegrá-las na produção de si.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Metareciclagem: da vanguarda de idéias para a vanguarda de ações

mexendo em mensagens antigas e dando uma geral, me deparei com um email que escrevi na lista do Metáfora, em 2003, quando o projeto MetaReciclagem saiu na capa do caderno de informática do Estadão:

"A consequência direta do MetaReciclagem é a montagem do MemeLab, o
laboratório experimental do Projeto Metáfora. Idéias, experimentos,
projetos. Começa a surgir o momento em que a vanguarda de idéias passa
a repercutir em vanguarda de ações. Mas nenhuma ação pode adquirir um
caráter individualista nesse momento e deve ser o consenso de um
coletivo de inteligências disposto a pagar o preço de seus atos.
No fundo, o que quero dizer é: metam o dedo nisso tudo, invertam os
fluxos, mudem as cores, remexam no caos, pois ele foi lançado e o
Metáfora precisa digerí-lo e lançar dedos inquietos que respondam a
altura.
A hora de agir é agora. Vamo que vamo!!!"

É muito bom ver e sentir como essa busca por novas perguntas vai se transformando, transmutando, renovando, reinventando, mas continua mais viva do que nunca...
Momento lindo de ver isso, de refletir sobre isso, sobretudo pelas conversas que tenho tido nos últimos dias, a força de poder refletir nas ações e conceitos, os amadurecimentos nas conversações e na própria capacidade de produzir mundos.

Ha! Há muito mais disso por dentro da onda que balança, puxa e repuxa e ensina que a rede é antes de tudo um modo de pensar, uma maneira de ler e agir no mundo.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A conservação das estruturas nos sistemas sociais

Independente do tipo de sistemas sociais que somos parte, dá para perceber uma característica que que é muito semelhante em todos eles: os sistemas criam maneiras de conservarem suas condutas ditas "apropriadas".

Sejam as condutas ditas "libertárias", ditas "conservadoras", centralizadas, abertas... A questão é que a partir do momento em que um sistema social se constitui, ele passa a operar de uma maneira que me parece naturalmente conservar as condutas que constituíram o próprio sistema. Sem dúvida, isso muda ao longo do tempo, pois as pessoas mudam, sua maneira de ver, usar a linguagem, a produção de sentido e de viabilidade de estarem no mundo muda.

Mas, a maneira como conservamos nossas condutas nos sistemas sociais que participamos não é algo tão evidente. Me parece ser um aspecto sutil, muitas vezes móvel, mutante e encoberto de justificativas de nossos próprios padrões de conservação. Às vezes, o que surge como algo em busca do novo, vira uma maneira de conservar uma certa conduta que se estabiliza num tipo de busca do novo e, por dentro disso, a própria busca do novo padece de outras maneiras de se ver o novo. Ou seja, o olhar vai ficando engessado, acostumado a olhar para algo de uma determinada forma, como se essa forma fosse a certa, a melhor, a maneira viável, possível...

A questão é que os sistemas sociais vão se estabilizando ao longo do tempo assim. Em determinados pontos, passam por crises, viram do avesso, seu próprio desejo de conservação de condutas passa a ser insuficiente para lhe garantir vida: o sistema perde sua capacidade organizacional e morre. É reinventado de outras maneiras, desaparece aqui e surge ali. E tudo gira.

Lendo um pouco sobre isso no "A ontologia da realidade" do Humberto Maturana, vi um trecho que achei especial. Maturana menciona duas maneiras que vê sobre como um sistema social cria condições de estabilizar sua própria organização e, assim, preservar sua condição de possibilidade de se manter como um sistema social:
  • à estabilidade pela consciência social, ao ampliar as instâncias reflexivas que permitem a cada membro uma conduta social que envolve como legítima a presença do outro como um igual; ou
  • à estabilidade na rigidez de condutas, por um lado, mediante a restrição das circunstâncias reflexivas, ao limitar os encontros fora do sistema social e reduzir a conversação e a crítica, e, por outro lado, mediante a negação do amor, ao substituir a ética (a aceitação do outro) pela hierarquia e a moralidade (a imposição de normas de conduta), ao institucionalizar relações contingentes de subordinação humana. 
Possibilidades visíveis em muitos dos sistemas que vivemos e fazemos parte, além de alimentar condutas que conservam esses níveis de estabilidade. Justificativas para rigidez, limitação e institucionalização de relações são fáceis de serem encontradas e, a primeira vista, parecem sedutoras e produtoras de um sentido de eficácia e escala nas relações.

Mas, não se trata disso. Se pensamos nas redes como sistemas sociais que podem propor uma ampliação de nosso potencial de liberdade, creio que estamos falando de processos que considerem a consciência social como meio de organização e estruturação dos sistemas. Ou seja, estamos falando aqui de ampliar espaços de conversação, espaços de criação de coletivos que se exercitam na escuta, na busca do entendimento e do encaminhamento de suas questões pela composição de diversas visões. É um exercício de linguagem, de visão, de ampliação de olhar.

Do contrário, caminhos que levam a rigidez e hierarquização parecem a única opção possível, mesmo mascarados em formas libertárias, sedutores e em discursos fáceis. O sutil não tá na aparência, tá no uso da linguagem, nas formas de relação e naquilo que é não dito.

terça-feira, 8 de junho de 2010

o falso problema da inovação

Inovação, criatividade e experimentação parecem ser cada vez mais o tom dos discursos nas redes, nos jornais, nos relatórios e nas conversas de quem tá refletindo sobre nossas tendências atuais, como nesse relatório que a IBM soltou recentemente.

Tenho preferido ver a questão de uma outra maneira. Acho que posicionar a conversa sobre esses pontos é acabar alimentando um ciclo de produção que pretende ser libertário mas que acaba fechado sobre as próprias fronteiras que acaba erguendo.

As fronteiras não surgem das organizações, nas instituições burocráticas ou mesmo das redes que fazemos ou não parte. As fronteiras surgem na linguagem: termos que definem e excluem, expressões que buscam registrar algo dinâmico e que dão conta de apenas relevar uma dimensão limitada e temporal do pensamento.

A busca por liberdade, se for esse o caso, está além das fronteiras da linguagem. Não é algo que vamos resolver criando mais redes, desenvolvendo tecnologia, salvando a natureza ou melhorando nossa capacidade de inovação, criatividade e tendo idéias mais interessantes para pesquisa e desenvolvimento.

A busca por liberdade está além do conceitual, do que pode ser expresso em significados. Está exatamente no dissolvência do significado, das perguntas que buscam uma resposta que só é encontrada quando já não há mais perguntas.

Parece algo paradoxal: como se nada do que efetivamente fizéssemos pudesse ampliar intrinsecamente nosso potencial de liberdade e a liberdade só realmente surgisse quando deixamos de buscá-la dessa maneira. Creio que parcialmente. Bordas podem ser ampliadas, compreensões alargadas, sistemas que passam a incluir variáveis que antes não eram consideradas, pessoas que se abrem para conversas quando antes estavam fechadas, começamos a considerar coisas que antes achávamos irrelevantes.

Sem dúvida, isso também tem um limite. Toda a complexidade não pode ser abarcada de uma forma plena, sempre algo estará de fora. Fazemos escolhas, escolhemos bordas, criamos fronteiras, nos associamos e nos separamos e fazemos isso como consequência da nossa própria maneira de nos relacionarmos e usarmos a linguagem que usamos.

Dessa maneira, buscar inovação, criatividade e experimentação como elementos fundantes de algo libertário, como se o que se dedicasse a outras coisas fossem apenas a conservação de um determinado status quo me parece um falso problema.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

multiplicidade dos olhos

Podemos dizer que somos muitas coisas, profissões, posições sociais, relações, idéias, as coisas que temos, tantas, tantas...

Mas, tudo isso é passageiro, impermanente. Flutua.

Mas, algo continua. O quê? Algo que produz o próprio sentido da transição da mudança contínua.
Alma? Espírito? Consciência? Muitos nomes e muitas formas de olhar...

Vejo que há algo que continua, independente do conceito: a liberdade de podermos conectar múltiplas camadas, múltiplos olhares e produzir a própria idéia do eu...