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quarta-feira, 8 de junho de 2011

da estabilidade em um sistema social

E, mais uma vez, Maturana dá o tom, simples, preciso e direto no ponto:

"A estabilidade de um sistema social depende de que não se interfira com seu caráter conservador. Por isso, em todo sistema social humano, a busca pela estabilidade leva:
  1. à estabilidade pela consciência social, ao ampliar as instâncias reflexivas que permitem a cada membro uma conduta social que envolve como legítima a presença do outro como um igual; ou
  2. à estabilidade na rigidez de condutas, por um lado, mediante a restrição das circunstâncias reflexivas, ao limitar os encontros fora do sistema social e reduzir a conversação e a crítica, e, por outro lado, mediante a negação do amor, ao substituir a ética (a aceitação do outro) pela hierarquia e a moralidade (a imposição de normas de conduta), ao institucionalizar relações contingentes de subordinação humana."
E nem precisa dizer mais nada.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A conservação das estruturas nos sistemas sociais

Independente do tipo de sistemas sociais que somos parte, dá para perceber uma característica que que é muito semelhante em todos eles: os sistemas criam maneiras de conservarem suas condutas ditas "apropriadas".

Sejam as condutas ditas "libertárias", ditas "conservadoras", centralizadas, abertas... A questão é que a partir do momento em que um sistema social se constitui, ele passa a operar de uma maneira que me parece naturalmente conservar as condutas que constituíram o próprio sistema. Sem dúvida, isso muda ao longo do tempo, pois as pessoas mudam, sua maneira de ver, usar a linguagem, a produção de sentido e de viabilidade de estarem no mundo muda.

Mas, a maneira como conservamos nossas condutas nos sistemas sociais que participamos não é algo tão evidente. Me parece ser um aspecto sutil, muitas vezes móvel, mutante e encoberto de justificativas de nossos próprios padrões de conservação. Às vezes, o que surge como algo em busca do novo, vira uma maneira de conservar uma certa conduta que se estabiliza num tipo de busca do novo e, por dentro disso, a própria busca do novo padece de outras maneiras de se ver o novo. Ou seja, o olhar vai ficando engessado, acostumado a olhar para algo de uma determinada forma, como se essa forma fosse a certa, a melhor, a maneira viável, possível...

A questão é que os sistemas sociais vão se estabilizando ao longo do tempo assim. Em determinados pontos, passam por crises, viram do avesso, seu próprio desejo de conservação de condutas passa a ser insuficiente para lhe garantir vida: o sistema perde sua capacidade organizacional e morre. É reinventado de outras maneiras, desaparece aqui e surge ali. E tudo gira.

Lendo um pouco sobre isso no "A ontologia da realidade" do Humberto Maturana, vi um trecho que achei especial. Maturana menciona duas maneiras que vê sobre como um sistema social cria condições de estabilizar sua própria organização e, assim, preservar sua condição de possibilidade de se manter como um sistema social:
  • à estabilidade pela consciência social, ao ampliar as instâncias reflexivas que permitem a cada membro uma conduta social que envolve como legítima a presença do outro como um igual; ou
  • à estabilidade na rigidez de condutas, por um lado, mediante a restrição das circunstâncias reflexivas, ao limitar os encontros fora do sistema social e reduzir a conversação e a crítica, e, por outro lado, mediante a negação do amor, ao substituir a ética (a aceitação do outro) pela hierarquia e a moralidade (a imposição de normas de conduta), ao institucionalizar relações contingentes de subordinação humana. 
Possibilidades visíveis em muitos dos sistemas que vivemos e fazemos parte, além de alimentar condutas que conservam esses níveis de estabilidade. Justificativas para rigidez, limitação e institucionalização de relações são fáceis de serem encontradas e, a primeira vista, parecem sedutoras e produtoras de um sentido de eficácia e escala nas relações.

Mas, não se trata disso. Se pensamos nas redes como sistemas sociais que podem propor uma ampliação de nosso potencial de liberdade, creio que estamos falando de processos que considerem a consciência social como meio de organização e estruturação dos sistemas. Ou seja, estamos falando aqui de ampliar espaços de conversação, espaços de criação de coletivos que se exercitam na escuta, na busca do entendimento e do encaminhamento de suas questões pela composição de diversas visões. É um exercício de linguagem, de visão, de ampliação de olhar.

Do contrário, caminhos que levam a rigidez e hierarquização parecem a única opção possível, mesmo mascarados em formas libertárias, sedutores e em discursos fáceis. O sutil não tá na aparência, tá no uso da linguagem, nas formas de relação e naquilo que é não dito.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Algumas noções sistêmicas fundamentais no viver e conviver humano

Refletir sobre o viver humano é refletir a partir de algum lugar, de alguma referência que pauta/modula a estrutura de pensamento de onde partimos. Essa estrutura é nossa base de coerência, é aquilo que usamos como referência (seja consciente ou inconsciente) para descrever as coerências daquilo que somos capazes de distinguir no que experienciamos.

Essa capacidade de distinção não é algo místico, sobrenatural ou que possa ser mensurado a partir de maior ou menor capacidade, a não ser que eu veja isso a partir de um sistema restrito de concepções que posso ter a tendência de chamar de verdade. A nossa capacidade de distinção é construída culturalmente, a partir da extensa vivência e somatória de experiências que vivenciamos ao longo da vida. As experiências vão se somando, vão impactando nosso corpo, vão sedimentando conceitos, enrigecendo sensações, percepções e toda a nossa estrutura de mente-corpo passa a ser coerente com uma determinada visão, uma forma de pensar. Tudo passa a girar em torno disso, passamos a classificar, mesmo que de forma inconsciente, o mundo: algumas experiências nos parecem mais válidas que outras, mais legítimas, mais corretas.

Dessa forma, vamos nos dando conta, se nos dispusermos a questionar nossos próprios referenciais, que construímos nossas referências a partir da soma de relações que fomos vivenciando em nossas vidas. Se as relações fossem diferentes, provavelmente as concepções, as percepções de mundo também seriam. Somos um produto contínuamente em mutação da coerência de nossa própria história de vida.

Sem dúvida, procurar ver, tornar consciente, dar-se conta desse lugar de onde falamos e procurar colocá-lo em perspectiva me parece ser uma atitude fundamental para facilitar a fluidez nas relações humanas, nas redes de conversações nas quais engatamos ao longo da nossa vida. Colocar-se em perspectiva é um ato de amor para consigo mesmo, pois tem o efeito de criar um espaço de reflexão para podermos questionar os fundamentos de nossas próprias coerências, os fundamentos de onde falamos o que falamos e de onde fazemos o que fazemos.

Esse dar-se conta não é algo simples, trivial.

Como perceber os próprios fundamentos? Como perceber os próprios pontos de rigidez?
Como questionar esses fundamentos? Como não criar um processo que migre de um fundamento ao outro, sem refletir a própria concepção da rigidez dos fundamentos?

Me parecem questões importantes, difíceis de serem respondidas, mas que nos colocam em lugares interessantes para descobrir técnicas de si, de autoconhecimento, de novos caminhos explicativos que podem servir como instrumentos de liberação da própria rigidez das estruturas sólidas que fomos cultivando ao longo do nosso viver.

Refletir sobre algumas noções sistêmicas fundamentais do nosso viver humano, como propõe Humberto Maturna e Ximena Davila, no livro Habitar Humano, me faz sentir numa espiral do ir se dando conta de como ir integrando os princípios sistêmicos nas coerências do meu viver. Essa integração surge na forma de olhar, naquilo mesmo que distingue o olhar.

Essas noções sistêmicas servem como elementos de reflexão, como pontos de apoio para questionar os próprios fundamentos:

O saber: tudo o que é dito é dito por um observador a outro observador que pode ser ele próprio ou ela própria.

O fazer: tudo o que é feito é feito por um ser humano no âmbito da antroposfera que surge com ele.

O suceder: cada vez que num conjunto de elementos começam a se conservar certas relações, abre-se espaço para que tudo mude em torno das relações que se conservam.

O escolher: a história dos seres vivos em geral e dos seres humanos em particular tem seguido e segue um curso definido em cada instante pelos desejos, pelas preferências, pelas ganas, pelas emoções em geral.

O operar: todo sistema humano e não humano opera perfeito quando opera; não existe a disfuncionalidade no operar de um sistema.

domingo, 4 de abril de 2010

Conversações, redes e reflexões sobre as mudanças culturais que queremos

Feriado de páscoa, bom tempo para organizar algumas coisas nos estudos, refletir um pouco e fazer algumas sínteses.

A leitura do A árvore do conhecimento do Maturana e Varela abriu alguns espaços de reflexão fundamentais para pensar melhor sobre a Internet, as redes sociais, as formas que conversamos em nosso cotidiano e como isso acaba sendo aquilo que nos constitui e que constituímos com o nosso viver.  Me animei a continuar estudando o trabalho do velho biólogo e caiu na mão o Cognição, ciência e vida cotidiana. Separei alguns trechos dele que acho bem pertinentes para ampliar essa conversa:

  • "... qualquer configuração de conversações que começa a ser conservada em nosso viver, torna-se daí em diante o mundo em que vivemos, ou um dos mundos que vivemos." pág. 180;
  • "Chamo de conversação nossa operação nesse fluxo entrelaçado de coordenações consensuais de linguajar e emocionar e chamo de conversações as diferentes redes de coordenações entrelaçadas e consensuais de linguajar e emocionar que geramos ao vivermos juntos como seres humanos." pág. 132;
  • "... as palavras são nós nas redes de coordenações de ação e se ligam às coordenações de ação." pág. 88;
  • "... como seres humanos existimos no fluir de nossas conversações, e todas as nossas atividades acontecem como diferentes espécies de conversações. Consequentemente, nossos diferentes domínios de açõesredes de conversações (domínios cognitivos) como seres humanos (culturas, instituições, sociedades, clubes, jogos, etc.) são constituídos como diferentes , cada uma definida por um critério particular de validação, explícito ou implícito, que define e constitui o que a ela pertence." pág. 132;
  • "As culturas são redes fechadas de conversações, conservadas geração após geração através do aprendizado das crianças que nelas vivem. Como tais, as culturas mudam se mudar a rede fechada de conversações que as crianças aprendem enquanto vivem nela, e uma nova rede fechada de conversações começar a ser conservada geração após geração através de seu viver." pág. 198.
 Há uma forma de olhar para tudo isso que muito me interessa e que tem muito a ver com o que venho pesquisando, sentindo e querendo nos últimos anos. Vejamos se consigo traçar a forma que estou compreendendo a relação entre as passagens que menciono acima:
  • Surgimos como humanos a partir do nosso fluir nas redes de conversação que surgem na linguagem;
  • As redes de conversação quando são conservadas ao longo das gerações formam culturas, ou seja, domínios cognitivos reflexivos e relacionais;
  • São domínios de ações, onde agimos pela conservação da rede de conversações;
  • Conservamos a rede e a estrutura da rede pelo uso da linguagem;
  • As redes de conversação quando conservadas acabam por constituir nossa cultura;
  • Podemos mudar a cultura quando mudamos as redes de conversação e novas redes passam a ser conservadas pelas gerações.
 Algumas perguntas que me motivam a partir disso:
  • Criando novas redes de conversação abertas e livres de pressão hierárquica e autoritária, podemos criar novos espaços relacionais que mudam a cultura vigente de muitas das organizações onde atuamos?
  • Criar espaços e possibilidades de refletirmos sobre as nossas redes de conversação, sobre a estrutura delas e o que essa estrutura conserva como cultura é criar uma reflexão que amplia a possibilidade de nos conscientizarmos e questionarmos a cultura que conservamos?
  • Podemos criar processos de trabalho (novas redes de conversação) a partir disso, ou seja, podemos estimular mudança organizacional dessa maneira? Esse tipo de mudança organizacional cabe dentro das organizações que são constituídas com que fins?
  • Se estudarmos as redes de conversação de uma organização (semântica e estrutural) e se criarmos novos espaços relacionais que visualizem essas redes, se conscientizem delas e reflitam sobre elas, estamos respeitando a complexidade, a diversidade e liberdade dessas redes? Isso nos tornaria mais inteligentes, mais compromissados com nosso próprio caminho, com nosso próprio fazer, mais responsáveis pelas nossas próprias atitudes a ponto de nos relacionarmos de forma mais ampla, mais clara e mais conscientes com nossas escolhas?
  • Isso tudo tem a ver com criar ambientes de convivência (estudos, trabalho, lazer, etc...) mais interessantes da perspectiva de melhorar as possibilidades de manifestação individual e coletiva das nossas potencialidades humanas como fluxos que constituem e são constituídos por nós na linguagem e nas redes de conversação em que nos criamos?
Enquanto isso, continuo a brincar com visualização de redes sociais, semânticas e pensando em como ampliar a consciência da a partir da reflexão das nossas redes de conversação...

Resumo do livro "A ontologia da realidade"

A Ontologia da Realidade                                                            

quinta-feira, 1 de abril de 2010

pensando em colaboração

"Há várias maneiras de relacionar-se entre as pessoas. Algumas são de autoridade. Sou o chefe, os que me são subordinados me obedecem. Os subordinados estão subordinados aos desejos, às ordens, às aspirações dos chefes. O chefe diz “eu quero tal coisa”, e isso é uma ordem. E o subordinado, sem questionar, faz. Essa é uma forma. A outra forma é que várias pessoas se encontram em um lugar e se movem com independência umas das outras, o que um faz não afeta os outros. E outras formas são aquelas nas quais diferentes pessoas interagem entre si, não em uma relação de autoridade e subordinação, não em uma relação de completa separação, mas fazendo coisas juntos. Este fazer coisas juntos pode conservar-se no prazer de fazê-las juntos ou derivar à subordinação ou à dispersão. Quando se conserva o prazer de fazer as coisas junto, se conversa. O que um diz não é uma exigência para os outros. É um convite, uma reflexão para gerar um fazer conjunto. Não se vive como isso uma ordem nem como indiferença, se vive como participação, um fazer de todos eles, no qual o que cada um faz é coerente com o que fazem os outros desde a autonomia, por meio da compreensão do que se está fazendo junto. Isso é o que queremos dizer quando falamos de colaboração. Esse espaço acontece em uma conversação, em uma co-inspiração. Por exemplo, aqui estamos juntos conversando, como resultado de uma co-inspiração. Em algum momento se sugere a necessidade de uma reunião, e isso se converge no fato de que estamos juntos e nos escutamos. Não há uma relação de autoridade, não estamos dispersos, mas estamos fazendo algo juntos que é uma entrevista, uma conversação, e tem um caráter que vai depender da natureza do que se faz. Mas, que está associado com o momento de estar aqui, de querer estar aqui, de fazer coisas que vão surgindo desta interação que não é de autoridade, e que não é de dispersão."

Trecho de uma entrevista de Humberto Maturana e Ximena Davila ao Instituto Ethos. 


Construímos o nosso sentido de estar juntos a partir de nossa capacidade e vontade de querer conversar. Havendo isso, uma rede, um grupo de trabalho tem as condições necessárias para ser saudável aos que dela participam e criarem suas próprias formas de apropriarem e se acoplarem a mais esse domínio relacional que é criado.


Conversamos em rede porque assim o desejamos, porque assim faz sentido, porque assim encontramos motivação para continuar fluindo por aquele espaço. Conversamos em rede porque sentimos prazer nisso. É bastante simples, mas pontua uma forma de ver as coisas que pode nos ajudar a facilitar o nosso fazer nos projetos que atuamos. 


O foco de um processo de ativação é esse prazer de conversar, o prazer de estar em relação. Entendo que esse prazer resido na própria dinâmica da relação, o que é algo singular e diz de cada um que atua.


Se não é isso o que ocorre entre nossos possíveis contatos, iremos:
  • ou nos dispersar e habitar outros territórios;
  • ou nos subordinamos, por que assim nos é conveniente, e nos relacionarmos a partir de um ponto de vista que considera o "certo" e o "real" como algo objetivo e mediado por apenas um lado da relação. Certamente, estaremos vivendo algo outro que colaboração.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Algumas anotações sobre a "A Árvore do Conhecimento" - Maturana e Varela

O ano passado retomei o contato com o trabalho do Humberto Maturana através do livro Habitar Humano. Já conhecia o trabalho dele pelos toque que o Fritojf Capra fez no livro Teia da Vida. O Habitar Humano mexeu muito com algumas compreensões que tinha a respeito das conversações e a respeito da forma que fazemos rede. Há duas semanas atrás voltei para reler o livro e achei mais interessante e mais forte ainda do que a primeira leitura. Foi impactante o suficiente para retirar da estante a primeira obra do Maturana, ainda com o Francisco Varela, A Árvore do Conhecimento.

Comecei no final de semana. Sábado de retiro e meditação. As páginas foram fazendo cada vez mais sentido quando contextualizado com tudo aquilo que venho pesquisando sobre redes sociais, sobre complexidade de sistemas e sobre pensamento complexo. Parecia incrível que estava ali, à disposição, tantas idéias fundantes e claras a respeito de como conhecemos, de como interagimos e de como nos relacionamos pela linguagem a partir de nossa estrutura biológica. Terminei hoje pela manhã o livro. Vindo trabalhar e me sentindo tocado por aquilo, como se fizesse um sentido ancestral e como se fosse necessário repensar todo o meu fazer no que toca as práticas e formas de atuar. Além do campo do trabalho, o campo da conversa, do agir e interagir em rede, do se relacionar em qualquer âmbito e espaço de interação. O desejo ficou de anotar algumas idéias chave por aqui para poder ir retomando e registrando a forma que vejo e sinto a respeito disso tudo.

Algumas idéias do livro:

  1. afirmamos que, no âmago das dificuldades do homem atual, está seu desconhecimento do conhecer. (pág. 270);
  2. cegos diante dessa transcendência de nossos atos, pretendemos que o mundo tenha um devir independente de nós, que justifique nossa irresponsabilidade por eles. Confundimos a imagem que buscamos projetar, o papel que representamos, com o ser que verdadeiramente construímos em nosso viver cotidiano (pág. 271);
  3. qualquer coisa que destrua ou limite a aceitação do outro, desde a competição até a posse da verdade, passando pela certeza ideológica, destrói ou limita o acontecimento do fenômeno social. Portanto, destrói também o ser humano, porque elimina o processo biológico que o gera. Não nos enganemos. (pág. 269);
  4. a esse ato de ampliar nosso domínio cognitivo reflexivo - que sempre implica uma experiência nova - , podemos chegar pelo raciocínio ou mais diretamente, porque alguma circunstância nos leva a ver o outro como um igual, um ato que habitualmente chamamos de amor. (pág. 268);
  5. se sabemos que nosso mundo é sempre o que construímos com os outros, cada vez que nos encontrarmos em contradição ou oposição com outro ser humano com qual desejamos conviver, nossa atitude não poderá ser reafirmar o que vemos do nosso próprio ponto de vista. Ela consistirá em apreciar que nosso ponto de vista é o resultado de um acoplamento estrutural no domínio experencial, tão válido quanto o de nosso oponente, mesmo que o dele nos pareça menos desejável. (pág. 267);
  6. o conhecimento do conhecimento obriga. Obriga-nos a assumir uma atitude de permanente vigília contra a tentação da certeza, a reconhecer que nossas certezas não são provas da verdade, como se o mundo que cada um vê fosse O mundo e não UM mundo que construímos juntamente com os outros. (pág. 267);
  7. a estrutura obriga. Por sermos humanos, somos inseparáveis da trama de acoplamentos estruturais tecida por nossa permanente "trofolaxe" linguística. A linguagem não foi inventada por um indivíduo sozinho na apreensão de um mundo externo. Portanto, ela não pode ser usada como ferramenta para a revelação desse mundo. Ao contrário, é dentro da própria linguagem que o ato de conhecer, na coordenação comportamental que é a linguagem, faz surgir um mundo. Percebemos um mútuo acoplamento linguístico, não porque a linguagem nos permita dizer o que somos, mas porque somos na linguagem, num contínuo ser nos mundos linguísticos e semânticos que geramos com os outros. Vemo-nos nesse acoplamento, não como a origem de uma referência nem em relação a uma origem, mas como um modo de contínua transformação no devir do mundo linguístico que construímos com os outros seres humanos. (pág. 257);
  8. a coerência e a estabilização da sociedade como unidade se produzirá, dessa vez, mediante os mecanismos tornados possíveis pelo funcionamento linguístico e sua ampliação na linguagem. Essa nova dimensão de coerência operacional é o que experimentamos como consciência e como "nossa" mente. (pág. 255).
 Certamente, tem muito, mas esses tópicos principais chamam muita a atenção para um fazer que inclua essa dimensão cognitiva do outro como modus operandi.

 Nossa autopoiesis cria camadas a partir do aumento de complexidade de nosso sistema neural. A linguagem surge como deriva desse aumento de complexidade. Na relação com outro, as múltiplas possibilidades do linguajear surgem e com elas a capacidade de reflexão. Surge a mente e a consciência como possibilidade complexa de conectividade de nosso sistema neural. A possibilidade de linguagem é derivada de acoplamentos estruturais no domínio semântico da forma como descrevemos nossas coerências operacionais. É uma camada abstrata que surge e que podemos interagir por ela (isso certamente tem a ver com a idéia de websemântica do Levy). Considerar o domínio cognitivo reflexivo do outro é expandir o próprio domínio, aumento o campo de complexidade em que podemos navegar e enxergar...

E o que isso tem a ver com as redes sociais? e com ativação das redes? Hummm.... Será? ;-)

segunda-feira, 22 de março de 2010

Dos afetos e redes semânticas

Uma carta.
Um amigo.
Uma rede.
Novas formas de visualizar afetos...




E as palavras que se articulam compondo a manifestação do que se vive enquanto se escreve:

sexta-feira, 19 de junho de 2009

liderança em biologia cultural

Segundo Maturana e Ximena,

"Em nosso presente cultural tratamos a noção de liderança como se se referisse a um valor em si, como se detonasse uma habilidade ou capacidade que possuem as pessoas que chamamos de líderes. Assim, não vemos que o que conotamos em nosso presente cultural ao falar de liderança é uma relação interpessoal em que uma pessoa deixa que outra inspire seu fazer num ato de subjugação admirativa dos desejos ou da vontade desse outro que aceita como guia. O prazer de fazer o que se quer mediante a obediência de outros com frequência leva aos que são tratados como líderes à tentação de "autoritarismo", e, no desejo de conservar essa relação, o "líder" prontamente procura garanti-la para além da vontade dos liderados com alguma teoria inquestionável que a justifique ou com algum procedimento de castigo que a assegure desde o medo de perder o que se quer conservar."