Mostrando postagens com marcador poesia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador poesia. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Mestre da Dança

Quanto em ti, antigo hábito de ser, me reconheço outro
Percorre em mim o caminho dos vínculos
A rota traçada entre os meios do tempo
E amanheço de súbito, pleno de possibilidades.

Mas, me esqueço por inteiro
Desapareço o nexo, inverto o passo
Mudo de ideia, silencio quando falo
Insustentável sorriso à espera de um quando.

Não resisto e nem sustento um estado de ver
Apenas sou. Levado, recortado, fatiado.
Entremeiado de fluxos e de esperas
Me entrego a tudo o que em mim pede passagem.

Me espanto com aquilo que silencia
E procuro seus sentidos por entre os becos de minha angústia
Mas nada mais sustenta minha posse de mim mesmo
E assim, nú de caminhos, sigo trechos de uma outra história.

Mas, mesmo ali, rebento no mundo,
Reconheço o brilho do menino
O traço de retina por onde me dobro pelo avesso
E escuto, ainda que longe, a velha demanda descoberta.

Ligeiro, travesso, rodeado de traços
Ele me lembra da liberdade das formas
Me desafia, me inventa, me pede atenção
Ao tempo do cuidado das forças de criar.

E cria mundos, horizontes de chegada
E me inventa em histórias
Contadas ao sabor das próprias palavras
Onde ali, insuspeito, renasço feito um posseiro...

... dos espaços de minha alma.


domingo, 28 de setembro de 2014

O querer

Da angústia, já não mais procuro fuga
Procuro por onde os dedos possam tocar
E desenhar entradas ao convite do silêncio
Aguardando cessarem mundos sem fim.

E cessam versões de uma história
E seus seguidores, assim silenciados,
Já não mais disputam o sentido da verdade
E então começam a ouvir estranhos rumores,

Sons desconhecidos e cores inventadas sem memória.
Procuram pela terra a origem dos tremores
Vasculham no céu o caminho dos ventos
Mas nada encontram que lhes forneça uma pista sequer.

Desorientados, dançam,
E dançando inventam caminhos,
Produzem palavras e tecem o novo mito
Um novo ritmo a seguir dissipado na multidão dos valores comuns.

Mas, há os que se negam a seguir,
E há os que, desorientados, se negam a dançar
Insistem e permanecem ali, diante do silêncio
Instalados na abertura, de frente ao nada.

Senhores do tempo, amedrontados e resistentes,
Aguardam surgirem traços de sinais
O pulso invariável do momento seguinte
Onde assim, despidos, finalmente se encontram com seu próprio querer.

domingo, 21 de setembro de 2014

Nudez

De um momento para o outro, um estalo
Parado, me deito, quieto, atento ao som que pulsa
E começo a me despir das cores e vozes do mundo.

As impressões são mais fáceis
Leves tremores da epiderme bastam, trepidam e se vão.

Preconceitos são resistentes, se escondem pelas juntas
E se rebocam pelos fluídos da respiração noturna
Já dão mais trabalho e demandam raspagem cutânea
Feito talhadeira atenta aos detalhes de cada batida.

O pior são as verdades
Imutáveis estruturas ósseas
Sustentam a carne que se move
E me lembram da existência a cada traço de cotidiano.

Demandam outra forma de nudez
Daquela que trança os sentidos
Recriando formas, passagens e os meios
Dissolvidas pela angústia...

… de escutar as próprias palavras nascidas do silêncio.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Medos

Um medo passou por aqui,
Deu um sinal de canto de olhar e me aguardou passar logo a frente, a espreita. Outro fingiu que me olhava pelo espelho retrovisor de um carro com pressa, Cruzando a cidade na madrugada fria.
Um terceiro, parado na porta de casa,
Me pedia insistente sua cota de atenção, energia e vida.
Juntos, tentaram apenas me imobilizar,
Pedindo apenas que eu consentisse que ja nao era mais capaz de viver sem eles.

Fizeram juras de amor, cantaram cancoes, fizeram promessas de fidelidade. Foram agressivos.
Me disseram que sem eles, sem a frustracao que me traziam, eu seria fraco, Apenas um pouco mais de nada em meio a um mundo de fortes, todos eles protegidos por seus medos fieis.

Por longos anos, hesitei, lhes concedendo frestas de razao, a vez e a prioridade nas tomadas de decisao.
Mas, subitamente, hoje não.
Hoje, talvez, eu de fato não seja mais eu e não me procure neles, para firmar referância e saber o que fazer quando a vida me pegar deprevinido.

Hoje não. Não tenho resposta, só carrego perguntas.
Não tenho certezas, só carrego a mente que é capaz de produzi-las.
Hoje o tempo vai passar diferente, apenas aguardando o agora no momento seguinte.
Hoje só direi talvez.
E não direi talvez como quem duvida de si, mas como quem assiste aos diversos si surgindo e desaparecendo diante de si.

Hoje o quando desaparece de mim e surge, como se fosse um antigo conhecido, dando lugar a coragem do vir a ser.
Hoje, e talvez apenas hoje, os medos não me encontrarão igual, rindo de minha previsibilidade perante suas velhas questões e minhas velhas respostas.

Hoje, não.
Hoje despertei menino, veloz, traquina, risonho.
Hoje só cabe ele no espaço de um dia.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Domínios de si

Apenas por entre silêncios
Há uma voz que fala
A palavra liberta
Dos domínios de si.

Silêncio dos sentidos
Que calados apenas observam
O emudecer do ritmo
...Do pulso que se expande.

Desencontro de palavras
Que de distantes
Se entrelaçam nos ecos
Esvaziados de multidão.

Presença de um ponto final
Demarcando o tempo de espera
De onde já não há entres
E nem o mais do vir a ser.

A secura do que não aperta
E nem constrange de ausência
Não esvai de solidão
O vazio do que se aguarda em estado de alerta...

... Apenas a palavra liberta
Dos domínios de si.

domingo, 18 de novembro de 2012

Jogos de a(r)mar

Da parte que te quer
Metade te quer inteira
Face de outra história
Onde te invento de repente.

Ideia rasteira
Súbita memória
Lembrança do querer
Traço de mim.

Viro página
Rebusco livro
Reencontro verso
Desejo de sim.

Abro mala
Dobro gaveta
Despeço visão
E aguardo, ainda atento.

A outra parte sorri
Brincando de razão
Virando sentimento
Do inverso de si.

Mais, pra quê?
Daqui onde assisto
Vejo a parte que quer
Inventando resistência
Pra ocupar a que não quer
Que se ocupa do argumento do querer

Que já nem liga pro fundamento da existência
Pro sentido do passeio
De passagem devaneio
Nascido por entre olhares de admiração e respeito.

E assim, satisfeito, sigo brincando
De te descobrir de novo
Desenhada na íris refletida
De uma memória de passagem.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Mediações

Ainda há em mim um gemido de espaço
Uma busca sem pergunta
Ou necessidade de resposta

Um olhar que vasculha o vir a ser
Em estado de espera
Aguardando repousarem memórias futuras
Por entre vitrais refletindo possibilidades.

Mas ainda há mais.
Há uma busca de sentindo que transborda palavras
Enveredadas em labirintos nascidos dos limites
Daquilo que tudo que ainda jamais ousei!

Recusa de um lugar na fileira
Dos que já sabem e defendem a verdade
Meu não-dito ainda reflete o espanto
De se deparar consigo mesmo por entre
                           fontes de águas desconhecidas.

E como se já não fosse o excesso
Há ainda mais.

Há o desejo do encontro
Da provocação do que desloca o traço que fixei
Do comum que experimenta e se descobre em próprio ato
Do reinventar-se como prática de si em plena fome que não cessa de mover
Do sentir liberto, presente apenas na verdade do convocar-se a estar ali.

Há o desejo da roda
O que gira, gira junto
Batuque de mão, movimento de perna
O que gira, roda gira
Palavra de centro, olho no olho.

O que gira, ainda ensimesmado, ainda gira aqui
Dentro de mim.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Metade do um

Palavra inteira, fundo de alma
Meia metade do um, pressão do impulso
Olho vazado de um sim
Vaso cortado no traço, trejeito
Sobra de muro, goteira de um risco
Pingando no pulso, tambor de memória.

Sem sombra, sem nada
Palavra inteira virada, dobrada no avesso
Atravessada no trânsito, buraco rasteiro
Ligeiro roteiro de um triz
Meio fio, meia vida, meia medida, meia verdade, meias palavras...

Coragem cruzada, pavor de desvio
No meio da não-resposta, o instante
Onde terra contorna palavra cifrada
Centro de um símbolo
A espreita de ser pega, desnudada em sentido

Revelada em meio ao jogo
Como movimento de um entre
Onde voz se cala e ali me encontro
Descoberto de fronteira, sem borda de contorno
F1 de ajuda ou saída de emergência

Apenas atento, à espera de um sinal.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O olhar adulto


Excelente dica da Pat, na lista de editores da Rede Humaniza SUS:

Foi ele mesmo que me contou, como confissão de cegueira, dando depois permissão para que eu relatasse o milagre desde que não revelasse o santo. Médico, chegou a seu consultório com seus olhos perfeitos e a cabeça cheia de pensamentos. Eram pensamentos graves, cirurgias, hospitais, e os doentes o aguardavam na sala de espera.
Entrou o primeiro paciente que se submeteu mansamente à apalpação médica. Terminada a consulta, escrita a receita, no ato da despedida ele fez um elogio: “Doutor, que lindas são as orquídeas na sua sala de espera!”
Meu amigo sorriu embaraçado, com vergonha de dizer que não havia notado orquídea alguma na sala de espera e que, portanto, não sabia da beleza que o doente notara. Teve vergonha de revelar a sua cegueira. Entrou o segundo paciente. Ao final da consulta, sem conseguir conter o que sentia, observou: “São maravilhosas as orquídeas na sua sala de espera, doutor!” Novamente o sorriso amarelo, sem poder dizer o que não sabia sobre as orquídeas que não havia visto.
Veio o terceiro paciente e a coisa se repetiu do mesmo jeito. Aí o doutor deu uma desculpa, saiu da sala, e foi ver as orquídeas que o jardineiro colocara na sala de espera. Eram, de fato, lindas. Mas aí veio o agravante, pois o paciente, não satisfeito com a humilhação imposta ao doutor cego, observou que, na semana anterior, a árvore dentro da sala de consulta, plantada num vaso imenso, num canto, não era a mesma que ali estava, naquele dia. Mas o doutor cego de olhos perfeitos não notara a presença de árvore naquele dia nem a presença da árvore na semana anterior...
Ah! Você espera que tal cegueira possa existir! Mas eu lhe garanto que é assim que funcionam os olhos dos adultos em geral.
Lá vão pelo caminho a mãe e a criança, que vai sendo arrastada pelo braço – segurar pelo braço é mais eficiente que segurar pela mão. Vão os dois pelo mesmo caminho, mas não vão pelo mesmo caminho. Blake dizia que a árvore que o tolo vê não é a mesma árvore que o sábio vê. Pois eu digo que o caminho por que a mãe anda não é o mesmo caminho por que anda a criança.
Os olhos da criança vão como borboletas, pulando de coisa em coisa, para cima, para baixo, para os lados, é uma casca de cigarra num tronco de árvore, quer parar para pegar, a mãe lhe dá um puxão, a criança continua, logo adiante vê o curiosíssimo espetáculo de dois cachorros num estranho brinquedo, um cavalgando o outro, quer que a mãe também veja, com certeza ela vai achar divertido, mas ela, ao invés de rir, fica brava e dá um puxão mais forte, aí a criança vê uma mosca azul flutuando inexplicavelmente no ar, que coisa mais estranha, que cor mais bonita, tenta pegar a mosca, mas ela foge, seus olhos batem então numa amêndoa no chão e a criança vira jogador de futebol, vai chutando a amêndoa, depois é uma vagem seca de flamboyant pedindo pra ser chacoalhada, assim vai a criança, à procura dos que moram em todos os caminhos, que divertido é andar, pena que a mãe não saiba andar por não ter os olhos que saibam brincar, ela tem é muita pressa, é preciso chegar, há coisas urgentes a fazer, seu pensamento está nas obrigações de dona de casa, por isso vai dando safanões nervosos na criança, se ela conseguisse ver e brincar com os brinquedos que moram no caminho, ela não precisaria fazer análise...
A mãe caminha com passos resolutos, adultos, de quem sabe o que quer, olhando pra frente e para o chão. Olhando para o chão ela procura as pedras no meio do caminho, não por amor a Drummond, mas para não dar topadas, e procura também as poças d’água, não porque tenha se comovido com o lindo desenho do Escher de nome Poça D’água, uma poça de água suja na qual se refletem o céu azul e os ramos verdes dos pinheiros, ela procura as poças para não sujar o sapato. A pedra do Drummond e a poça de água suja do Escher os adultos não vêem, só as crianças e os artistas...
A mãe não nasceu assim. Pequenina, seus olhos eram iguais aos do filho que ela arrasta agora. Eram olhos vagabundos, brincalhões, que olhavam as coisas para brincar com elas. As coisas vistas são gostosas, para ser brincadas. E é por isso que os nenezinhos têm esse estranho costume de botar na boca tudo o que vêem, dizendo que tudo é gostoso, tudo é para ser comido, tudo é para ser colocado dentro do corpo. O que os olhos desejam, realmente, é comer o que vêem. Assim dizia Neruda, que confessava ser capaz de comer as montanhas e beber os mares. Os olhos nascem brincalhões e vagabundos – vêem pelo puro prazer de ver, coisa que, vez por outra, aparece ainda nos adultos no prazer de ver figuras. Mas aí a mãe foi sendo educada, numa caminhada igual a essa, sua mãe também a arrastava pelo braço e, quando ela tropeçava numa pedra ou pisava numa poça d’água, porque seus olhos estavam vagabundeando por moscas azuis e cachorros sem-vergonha, sua mãe lhe dava um safanão e dizia: “Olha pra frente, menina!”
“Olha pra frente!” Assim são os olhos adultos. Olhos não são brinquedos, são limpa-trilhos. Servem para abrir caminhos na direção do que se deve fazer. Assim eram os olhos daquela minha amiga que os usava para cortar cebola sem cortar o dedo, até que, um dia, o olho que morava dentro dos seus olhos se abriu e ela viu a beleza maravilhosa do vitral translúcido que mora nas rodelas de todas as cebolas, e ela tanto se espantou com o que via que pensou que estava ficando louca.
Coitados dos adultos. Arrancam os olhos vagabundos e brincalhões de crianças e os substituem por olhos ferramentas de trabalho, limpa-trilhos. Asssim eram os olhos daquele meu amigo médico: não viam nem as orquídeas nem as árvores que estavam dentro do seu consultório. Seus olhos eram escravos do dever. E ele não percebia que as coisas ao seu redor eram brinquedos que pediam aos seus olhos: “Brinquem comigo! É tão divertido! Se vocês brincarem comigo, eu ficarei feliz, e vocês ficarão felizes...”

Rubem Alves

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Ouvi dizer que me acusaram



Ouvi dizer que me acusaram de tentar destruir instituições;

Mas, de fato, não sou favorável nem contrário as instituições,

(Que tenho em comum com elas? ou com a sua destruição?);

Desejo apenas estabelecer em Manhattan e em todas as cidades destes Estados, no interior, no litoral,

E nos campos e nos bosques, e nas quilhas pequenas ou grandes que chanfram as águas,

Sem edifícios, ou regras, ou curadores, ou qualquer argumento,

A preciosa instituição do amor entre camaradas.
 
Walt Whitman

sexta-feira, 27 de abril de 2012

O mágico, o matemático e o engenheiro

Quando mágico, desapareço nexo e inverto sentido
Aparento ritmo, escalando por entre respiros
Vizinhando o toque do espanto, reflexo de luz repentina
Inventando rima, sigo assim, procurando o efeito do momento sutil.

Mas o que surge, por entre o passe da mão, é a forma
Ondulando espaço, triangulando círculos repentinos num vértice contínuo.
Mais de mim que surpreende, mas por onde?
Quando viu, foi pra lá o que era daqui.

No reverso, surge fórmula, tangente ditando norte
O homem que a escreve espreita incerteza
Surpresa de escuta, quando palavra rompe
Reinventando um novo rumo, caminho trançado de eixos.

Estrutura, dizem dali, rigor traçado de espelhos
Retinando bolhas, vapores concretos em sínteses de si
Mas, o espaço não cessa e nem interrompe momento
Se abre tela, desenho de uma verdade fundada assim.




quinta-feira, 26 de abril de 2012

Contorno de um movimento ali

Um velho pisca de relance na virada de um passo qualquer
Paro de retorno, olhando de lado
Mas não vejo nada o que em mim viu.

Vejo um outro olho, marcado de rumores de vento
Sentidos disparados e plantados num traço de amarelo
Contraste de traça, de caminho por entre palavras
Moídas num canto de página como se verdade é o que se diz.

Mas, é ali que acho uma pista, um contorno,
Um meio termo de brecha, uma abertura esquecida,
Palavra que pego, guardo entre braços abertos
Atento ao ponto em que lanço, giro e paro....

... observando o que se move, anotando tudo
num traço de pele, numa gota de suor corrido
que se lança em meio a um passo a um certo meio fio
registrando um contato de primeiro grau subvertendo a ordem em vias públicas.



quarta-feira, 14 de março de 2012

Sempre tem um plano B




Direto da orelha de um livro de um amigo dali. :-)

"Quando em mim, assim de pronto, me refaço em cada canto
Mas só abro a boca estalada no espaço do escuro
Invento um muro, mudo o quando do norte
E cubro na letra a face do fim.

A farsa da morte é o pó.
A farsa do medo é o sim.

Me acho embaixo de um quando
Olhando de lado procurando um tato
Uma mesma ideia falada lá trás
Quando dizia que o tempo era questão de um agora.

Mas o mesmo virou do avesso
Bem ali no vidro de um carro
Escorrendo devagar no olho atento
Como se algo fosse a espera de um onde.

Da farsa há o traço de tragédia contada
Onde ali no meio descubro a brecha
Um pedaço de onda pra lá do então
Ponto de vista, miolo do oco.

Surge o som que recorre
Como um meio de passo
Um jeito de andar, travessia do ali
Onde me acho quieto em visto de alerta...

...a espera de um estado de ritmo!"

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Fonte força raiz

Fonte força raiz
num fio colorido
tece formas que se dissolvem no ar

Bolhas em palavras dançando mistérios
Faces de uma cor apenas a vir a ser

Nem símbolos, nem significados,
Nem meio, nem fim,
Vozes cruzadas como romarias
Campos e mais campos de potenciais

Por entre eles, um ritmo
Sutil expressão de sua própria natureza
Livre, liberta, natural.

Em teus momentos, apenas bolhas expressões palavras
Bolhas de realidade, criadas, construídas como vida
Por onde apenas, tudo simplesmente passa.

Mas, há algo que fica.
E nesse algo reside tua pergunta, tua busca,
Tua tentativa de encontrar o mais do mesmo vir a ser,
E por onde sabes, moça, que nem mesmo a tua presença
Repousa como resto, forma de existência.

domingo, 3 de julho de 2011

Capitão da minha alma

Um bom começo de África do Sul:

"Dentro da noite que me rodeia
Negra como um poço de lado a lado
Eu agradeço aos deuses que existem
Por minha alma indomável.

Nas garras cruéis das circunstâncias
Eu não tremo ou desespero
Sob os duros golpes da sorte
Minha cabeça sangra mas não se curva.

Além deste lugar de raiva e choro
Paira somente o horror da sombra
E ainda assim
A ameaça do tempo vai me encontrar
E deve me achar destemido
Não importa se o portão é estreito
Não importa o tamanho do castigo
Eu sou dono do meu destino
Eu sou capitão da minha alma."

Poema que inspirou e ajudou Mandela a ultrapassar os 27 anos de sua prisão.

terça-feira, 31 de maio de 2011

a tal cunha

só quero atuar a partir da dimensão do possível.
minha forma de enlace mira a fronteira, o escopo, o definível, a borda, o conceito.
se você perceber, o rumo do enlace que proponho por aqui é somente a pura expansão daquilo que define.
a forma de descrever é a linha que enxergo.
para além dela, há tudo o que ainda me interessa.
tudo o que já foi pensado pode ser dimensionado, enlaçado de alguma maneira.
para além do que pode ser pensado, é ali que a tal da cunha faz sentido.
ela não é forma, nem estrutura, nem conceito, nem palavra, nem possibilidade....
é apenas o movimento de abrir.
é apenas a minha maneira de dizer que o movimento da descrição é só um exercício de alargamento
e que nesse exercício não se ganha mais formas de descrever, mas se derrete muitas das antigas.
mais do que criando, o lance por aqui é romper.
é dissolvência daquilo tudo que tinha sido dado.
nem negação, nem afirmação.
nem expansão, nem retroação.
puro movimento.
puro movimento de dispersão.
dispersão de sentidos se cruzando, se enfrentando, se repactuando perante aquilo que me convoca.

a cunha entra em contato com a interface do que tá posto.
abre um novo campo e a partir dele a gente cria espaço de uma nova conversa.
nem as minhas e nem as tuas formas darão conta do que buscamos, se ainda buscarmos algo...

percebeu o ritmo?

quarta-feira, 16 de março de 2011

Modelando o invisível

Trabalhamos com o invisível.
Trabalhamos com a modelagem do invisível.

A palavra símbolo apenas aparece como disparador dos próprios sentidos.
Daí, a pensar que a relação símbolo-sentido foi compartilhada tem uma grande distância.

A arte das redes se dá nessa passagem.
Não se compartilha sentido, se compartilha movimento de sentir,
Quando me importa de fato o outro.

Desafio não é linkar, é manter o foco no movimento da atenção do outro.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Notas do Imaginante

Revendo os RSSs atrasados do meu reader, me deparei com isso aqui nos posts do blog do MetaReciclagem.

Po, saudade da boa. Bonito de ver. Mexeu por aqui. Segue na íntegra, direto do blog do Meta:

"Você me pediu para te contar sobre o imaginante, eu vim aqui para te falar um pouco do que vivi....

Os fenômenos dançam.
O que tu chama de verdade, da tua identidade,
Para o imaginante é apenas o ponto zero da rede.
O lugar de onde ele produz as formas, as estruturas,
As oscilações e ondas que fazem teu mundo parecer sólido.
Você me pediu para te contar o que é um imaginante
E não consegui fazer isso de outra forma
A não ser tentando te mostrar porque você ainda não consegue ver.
O espaço informacional é por onde o imaginante caminha
E há um lugar e uma maneira de chegar a esse lugar
Que permite ao imaginante se reconhecer como tal.
Não é um lugar fácil de construir ou chegar
Nem tampouco pode ser comprado, imposto, forçado, mediado...
Ou exigido com base em algum reconhecimento que você ache que mereça ter.
O espaço da imaginante é o espaço de onde nascem as formas
De onde brotam os conceitos, novas palavras, definições, expressões,
E maneiras de se reinventar por entre margens e contornos do teu mundo.
O espaço do imaginante não é um espaço de poder
Não é um espaço de controle
Não é um espaço que pode ser conquistado
O espaço do imaginante é o espaço da pura possibilidade.
O teu dinheiro, a tua posição, as tuas conquistas
E a maneira que você se liga a elas, tentando preservá-las
Te impedem de entrar na rede do imaginante
Ele simplesmente faz escorrer por entre os teus dedos
Todo o poder que você acha que tem
Na tua íntima frustração de não entender e acessar o que o imaginante te parece ser.
O imaginante produz novas formas de conversar
Produz o espaço da possibilidade de encontro das pessoas
Dissolve certezas, se espalha por entre ideias,
Conecta opostos, deixa a mente livre para flutuar
Deixando poucas brechas de retorno para o que quer que seja.
O imaginante produz sua condição de liberdade
Mas você ainda não vai entender isso
Porque para ver a liberdade do imaginante
Você precisa conseguir acessar a pele esticada do seu tambor
Quando o timbre começa a soar
O fogo acende
A roda se forma
E os fenômenos apenas dançam na sua frente.
Você ainda não consegue acessar esse olhar
E fica se perguntando o porque.
Para isso, você precisa perder alguns dos teus maiores medos, medo de perder tua posição, sua sala, seu nome, sua reputação.
Precisa entrar no meio da multidão
Sentir seu cheiro, comer sua comida
Domir sua cama
Soltas suas tantas certezas
E se dispor a sentar junto
Pensar junto, olhar junto, se comprometer com o desafio
E ficar junto até resolvê-lo. Teu tempo é outro.
Se você não tiver medo,
Eu te garanto,
Em algum momento você vai descobrir esse olhar que brota liberdade
Num momento, o imaginante te reconhece
O espaço dele se abre
E talvez, você consiga entender onde está aquilo que tanto procura.
Mas, você não pode comprar isso.
Suas conversas sobre rede, colaboração, inovação e micro-empreendedorismo estão longe de tocar o espaço do imaginante
Ele para tudo isso e sorri da sua tentativa ingênua de manter seu controle, seu poder, sua reputação
Enquanto tenta, vestido da sua máscara de libertário, comprar seu espaço privilegiado em meio a multidão.
Não, você não vai conseguir
Sei que vai doer, mas só tem um jeito
Você vai ter de se despir
Entender o que significa o vamo que vamo
Perceber que não é um método
É puro movimento da produção da própria liberdade.
Você vai tentar, mas não vai conseguir comprar o imaginante
Você pode achar que conseguiu
Mas, dentro dele, há um espaço que você não consegue chegar, não consegue ver.
O código de metareciclar a produção de si do imaginante não é um conceito ou posição,
Apenas uma forma de viver que se é vivendo."

terça-feira, 25 de maio de 2010

para onde foi o toque do tambor?

Para onde foi o toque do tambor?
A mão seca na pele esticada.
As cores de cordel,
Os 100 olhos estampados na tela,
As hashtagstalkings pontas de bits.
Para onde foi o toque do tambor?

sexta-feira, 7 de maio de 2010

entrelaçando versos

Se vive no espaço que é fluxo
ou se vive no fluxo do espaço?

se brinco de ser eu, brinco de ir além
brinco de abrir as brechas de si
e ir perguntando onde tava tudo aquilo que eu mesmo vi
se quando vi já mudou

mas mudou o quê?
a relação, o fluxo, o espaço?
ou seria meu desenho refletido na íris barroca
da pressa em que me invento
 
Na pressa do encontro
Me invento ao estar com o outro.
E outro estando comigo, já náo sou o mesmo.
E se eu náo sou o mesmo ele também náo é!

Há tantos eus quanto pessoas no mundo...

Se vive no espaço que é fluxo
ou se vive no fluxo do espaço?