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quinta-feira, 29 de julho de 2010

3 questões fundamentais do nosso tempo: referências, informação e ordem

Sinais interessantes podem ser lidos em várias instâncias de que as coisas estão mudando.
Até aí, que há de novo? Tudo tá sempre mudando, a vida nunca é estática e nos fluxos e refluxos nos reinventamos a cada dia.

Mas, parece que a mudança dos tempos que vivemos apontam vetores interessantes quando começamos a relacionar redes, problemas de conversação, explosão de informação, necessidade de encontrar ordem, angústia, o caos por simplesmente perceber que as formas tradicionais de se organizar o trabalho não funcionam mais e nada que conheçamos parece dar conta de oferecer novas perspectivas.

Que o trabalho e a forma como nos comunicamos vem mudando, também não tem nada de novo e isso tem sido dito de múltiplas maneiras a bons anos. Acredito que 3 questões fundamentais vêm pautando esses processos de mudanças:

  • medo, angústia da perder as referências, as certezas dos métodos e das formas que tradicionalmente sempre funcionaram. Toda a leva de metodologias rápidas e prontas, PMI, CRM, ERP, SAP, enfim... tudo o que criamos e desenvolvemos anos a fio para firmar certezas e ampliar nossa capacidade de previsão e organização da informação num mundo linear;
  • aumento exponencial de produção e acesso a informação, capacidade de estabelecer relações em rede, redefinições de identidade, de perfis que simplesmente não são possíveis de serem tratadas pelas lógicas tradicionais de organização. Hierarquias de tomadas de decisão, maneiras tradicionais de se pensar divisão de recursos, distribuição de poder e responsabilidades. Isso está mudando, queiramos ou não, e as lógicas tradicionais de gestão que tentam organizar isso colapsam em suas tentativas centralizadas, fechadas e lineares.
  • falta de conhecimento de outras possibilidades de se operar em meio ao caos e encontrar ordem. Dificuldade de operar sem um sentido de grupo, de coletivo e enorme dificuldade de saber como isso pode ser construído. Antigas referências de participação não dão conta. As pessoas mudaram, suas necessidades de participação são geracionais, suas visões do que é atuar em rede mudaram, suas necessidades de instâncias de distribuição de poder se agenciam em rede, querendo ou não. Não sabemos criar fluxos de organização disso.
 As organizações, as pessoas, grupos de trabalho, comunidades acabam dispersando e tendo enormes dificuldades para encontrarem sentido coletivo.

Se isso é um problema ou não, enfim, não creio que seja essa a questão. Acho que isso vai depender do olhar de quem observa ou não assim.

A questão que fica é, para onde José? Parece que fica a sensação de que temos a chave da porta, mas a porta já não há.

Alguns sinais interessantes parecem indicar traços de novas portas que podem ser construídas no fazer fazendo:
  • Novas tecnologias de conversação de grupos: Open Space, World Cafe, Investigação Apreciativa, etc...
  • Novas possibilidades de encontrar ordem nos fluxos da informação: Scale Free Networks, Power laws, Sistemas não-lineares, sistemas adaptativos, etc...
  • Novas possibilidades de organização em rede: a rede não como metáfora, mas como tendência de fluxo de informação. Abertura e disponibilização da informação em instâncias coletivas de decisão e conversação. Orçamentos abertos, decisões compartilhadas, alinhamentos coletivos. 
 São questões que parecem ainda de maneira dispersa, isoladas em muitos estudos e análises.
 Um desafio interessante e instigante é trabalhar a partir dessas 3 dimensões que, talvez, possam ser extremamente úteis quando se trata de encontrarmos novos caminhos e novas maneiras de estarmos juntos, não reduzindo e diminuindo a complexidade das tendências que vivemos, mas inventando novas formas de potencializá-las e reintegrá-las na produção de si.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

11º FISL - dia 23-07 - Conversando sobre Ecossistemas de conversação, Acervos Digitais e P2P

No meu segundo dia do FISL, o papo ficou mais voltado para em dois grandes eixos:
  • novas maneiras que podemos utilizar protocolos interoperáveis para conversarmos e disponibilizarmos conteúdo em rede;
  • como os projetos comunidades, artistas e projetos experimentais se articula em rede e se desenvolvem como na relação de demandas, verbas e projetos com o governo.
O primeiro papo do dia foi com a equipe técnica do projeto CERVO, pessoal ligado a equipe de Cultura Digital do José Murilo. Eles trouxeram o Juliano Serra, que é um pesquisador que acabou de defender seu doutorado com o tema "ANOTAÇÃO AUTOMÁTICA E RECOMENDAÇÃO PERSONALIZADA DE DOCUMENTÁRIOS BRASILEIROS - SISTEMA DOCUNB". O Juliano propôs uma experimentação interessante na tese dele: ao invés de utilizador um buscador para encontrar conteúdo na web, ele propôs que a partir da análise textual das falas disponíveis em um vídeo e de uma análise de palavras-chave em blogs relacionados a cinema, um robô iria propor um cruzamento de interesses e indicar os vídeos para os assinantes dos blogs. Enfim, achei bem interessante e com bastante sinergia no tipo de trabalho que eu tenho pesquisado e feito na parte das análises semânticas. Gostei do que ouvi e de como o Juliano tá experimentando isso. Eu fiz algumas colocações sobre o trabalho dele, principalmente como ele poderia extender isso para a perspectiva da análise de redes sociais, likando conteúdo com relações na rede e interfaceando com novas possibilidades do robô encontrar pessoas por indicações de pessoas que indicaram pessoas e por aí vai... Foi bacana o papo.

A galera do MinC tá com uma proposta muito interessante de evolução daquilo que rolava em muitas de nossas conversas nos idos de 2002/2003:  a idéia do Xemelê, que aliás voltou ao ar com o antigo wiki online. A arquitetura do que eles estão propondo está mais detalhada aqui!  Mas, a idéia geral deles é utilizar:
  • xmpp como protocolo de mensagens instantâneas e apoio do pubsub. O xmpp fará o papel de notificador dos conteúdos publicados conforme a correlação de assinantes interessados naquele tipo de recurso/conteúdo. Vale lembrar que o Gtalk usa o xmpp, ou seja, tem escala.
  • uso da biblioteca libstorage para a escolha do melhor servidor um documento fará upload. Ou seja, quem envia um arquivo não tem de se preocupar onde vai armazenar, o cliente pode escolher com base nos assinantes da rede qual o melhor servidor naquela situação. Uma vez feito o upload, todos os servidores são notificados, criando um compartilhamento a-lá p2p dos recursos disponíveis na rede.
Sugeri que um bom serviço que poderia rodar em cima disso seria ter acesso a rede de relações entre usuários e conteúdos, por adesão aos serviços e compartilhamento. Isso realmente poderia dar uma outra dinâmica de conversação e cruzamento de dados. Enfim, vale acompanhar e ficar de olho no que estão montando.

Depois dessa boa conversa, sentei com o pessoal do Estúdio Livre que fez um debate sobre seu modelo de comunidade online, como poderiam se organizar, como avançar na conversa em rede, enfim. A idéia era compartilhar um pouco da experiência do MetaReciclagem e de como tínhamos nos feito as mesmas questões e encontrado respostas diferentes. Questões como o uso do nome, quem participa, quem tá fora, coisas importantes de novas maneiras de nos organizarmos em rede e que não tem respostas óbvias em nenhum caso. Um mundo novo sendo construído, com novas soluções a serem experimentadas, compartilhadas e documentadas.

Para fechar o dia, fui participar da mesa do RedeLabs, a convite do ff.  Caos total, dislexia, dissonância, estruturas dissipativas em ação. Foi divertido. Falei de Caos, da necessidade de desordem para emergência de ordem, de como a rede não conecta nas estruturas de demandas dos editais e de como um estamos no período de habitar os próprios paradoxos enquanto ainda aguardamos surgir novas possibilidades de ordem para novas maneiras de nos organizarmos. Ainda não sabemos fazer isso, principalmente na relação da experimentação artística e da tecnologia. Tudo novo de novo. Enfim, paciência e experimentação, não no produto, mas na forma... ;-)

Fim de FISL pra mim. Contente, feliz e satisfeito dos papos, dos fluxos e dos contatos. E vamo em frente.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

A sensação de controle e o reposicionamento das redes

Muito se fala hoje em dia sobre formas e possibilidades de se controlar redes, de se prever seu comportamento, de mapear suas relações para que possamos ter maneiras de fazer uma gestão mais atuante na complexidade das redes.
Já faz algum tempo que venho discutindo isso e questionando a impossibilidade que é utilizar ferramentas de mapeamento e gestão para se controlar redes: isso definitivamente não funciona e essas metodologias não servem para isso.

Mas, hoje encontrei uma citação chave para essa visão a respeito do que é essa tal sensação e necessidade de controle que circula na sociedade, nos grupos sociais e nas organizações. O medo de não conseguir pensar de outra maneira e a própria impossibilidade de refletir de outras formas leva e enquadra o raciocínio em níveis de contingência do pensamento que, sem dúvida, estão por detrás da irresponsabilidade muitas "boas iniciativas" de gestão que podemos observar nas empresas, governos, ongs, etc.

Cito aqui J. Doyne Farmer:

"Para prever a trajetória de algo, você precisa compreender todos os detalhes e monitorar cada detalhe. Isso é como resolver o problema do terrorismo pela vigilância e pela segurança. Estabeleça um sistema que detecte e siga cada terrorista e impeça-os de agir. Esta é uma solução tentadora, porque é fácil construir um consenso político para esse fim, e isto envolve tecnologia, que é algo em que nós somos bons. Mas, se há algo que aprendi em meus vinte e cinco anos de tentativas de predizer sistemas caóticos, é que isto é muito difícil, e é basicamente impossível de fazê-lo bem."

Mapeamentos são inúteis como foram de controle, pois sempre vão criar caixas de ressonâncias que detectam o sintoma conforme a causa que conseguem enxergar. A questão não está aí.

O ponto chave dessa conversa é a linguagem e a metalinguagem.
Ampliamos nosso potencial de rede, nosso adensamento e conversação quando conseguimos abrir novos espaços para conversarmos sobre como conversamos. Aí o mapeamento nos ajuda como estratégia de dobra, de ampliação da consciência do grupo a respeito de seus próprios temas, questões e filtros de relevância que surgem das contingências de sua própria linguagem.

Pra que ERP, CRM, SAP? Se mercados são conversações, a gestão se faz na subjetividade, no entre, na capacidade de operar na complexidade e não na capacidade de controlar e conseguir realizar previsões.

Visões do caos linguístico

"Aquilo a partir do qual um sistema se constrói, aquilo que é, assim,
anterior, posterior, exterior ao sistema simbólico, e que talvez o
sustente do começo ao fim, não pode encontrar sentido em um sistema
simbólico, a não ser para designá-lo por palavras que são furos de
linguagem, a não ser para significá-lo por imagens ou rituais que se
limitam a apontar aquilo que aponta e que, se ele se volta, só encontra
vazio."

“os coletivos também cosem, através da linguagem e de todos     os
sistemas simbólicos de que dispõem, uma tela de sentidos destinada a
reuní-los e talvez a protegê-los dos estilhaços dispersos, insensatos,
do     futuro; uma capa de palavras capaz de abrigá-los da contingência
radical que     perfura a camada protetora dos sentidos e mistura-se, à
sua revelia”

"Como a informação é fluxo é como se o coletivo novamente fosse
portador do conhecimento."

"Essa experimentação, essa exploração de tudo o que pode permitir fazer
sentido é fractal."

Pierre Levy

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Falando de pragmáticos, linguagem e conversações

Acabei de ler no final de semana o Contingência, Ironia e Solidariedade do Richard Rorty, por indicação da Drica.

Entre muitos trechos bons, de um pensamento suave, direto e muito útil para reflexão, separei um que acho que dá um pouco o tom do texto e de como ele articula sua filosofia:

"A única coisa que importa é que, quando se acredita nela, pode-se enunciá-la sem sair machucado. Em outras palavras, o que importa é nossa capacidade de falar com outras pessoas sobre o que nos parece verdade, e não sobre o que de fato é verdade. Se cuidarmos da liberdade, a verdade poderá cuidar de si mesma. Se formos suficientemente irônicos sobre nossos vocabulários finais e suficientemente curiosos sobre o de todas as outras pessoas, não precisaremos ter a preocupação de saber se estamos em contato direto com a realidade moral, se fomos cegados pela ideologia, ou se estamos sendo debilmente relavistas."

 Forte. Bom. Direto. Muito útil.

 A pergunta que me fiz foi: Como podemos trabalhar os dispositivos de visualização em estratégias de conversação que possam aguçar essa curiosidade sobre o vocabulário final de cada pessoa, cada organização, cada rede? Tem um caminho aqui...