quinta-feira, 28 de julho de 2011

Artefatos, místicas e formas de pensar

Não creio que seja muita novidade entendermos que não fomos "treinados" na nossa cultura, no sistema educional, político, familiar bla bla bla para pensar diferente de formas lineares de entender as coisas. É praticamente "natural" analisarmos as coisas buscando relações de causa e efeito: se isso aconteceu, aquilo deve ter acontecido; se está desse jeito, é por culpa de tal coisa; se fizermos isso, vai rolar aquilo.

Criticar essa forma também não é algo novo. Muitos livros têm sido escritos, experiências, projetos, filosofias. De fato, no meu entender, estamos ainda no início da desconstrução: o novo tá visível como potencial, como possibilidade, ainda longe de se transformar em modo "natural" de pensar, pautando a maneira que nos organizamos e nos relacionamos. Ainda estamos longe disso.

Até aí, tudo bem. Há pouco a se fazer, a não ser aprofundar a crítica, analisar as possibilidades, experimentar, buscando sinalizar o novo na crença/aposta de que novas e novas gerações vão chegar, constituindo uma nova cultura, deslocando o velho e produzindo o novo. A vida que muitos de nós gostaríamos de viver, ao menos aqueles que estão se dando conta disso e percebendo os próprios limites no modo de fazer as coisas, não será experenciada em plena potência-contágio-coletivo nos tempos atuais. Somos o povo da romaria, somos o povo da migração, somos o povo que levanta poeira e busca construir um caminho por onde passar.



Lidar com isso é apenas uma condição de contorno, todavia. Há tantas brechas a serem exploradas, há tanto por se pensar e experimentar a cada dia, que a mente chega a não dar conta de tanta coisa que poderíamos tentar. Começar é um bom começo... ;-)

Tudo para isso para compartilhar uma reflexão que tem ganhado força dentro de mim nas últimas semanas. Algumas pessoas tem me perguntado por quê tenho dedicado tanta atenção, tempo e esforço estudando novos modelos matemáticos de análise de redes, dinâmica de sistemas e sistemas complexos. Acabei me dando conta que falei pouco sobre o que de fato tem ressoado aqui dentro, não na superfície, mas naquele âmago que te faz acordar as 3:00h da manhã e começar a rabiscar no velho caderno antes que a ideia-imagem-forma se esvaia nos abismos de si.

O fato, já eternizado por Einstein, é que para novos problemas precisamos de novos métodos. A vivência dos últimos 10 anos, somada a toda a experiência cultural-religiosa que vivencei nos últimos 7 anos, foi deixando isso gradativamente mais claro.

A dimensão da rede, do se relacionar em rede, da produção coletiva, da comunidade é um campo que ainda estamos de fato apenas começando a entender. Não há nada trivial nisso. Tenho explorado diversos pensadores/experimentadores que têm falado sobre isso e pautado a fronteira do que ainda conseguimos pensar. Gente como Fritojf Capra, Humberto Maturana, Gregory Bateson, Edgar Morin, Weiner Heisenberg, Ilya Prigogine, Pierre Levy, David Bohm, Barabasi, Duncan Watts, Mark Newman, Castells, Foucault, Deleuze, Guattari, Regina Benevides, Edu Passos, Nietzsche, Francisco Varela, sem falar nos aliados do dia-a-dia, Susana Maiani, Regiane, Renata Pudo, Paulinho, Felipe Fonseca, Daniel Pádua, Hernani Dimantas, Ricardo Teixeira, Rogério da Costa, Luiz Algarra, Lu Annunziata, Drica Guzzi, André Benedito, Glauco, Guima, Gus, Naty, Isis, Mari, Moura e por aí vai, são pessoas que têm, de uma forma ou de outra, me dado pistas, dicas e apontado caminhos, sobretudo aquelas que estão se predispondo a vivenciar isso em suas próprias relações.

Mas.... Tem um algo na minha forma de ver as coisas que estrutura a experiência a partir de algum tipo de método. Tenho me dado conta disso nos últimos anos, mas é algo que entendo estar presente desde sempre. O método, para mim, é o princípio, a energia motriz de organização daquilo que com que me relaciono.




Ocorre que o método que tenho utilizado desde sempre é o mesmo método linear que aprendi nos meus anos de estudo formal/convivência com tantas outras pessoas que pensaram assim. Seria pedir que de repente, ao entrar em contato com novas ideias, tudo subitamente mudasse. Não, as coisas são, em geral, um pouco mais complexas que isso.

Tem sido necessário construir um novo modo de pensar, uma nova forma de estruturas as coisas. Essa nova forma precisa incluir muitas dimensões, precisa ser flexível, móvel, dinâmica, ágil, adaptável. Precisa criar espaço para que outros pontos possam ser conectados, permitindo não apenas somar efeitos, mas emergir sensações e sínteses que não seriam possíveis antes.

O ferramental matemático da Teoria dos Grafos, o que de fato fundamenta a análise de redes e parte expressiva do que temos utilizado para o estudo dos sistemas dinâmicos traz essa perspectiva, ao meu modo de entender.

Simplificando ao máximo: é uma das formas modernas de entrar nos fluxos, de se deixar tocar pelas multiplicidades, de entrar no caos das interações, das relações emergentes e voltar de lá com um artefato, um objeto místico-síntese-atrator que tão simplesmente quanto a sua própria existência simbolize um movimento.

Não, não há nada de muito diferente do xamã que entra nos sonhos, nos fluxos da tribo e volta de lá com os totens-tabús produtores de sentido de seu coletivo. Uma nova forma de dar contorno e lidar com a amplitude daquilo que me ultrapassa.

Essa tem sido a motivação dos contornos de um novo modo e, posso garantir, estou ainda bem no começo, mas já começando a esboçar formas um pouco mais interessantes....

terça-feira, 12 de julho de 2011

Gerando mapas de longitudes e latitudes

Tive um problema para resolver hoje e documento por aqui a solução, pois a busca pela web não pareceu nada trivial.

A ideia é que eu tinha uma lista de cidades de monitores que participam da formação do Telecentros.BR. Eu queria gerar um mapa a partir dessa lista para poder ver como estava essa distribuição no Brasil como um todo. Que caminho eu escolhi:
  1. baixei uma listagem de latitudes e longitudes do site da DataSus;
  2. gerei uma lista de correspondências entre as minhas cidades a listagem acima, via a função procv do OpenOffice. Exportei a listagem em duas colunas, com o nome da cidade e as coordenadas juntas numa mesma coluna, num arquivo CSV;
  3. gerei um arquivo KML para ser importado diretamente no Google Maps via um site que faz esse serviço online;
  4. Importei os dados diretamente no Google Maps e saiu esse mapa aqui.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Parque Hluhluwe-imfolozi

O Parque Hluhluwe-imfolozi é a mais antiga reserva criada na África do Sul, em 1895. O segundo maior em área no país, apresenta uma variedade incrível de animais e paisagens. Marcante! E num que até deu para fazer um safari... ;-)








Mais fotos por aqui!

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Conferência ISSI 2011 - anotações do quinto dia

Último dia de congresso aqui em Durban e, para ser sincero, não poderia ter sido melhor. Discussões ao longo do dia de altíssimo nível, boas conversas de corredor, ânimos e perspectivas se desenhando do para onde estou e para onde vou.
Detalhando o dia por aqui.

  1. Keynote address - hoje falou o Jonathan Adams, presidente da Thomson Reuters, uma das maiores empresas do mundo na área de indexação de recursos digitais. O tema da fala dele era sobre um novo sistema da Thomson para indexação de livros, gerando métricas de citação que possam ser coletadas para análise assim como é feito hoje pela WebOfScience.  O ponto central dessa fala é a escolha que estão fazendo de apenas indexar livros em inglês. A apresentação foi duramente criticada por vários participantes, por razões óbvias. O império contra-ataca. 
  2. Sessão Mapping/clustering 1 - A sessão várias pesquisas preocupadas em formas de mapear relações entre documentos, conversas, textos, enfim, conjuntos de recursos para poder analisar relação e relevância entre eles. Utilizam algumas formas tradicionais de cálculo de similaridade entre documentos e outras um pouco mais novas, como considerar a distância geográfica e a relação de outros campos. Muitos ainda usam o dendograma para análise de agrupamentos como uma forma de encontrar clusters, facilitando determinar categorias a partir da análise de semelhança dos conjuntos. É interessante como têm utilizado esse tipo de pesquisa para detectar a emergência de novos campos de conhecimento, mostrando como a dinâmica de produção científica vai se reagrupamento de outras formas, mudando disciplinas, modificando áreas, recriando espaços.
  3. Sessão Mapping/clustering 2 - Alguns artigos expostos nessa sessão utilizam algoritmos interessantes para identificar clusters: MDS e Gini. O ponto interessante de um estudo mostrava como as disciplinas dos países BRIC estavam cada vez mais próximas em sua forma de organização dos países do G7, apenas usando esses indicadores por análise de descritores e categorias de documentos de produção científica. Movimento dinâmico ao longo muito interessante de visualizar. De fato, o que está por trás disso? Financiamento, sem dúvida... Outra apresentação da sessão mostrou uma pesquisa que estuda o acoplamento de comunidades a palavras de interesse em seus documentos. Estuda isso usando técnicas de cluster e semelhança por K-means e Vosviewer (que é também um software para análise de semelhança), mostrando o quanto o último tem apresentado resultados melhores e mais bem definidos. Mostraram discussões sobre densificação da rede e sobre animação de evolução dos grafos, sendo que algumas ferramentas relatei no post da manhã de hoje.
  4. Sessão Networks 2 - última sessão do congresso. Novos indicadores para análise de co-citação e de como a informação flui por uma rede foram apresentados. Pesquisa ainda inicial, mas me pareceu bastante promissora para análise de movimentos. É algo que pretendo aprofundar um pouco e ir documentando por aqui. Um dos indicadores apresentados foi de Centralidade de Grupo, uma ideia que busca agrupar um conjunto de nós numa rede e analisar a centralidade da perspectiva do grupo e não apenas dos nós que o compõem. Uma última questão que foi tratada foi sobre previsão de links, ou seja, a partir do estudo da estrutura e da dinâmica de uma rede há um conjunto de métodos que poderíamos utilizar para prever quais seriam as próximos conexões que poderiam surgir na rede. Essa análise foi feita preferencialmente para redes bipartite (modo 2), sendo 3 elementos necessários: uma rede de treinamento, um algoritmo preditivo e uma rede de teste. Os resultados iniciais pareceram promissores. 
 Uma síntese do dia: sabemos bem pouco ainda sobre os potenciais que podemos explorar de um grafo. Há muito conhecimento a ser construído, pensado e experimentando na modelagem de uma quase infinita quantidade de problemas que podem ser tratados por grafos. O pensamento relacional ainda é algo muito novo para nós, estamos muito acostumados a pensar em relações diretas de causa e efeito, a lógica do grafo muda complemente isso. É outra abordagem, outro modo, outros desdobramentos muito mais complexos que ainda não sabemos lidar direito. O que tenho observado por aqui é uma busca contínua por entender isso melhor, por perceber o quanto os métodos de pesquisa que temos utilizado precisam ser repensados e o quanto isso está impactando em novas formas de pensamento.

Final do dia: feliz de ter participado disso tudo e aprender a quantidade enorme de coisas que pude aprender. Que venham os próximos!

Algumas ferramentas e boas dicas da ISSI 2011: caixa de ferramentas do analista

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Conferência ISSI 2011 - anotações do quarto dia

 Mais um dia de conferência, mais um dia de vários toques interessantes.

O dia começou com uma apresentação de Olle Persson sobre técnicas de mapeamento e melhorias metodológicas em visualização de grafos de redes. A preocupação básica da apresentação, e de várias outras que transcorreram ao longo do dia, foi como criar maior relevância/reputação a determinadas conexões como forma de deixar menos poluídas as imagens de redes que são geradas. O fundo dessa conversa, ao meu ver, não pode ser só focada em como resolvemos nosso problema como pesquisadores, mas sim como entendemos melhor e reconhecemos as estruturas de relevância que produzimos ao atuar em rede.

Logo depois, começaram as sessões de apresentação dos poster, na qual meu trabalho e da Sueli Mara, minha orientadora do doutorado, estavam alocados.



A primeira vez que participo desse tipo de encontro, utilizando o formato de posters para divulgar pesquisas em estágio ainda iniciais. Gostei do formato, na real, dá para analisar aquilo que te interessa, conversar com quem está por ali apresentando o trabalho, trocar contatos, enfim, conhecer um pouco mais o que cada um está fazendo. Clima bom, boas conversas. A pesquisa que trouxemos para apresentar foi uma revisão dos principais artigos publicados no Brasil sobre questões relacionadas a "redes sociais" e "informação", onde mostramos que tipo de recursos de análise os pesquisadores têm utilizado, a dificuldade de trabalhar com grandes massas de dados e problemas ainda metodológicos no uso de novas técnicas de análise. Sem dúvida, esse é um campo ainda muito no início no Brasil, ainda mais por tudo o que tenho visto aqui. Há muito a experimentar, pois temos características, focos de análise que passam longe das preocupações que circulam num fórum como esse. Por exemplo, nesses dias todos não vi ninguém apresentar nada relacionado a produção cultural, a apropriação de tecnologia, a produção independente, gambiarra, software livre, etc, etc. Apesar disso, o tipo de metodologia e estrutura de análise que o povo daqui tá utilizando também está bem a frente do que usamos em outros tipos de estudos, como mencionei acima. Uma boa junção.

Depois da sessão de posters, fui para as mesas de trabalho do dia. Segue uma síntese por aqui:
  1. Sessão Networks 1 - a mesma tendência de como criar novas estruturas de produção de relevância para melhorar a análise de grafos estava presente na mesa como um todo. Algumas propostas caminhavam no sentido de utilizar não só a conexão, mas seu conteúdo como um espaço relacional a ser caracterizado a partir de critérios determinados. Outros pesquisadores têm trabalho com a ideia de que pedaços de documentos podem ser vistos como genes que são passados para outras produção, derivando mutações e transformações. Ideia interessante, Dawkins já falava isso nos memes, mas a aplicação não interessou muito. Outra pesquisa falava sobre como considerar a formação de "cartéis" de citação entre pesquisadores de uma área científica. Para isso, ele propunha estudar não só apenas o efeito da auto-citação, mas os efeitos e movimentos das redes de pesquisadores próximos no grafo de forma conjunta a partir dos indicadores de proximidade. Ideia interessante. Ele separou e analisou como evolui no tempo os diferentes níveis de atuação desses pesquisadores em camadas distintas de rede. Gostei da forma como isso foi apresentado. No meu caso, faria sentido entender como evolui no tempo as diferentes camadas de colaboração num espaço de produção científica: instituições, departamentos, grupos, etc. 
  2. Sessão Data Sources 1 - Foi uma sessão de vários trabalhos em andamento, com menos tempo de apresentação para cada um. Marcou a presença de pesquisas brasileiras, mostrando como o país está se fortalecendo para dentro, ao contrário do que outros estudos apontavam. Em tese, os movimentos brasileiros têm fortalecido a atuação nos jornais do país, consolidando espaços internos de publicação da produção. Interessante entender como isso se relaciona com as políticas públicas na C & T. 
  3. Sessão Key address - Apresentou uma fala o Ricardo Baeza Yates, um dos líderes na europa do Yahoo Lab. A fala se concentrou em analisar quais são as limitações atuais de algoritmos de busca da informação na Web - como o Pagerank - e quais estão sendo algumas das tendências futuras na área e para onde o Yahoo está olhando. Em termos de limitações dos algoritmos, o ponto mais forte que foi mencionado é o que ele chama de relevância negativa, ou seja, como tratar movimentos de spam que produzem centanas/milhares de sites, redirecionam links e articulam conjuntos de estratégia para "enganar" a estrutura dos atuais algoritmos. O ponto chave está em identificar isso e as experiências que estão fazendo é usar mais e mais dados gerados em redes sociais como acoplamento a indexação tradicional de links. Algumas experiências foram mostradas, alguns resultados potenciais e melhores significativas aos atuais algoritmos. A checar melhor! No entanto, a visão da Yahoo é que a pesquisa na web não deve mudar significativamente em termos de algoritmos de busca, mas sim na experiência do usuário ao realizar buscas. Um outro recurso que ele mostrou foi o WebScope da Yahoo, que é uma plataforma que fornece dados livres estruturados para estudantes, grupos de pesquisa e interessados de forma geral. Por exemplo, dados de usuários que votaram em suas músicas preferidas no sistema do Yahoo, dados de linguagem natural, relações sociais e por aí vai. Bem útil para experimentações quando não temos os dados que precisamos.
  4. Sessão Webometrics 2 -  A mesa tratou de análises do Google Scholar e Google Books, mostrando como os dois podem servir de plataformas para pesquisas em webmetria e cienciometria. Um ponto alto da apresentação foi a ferramenta Publish or Perish, que coleta os primeiros 1000 resultados do Google Scholar e sistematiza de uma forma delícia de ver. Acabei de baixar a ferramenta e já fiz com uma experiência com a Rede MetaReciclagem, o que já me surpreendeu logo de cara. Foi interessante também observar como os resultados do Scholar desequilibram totalmente o que é esperado como resultado tradicional de produção científica. Por exemplo, por ele, o Brasil é o terceiro país com mais conteúdo publicado. Isso se deve ao tipo de recurso que o Brasil está utilizando para divulgar sua produção científica, no caso o Scielo, ou seja, deixando os dados mais acessíveis para indexadores desse tipo. Enfim, ocupando espaços. Vale a pena conferir mais trabalhos do Statistical Cybermetrics Research Group.
  5. Sessão Networks and Visualization - Essa sessão foi sem grandes novidades, apresentando um pouco mais daquilo que já falei acima.
Dia bom! Experiência boa de estar em contato com esse universo de coisas legais que, sem dúvida, já estão potencializando muito aquilo que venho fazendo.